Palmeiras

O grande amor da minha vida tem 106 anos. Já sacudiu essa cidade! Sua história começa em 1914 e recomeça em 1942.

No entanto, a nossa história inicia em 1993. Junho de 1993, para ser mais específica. Deparo-me com meu pai sentado à frente da TV, com os olhos cheios de lágrimas. Pergunto a ele o que está fazendo. Ele me olha e não responde. Talvez eu até tenha entendido. Ele, sozinho naquela sala, enquanto todos comemoravam o Dia dos Namorados, me mostrou, meio que sem querer o que era ser Palmeiras.

Eu era muito nova para entender à época, mas comemorava com meu pai enquanto ele repetia quase sem voz “é campeão, minha filha! Campeão!”, e sem saber o porquê eu senti uma vontade imensa de gritar. Certa altura da nossa euforia, perguntei: “papai, o que estamos sentindo?” e ele me respondeu “é inexplicável, minha filha”.

Alguns anos à frente, eu já havia crescido um pouco, e comigo havia crescido um amor verde e branco, que toda vez que via o Alviverde imponente surgir, ao lado de meu pai, meu coração acelerava, parecia mesmo que haviam borboletas no meu estômago. Hoje em dia, há quem diga que meus olhos brilham só de ver àquelas cores.

OBSESSÃO E SANTIDADE

O ano agora é 1999, e eu acompanhei, passo a passo, Marcos virar São, e tornar toda uma nação curada – diziam que éramos doentes pelo palmeiras, mas como já me disse Mauro Beting: “Palmeiras é sempre são, doentes são os outros”.

Marcos salvou uma, duas, três, dezenas e centenas de vezes as redes do nosso Palestra, e sem dúvida os nossos corações palestrinos. A Taça Libertadores já era obsessão. Jogamos juntos com a nossa alma e nosso coração

Ele, o santo São Marcos, pegou aquele pênalti daquele arquirrival nas quartas e na final e consagrou o melhor da América, ali, bem em frente aos nossos olhos. Apesar de entender melhor, mais uma vez eu perguntei ao meu pai “o que estamos sentindo?”, e de novo, tomado pela emoção, ele me respondeu: “é inexplicável, minha filha”.

Algumas derrotas que tivemos não foram capazes de apagar a chama que apenas crescia enquanto entrava no estádio pela primeira vez para ver meu Palestra jogar. Seja no antigo e saudoso Parque Antárctica ou no novo e moderno Allianz Parque, quando aquela torcida inflama, não há jogador que não queira fazer parte dessa festa, tão bonita e tão ritmada.

Olê, olê, cantaê, eu canto eu sou Palmeiras até morrer. E canto mesmo. Torcida que canta e vibra e que só faz aumentar a garra e força para dar a volta por cima. Como foi em 2003 e depois em 2013. Contamos com homens que lutaram pela gente e devolveram o gigante para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

Eu nunca deixei de me questionar o que estava sentindo. Uma euforia, um coração agitado, um frio na barriga toda vez que tem clássico. As lágrimas amargas de uma derrota jamais tiraram o doce de tantas vitórias.

https://twitter.com/Palmeiras/status/1267199036412645378

QUEM TEM MAIS TEM 10

São 10, deca apenas no Brasileiro – e quem tem mais tem 10, não me canso de dizer – 23 em São Paulo, três copas do Brasil e um Intercontinental. Aí me falam de mundial. Quem liga para isso quando seu time já representou a Seleção Brasileira, como o meu em 1965?

É, acho que nós Palestrinos somos acostumados com as vitórias. Por isso exigimos tanto dos nossos jogadores. Passamos por Divinos, santos e até por Jesus, e todos sempre souberam o quanto era pesado vestir o manto sagrado que carrega o brasão. Todos souberam da dureza do prélio e nunca fugiram à luta. Por quem, além de Palestra Itália, eram Brasil.

Desde aquele Paulista em 1993, eu fui crescendo e entendendo o que sentia quando via meu Palestra jogar. Sabia como era a emoção de ver as cores verde e branco em qualquer lugar que fosse, desde a linda camisa nas vitrines das lojas, até nas paredes da minha casa.

No entanto, o palmeirense, por nada nessa vida, comemora antes. Mas pôde gritar sua volta por cima depois que o Prass bateu aquele pênalti. Em 2015 já diziam que o rival seria campeão. Em 2020 nos desacreditaram, e o menino da base marcou e conquistamos São Paulo de novo.

Além disso, eu sabia que os outros não entendiam. Jamais puderam compreender o porquê das lágrimas, e das mãos geladas nas finais de campeonatos. O porquê da tremedeira e de todo desespero na final do Paulista, esse ano mesmo.

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O PALMEIRAS DE TODOS

Mas depois que eu ouvi Joelmir Beting dizer a icônica frase: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!” eu desisti de tentar explicar e passei apenas a sentir.

Passei a sentir o Palmeiras do meu pai, de Ademir da Guia e São Marcos. Dos meus irmãos e do ? Queria poder citar todos os ilustres palestrinos aqui, mas são muitos… Entendi que para ser palmeirense não precisava explicar ou traduzir em palavras. Além do que, não existem palavras suficientes para assumir esse sentimento.

Hoje aos 106 anos, o Palmeiras encanta gerações. Faz parte das famílias. Mostra que o verde, o branco e o vermelho são de todos e para todos. A turma do amendoim, ou os cornetas de plantão são o que constroem a nossa fama de chatos.

A despeito dos manifestos e de quem acha que é a imprensa que nos pressiona, somos chatos porque somos vitoriosos e queremos sempre o melhor, pois já nascemos campeões. E o melhor é sempre o Palmeiras!

Apesar da perseguição que sofreu, o Palmeiras mostrou que de fato é campeão! Teve que mudar de nome, mas jamais pensou em desistir. Faz parte da nossa história resistir e continuar. Cair e ressurgir. Palmeiras é isso e ser Palmeiras é isso. Tem sangue italiano, mas é muito brasileiro.

Parabéns, Sociedade Esportiva Palmeiras, pelos seus 106 anos de lutas e glórias.

Foto: Divulgação / Memória Alviverde

Valéria Contado
Eu sou a Val Contado, finalmente jornalista (uhul!), apaixonada por futebol há 24 anos, desde quando meu pai colocou em mim o uniforme do nosso time do coração. Adepta da arte da resenha, falar e respirar futebol é o que eu mais gosto de fazer.

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