O vexame mascarado

Jogador de Seleção brasileira desde os 14 anos. Salário pomposo nas categorias de base. Dono da camisa 10 outrora usada pelo antológico Pelé. Campeão olímpico. Ego massageado pela mídia esportiva. Transferência para um gigante europeu. Se administrados com humildade, os predicados citados acima renderiam uma carreira de sucesso. No caso de Gabriel Barbosa, o Gabigol, entretanto, a arrogância e a máscara lhe renderam um título de expressão, o de vexame nacional. Gabriel despontou no Peixe e foi apontado como ‘’o quarto raio da Vila’’, em alusão à célebre lista composta por Pelé, Robinho e Neymar.

A diretoria, na tentativa de blindá-lo do assédio europeu, aumentou seu salário e a multa rescisória. Primeiro mimo ao jogador. Gols e aumento salarial. Ingredientes essenciais para que Wagner Ribeiro, um dos mais influentes empresários brasileiros, ganhasse força nos bastidores. Agente do atleta, Ribeiro passou a dizer para Gabigol que ele deveria ser ainda mais agudo. Buscar o gol cada vez mais. Só assim alcançaria a vitrine de luxo dos grandes clubes do Velho Continente. Oportunidade perfeita para o empresário fazer dinheiro, já que possuía 40% dos direitos do jogador.

Foto: ESPN

O maior tempo em campo, contudo, expôs as inúmeras dificuldades de Gabriel. Lentidão, dribles previsíveis e perna direita inexistente foram algumas das características demonstradas. Fazia gols, é verdade, mas isto é muito pouco para um atleta apontado como sucesso. Os mais entusiasmados, inclusive, taxavam-no como craque. Ledo engano. Gabigol passou a seguir a cartilha das estrelas.

Empresário badalado, holofotes da mídia, camisa 10 de Pelé e alguns gols. Mimou-se. No linguajar de vestiário, virou “perna”. Encheu o corpo de tatuagens, adequou o corte de cabelo às tendências da moda. Ganhou seguidores no Instagram. Virou “parça” de Neymar. Esqueceu, contudo, de jogar. O desempenho pífio nas Olimpíadas foi mascarado pela medalha de ouro. Do quarteto ofensivo, formado juntamente por Luan, Gabriel Jesus e Neymar, era o pior. Novamente, os gols marcados blindavam-no. Era apontado como superior ao seu xará, Gabriel Jesus. Com o ouro conquistado no Rio, valorizou-se ainda mais. Foi vendido para a Inter de Milão por £30 milhões. Recepção de luxo. R$1,8 milhão depositado em sua conta a cada trinta dias. O conto de fadas era perfeito. Vejam só, até comparado a Ronaldo Fenômeno foi.

Foto: Revista Veja

O tempo passou e Gabriel passou a amargar a reserva. Inicialmente especulava-se que Frank de Boer não o escalava por não ter pedido sua contratação. Com a demissão do holandês, contudo, a expectativa de que o brasileiro ganharia mais minutos em campo não se concretizou. Stefano Pioli assumiu o time, mas Gabigol não saiu do banco. Mesmo quando os nerazzurri declinaram. Nova demissão: sai Pioli, entra Vecchi, como interino. Nada mudou. 184 minutos em campo apenas. Um solitário gol. O brasileiro, então, virou alvo de piadas. Gabigol virou Gabighost. O mapa de calor foi o ápice do escárnio.

Gabriel virou alvo de piadas pelo longo período sem jogar

A parcela de culpa do camisa 96 é grande. Acomodado com o cenário criado antes de sua transferência, Gabriel achou que poderia limitar-se a jogar aberto pela direita, valendo-se do previsível corta para esquerda. A falta de dedicação tática lhe custaram o banco. No último domingo, ao perceber que não entraria, desrespeitou seu clube. Mimado, foi ao vestiário antecipadamente. Rompeu litigiosamente com a Inter. Deu uma desculpa esfarrapada, mas cavou sua cova. No dia seguinte, foi eleito pelo jornal As como um dos 11 piores da temporada europeia.

Foto: Gazeta Esportiva

Gabigol terá de recomeçar. Precisará ser humilde. Recusou o Las Palmas anteriormente. Agora, seu empresário especula sua volta ao Brasil. Palmeiras e Santos seriam os interessados. R$1,8 milhão é um valor inacessível para a realidade brasileira. Hoje, Gabriel é um mascarado que não aceita o fracasso. Virou vexame. Cabe a si próprio mudar seu destino.

André Siqueira Cardoso
Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

Artigos Relacionados