O primeiro registro que existe sobre futebol feminino aconteceu em 1898, na Inglaterra, país onde surgiu o futebol, em uma partida entre Inglaterra x Escócia. Porém, no Brasil, o primeiro registro ocorreu em 1921, entre Tremembé e Cantareira. Na ocasião, a imprensa local classificou a partida como “curiosa quando não cômica”, pois, naquela época, as mulheres tinham apenas papeis secundários no futebol, como por exemplo, dar o pontapé inicial das partidas. Até então, nada de Seleção.

Preconceito e proibição

Naquela época o preconceito era grande e o futebol era tratado como um esporte que não deveria ser praticado por mulheres. Além disso, em 1941, o então presidente Getúlio Vargas lançou um decreto-lei proibindo a prática do futebol feminino. A proibição durou até 1979. Assim, este decreto, criado de forma totalmente equivocada, fez com que as mulheres ficassem proibidas por 40 anos de jogador futebol no Brasil. Desta forma, o atraso nos interesses de empresas e das próprias mulheres pelo investimento e pela prática no país fica explicado.

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Falta igualdade de condições

Salários e patrocínios ainda muito diferentes da modalidade masculina, enquanto uma jogadora como a Marta recebe cerca de 1,5 milhões de euros por temporada, um jogador como Neymar recebe algo em torno de 36 milhões de euros por temporada. Quase metade das jogadoras profissionais em todo o mundo precisam abandonar suas carreiras para trabalhar em outra área que pague o suficiente para cuidarem de suas famílias. Historicamente as mulheres sempre precisaram lutar por igualdades de direitos e espaço, no futebol essa batalha também precisa ser vencida, pois elas também fazem por merecer dentro do esporte e nada mais justo do que terem também seus méritos e o próprio reconhecimento.

Desenvolvimento do futebol feminino no Brasil

É inegável a evolução que o futebol feminino tem tido em todo o mundo inclusive no Brasil. Em território nacional o futebol feminino passou a ganhar mais visibilidade após a seleção conseguir conquistar títulos como do Pan – Americanos 2003/2007/2015 e a medalha de Prata nas olimpíadas 2004/2008. Além de um vice-campeonato na Copa do Mundo de 2007.alem disso, um outro fator fundamental foram as conquistas individuais que a nossa “rainha” Marta alcançou sendo eleita a melhor jogadora do mundo seis vezes, conseguindo assim atrair maior interesse do público em geral, além de visibilidade em todo o mundo. No entanto, em nosso país a modalidade ainda carece de problemas como falta de estrutura, organização e até mesmo incentivo de instituições e patrocinadores.

Confederação brasileira de futebol (CBF) obriga clubes a criarem times femininos

Passados 40 anos da extinção da lei que proibia a pratica do esporte por mulheres no Brasil, agora o futebol feminino passa ser obrigatório e cada clube deverá criar uma equipe para disputar os torneios adultos e também das categorias de base. Dos 20 clubes que disputam a Série A do Brasileiro 2019 masculino, sete já possuem uma equipe feminina estruturada são elas: Corinthians, Ceará, Flamengo, Grêmio, Inter, Santos e Vasco.

Outras oito estão em fase de projeto: Atlético MG, Bahia, São Paulo, Chapecoense, CSA, Goiás, Athletico-PR e Fluminense. As demais equipes ainda não iniciaram a montagem do time feminino, Botafogo, Palmeiras, Fortaleza, Avaí e Cruzeiro. Essas ações são fundamentais para o futuro do futebol feminino. No entanto, é preciso fiscalização e cobrança aos clubes para que todas as exigências sejam cumpridas conforme as diretrizes que foram estabelecidas.

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 Campeonato Brasileiro Feminino

Para continuar se desenvolvendo e até mesmo passar acompanhar a evolução de outros países como EUA, Franca, e Alemanha que atualmente são referencias na categoria a confederação Brasileira de Futebol (CBF) criou em 2013 o campeonato Brasileiro de Futebol Feminino contando com 20 equipes profissionais, sendo que as melhores equipes conquistam vaga para disputar a Libertadores. A partir de 2019, a CBF também passou a exigir que todos os clubes do futebol brasileiro tenham em sua estrutura, equipes femininas.

Um marco importante depois de passados cinco anos da criação do torneio, foi a aquisição dos direitos de transmissão pela Band junto a CBF que permitirá ao canal realizar a coberturas das partidas já em 2019, até então só era possível acompanhar as partidas através do Twitter. Este é um fator de fundamental importância, pois a cobertura midiática em paralelo a chegada de novos patrocinadores com certeza pode contribuir para a evolução, desenvolvimento e interesse do público, fato importante para que haja cada vez mais a firmação do esporte no país.

Criação de divisão de bases no futebol feminino 

A confederação brasileira de futebol divulgou em fevereiro de 2019, mudanças no futebol feminino, será criado o brasileirão feminino sub 18, que tem por objetivo incentivar os clubes a criarem divisões de base e assim modificar a estrutura da modalidade no país de modo a buscar uma maior projeção a nível nacional e posteriormente internacional.

É uma grande oportunidade para que o país possa descobrir, desenvolver, projetar e inserir novas jogadoras e assim buscar a manutenção e reformulação das equipes e seleções femininas. Ainda há um enorme caminho a se percorrer, porém, são iniciativas como essas que podem colocar a modalidade em outro patamar. Sobretudo, é importante fazer um trabalho de forma conjunta para gerar receitas e atrair maiores investimentos para que todos esses projetos sejam mantidos e ao mesmo tempo apresentem resultados ainda que a longo prazo. É preciso evolução, entretanto, o futebol feminino parece finalmente ser tratado com mais profissionalismo pelas partes que os organizam e isso deixa certo otimismo a todos os envolvidos.

Ainda falta investimento

Ainda existe uma enorme discrepância no quesito patrocínio e investimento quando comparamos o futebol feminino e o masculino. Atualmente a equipe campeã no feminino recebe em torno de 120 mil reais em prêmio, enquanto que a equipe masculina recebe em torno de 17 milhões de reais. Outro fator desigual está relacionado a cobertura dos jogos, no masculino ocorre 100% de cobertura na TV seja em transmissões abertas ou fechadas, todos os veículos de comunicação fazem algum tipo cobertura sobre as partidas. Enquanto isso, no feminino apenas 2,7% dos jogos são transmitidos.

Os avanços no futebol feminino são cada vez mais perceptíveis, mas os números mostram que a equidade está ainda muito longe de ser alcançada. As mulheres são minoria disputando campeonatos de futebol, ganham muito menos e até a premiação da copa do mundo é de uma disparidade gigante. Na última copa do mundo de futebol masculino na Rússia em 2018 a premiação para seleção campeã foi em torno de 420 milhões enquanto a seleção feminina campeã na copa da Franca receberá algo em torno de 30 milhões, ou seja, o valor é cerca de 13 vezes menor.

Quando fazemos a mesma abordagem num âmbito nacional a disparidade também é alta, se compararmos equipes que já possuem um time feminino como o Corinthians por exemplo, o alvinegro paulista investe cerca de 360 milhões por ano na equipe masculina e apenas quatro milhões no time feminino. Já o Palmeiras, que ainda não tem uma equipe feminina própria, mas tem parcerias para ter um time de mulheres, investe 400 milhões por ano na equipe masculina e apenas 1,5 milhões no time feminino.

Apesar das desigualdades ainda existentes o futebol feminino mesmo com dificuldades tem mostrado vagarosa evolução quando o assunto é investimento. A multinacional Bombril fechou um contrato de cerca de quatro milhões com TV bandeirantes para transmitir os jogos da Copa de Futebol Feminino na França, a emissora irá exibir a marca da empresa em anúncios e nos comerciais. Além disso, como já mencionado acima, a Bandeirantes também fechou contrato para transmitir pela primeira vez o campeonato brasileiro de futebol feminino de 2019. A expectativa é que outras emissoras e patrocinadores sigam essa tendência de promover e investir mais na modalidade para que o espetáculo continue ainda melhor.

A melhor jogadora de futebol feminino de todos os tempos é brasileira: Marta

Marta é a maior referência da modalidade no Brasil e talvez até mesmo no mundo e ao atingir a marca de 17 gols neste mundial realizado na França, tornou-se a atleta que mais fez gols em todas as edições da copa do mundo. Entre homens e mulheres. Apesar do incrível recorde, a mensagem que passa vai muito além das quatro linhas, e parece clara: O futebol feminino caminha para ser tão grandioso quanto o masculino e tem mostrado isso inclusive com números e estatísticas. Se o Brasil de certa forma ainda é chamado de país do futebol, isto também se deve ao fato de nossa rainha ter sido eleita pela sexta vez a melhor jogadora do mundo.

A brasileira venceu o Prêmio FIFA – The Best 2018como melhor jogadora da última temporada, chegando a seis conquistas individuais (2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2018) da entidade máxima do futebol.

Lista com as demais ganhadoras do Prêmio de melhor jogadora do mundo. 

NOME PAÍS CLUBE ANO DA CONQUISTA
Mia Hamm Estados Unidos Washington Freedom 2001
Mia Hamm Estados Unidos Washington Freedom 2002
Birgit Prinz Alemanha FFC Frankfurt 2003
Birgit Prinz Alemanha FFC Frankfurt 2004
Birgit Prinz Alemanha FFC Frankfurt 2005
Marta Brasil UMEA IK 2006
Marta Brasil UMEA IK 2007
Marta Brasil UMEA IK 2008
Marta Brasil Santos 2009
Marta Brasil FC Gold Pride e Santos 2010
Homare Sawa Japão INAC Leonessa 2011
Abby Wambach Estados Unidos Estados Unidos 2012
Nadine Angerer Alemanha Brisbane Roar FC 2013
Nadine Kessler Alemanha Wolfsburg 2014
Carli Lloyd Estados Unidos Houston Dash 2015
Carli Lloyd Brasil Houston Dash 2016
Lieke Martens Holanda Rosengard e Barcelona 2017
Marta  Brasil Orlando Pride 2018

Nota: todas as jogadoras que levaram o prêmio após 2010 “tirando” a hegemonia de marta, atuavam por clubes e seleções que possuem maior estrutura e organização no futebol feminino. No entanto, mesmo assim marta retomou o título de melhor do mundo em 2018, provando mais uma vez que talento o brasil possuí e que precisa melhorar em outros aspectos.

Vale lembrar que há 12 anos o Brasil não leva o prêmio na modalidade masculina, com o Kaká em 2007. Desde então, a craque já venceu o prêmio mais quatro vezes. Mantendo assim o reconhecimento do Brasil no cenário mundial. E mostrando que o futebol feminino é tão importante quanto o masculino.

Marta é sem dúvida alguma a melhor jogadora de futebol feminino e com certeza está entre as maiores personalidades do mundo do futebol, suas estatísticas, seus gols, os clubes em que passou, os títulos que conquistou falam por si. Uma figura de extrema importância para firmação, divulgação e estabelecimento da modalidade no Brasil e até mesmo fora dele.

Torcida além da Copa

Mesmo com a chegada de novos investimentos, leis, campeonatos e clubes que prometem fazer o futebol feminino crescerem é preciso superar muito preconceito para que a modalidade passe praticada de forma igualitária. A sociedade discrimina atletas e, por questões culturais a menina ainda ganha boneca ao invés de ganhar uma bola. Neste caso, somente as conquistas e os ídolos como (Marta, Cristiane, Formiga etc.), poderão levar a modalidade ainda mais longe.

No entanto, em paralelo é preciso tratar essa situação como um assunto de desenvolvimento educacional principalmente no âmbito escolar e familiar para que assim o futebol feminino possa ser fomentado e tratado da forma que merece sem discriminação e preconceito. É preciso manter e melhorar a estrutura existente, valorizando tudo que foi conquistado até aqui. É preciso olhar para o futebol feminino o ano todo e não somente em época de copa do mundo ou olimpíadas, só assim a modalidade terá evolução em nosso país.

A Copa da França e a mudança de panorama

Desde de 2015, a FIFA cobra um tratamento mais igualitário para o futebol feminino, no ano passado a entidade escolheu pela primeira vez, uma mulher para o cargo de secretário geral, o segundo mais importante, a escolhida foi a senegalesa Fatma Samba Diouf.

Na França, o futebol feminino nunca atraiu o mesmo interesse, atenção da mídia ou o dinheiro da seleção masculina. Mas isso começa a mudar. O país é sede da Copa do Mundo Feminina 2019, e os jogos se destacam na venda de ingressos, telespectadores, cobertura e o mais importante para as jogadoras francesas, fundos de patrocínio. As mulheres começam lentamente a se equiparar aos homens na França.

No Brasil, pela primeira vez empresas pausaram suas atividades para assistir a um jogo da seleção feminina de futebol, além disso, a cobertura televisiva, rádios e internet têm sido bem amplas, diferentemente de outras ocasiões. Escolas e instituições de ensino também interromperam as atividades para prestigiar a seleção feminina na Copa fato muito importante pois os estudantes passam a dar mais valor ao esporte.

Em paralelo, a isso patrocinadores estão surgindo o interesse do público está aumentando e o preconceito ainda grande tem diminuído. Os próprios canais de televisão e emissoras de rádio passaram a colocar em mulheres em suas equipes, atualmente o número de comentaristas, repórteres e narradoras tem aumentado se comparado a outras épocas, vale o destaque para as comentaristas como Ana Thais Mattos ( globo), Lívia Nepomuceno (Fox) e Helena Calil (Fox), a equipe da Fox Sports ainda conta com a narradora Renata Silveira, e as apresentadora Vanessa Riche, além de muitos outros nomes que compõe a equipe de diversas emissoras.

Além disso, durante a copa masculina em 2018 a Fox Sports criou um programa chamado “comenta quem sabe” composto apenas por mulheres que discutiam as partidas do mundial, o programa ainda está no ar mesmo após o termino da copa. Fatos que comprovam que a batalha das mulheres e a conquista de espaços por partes delas é cada vez mais presente na realidade atual. Um caminho que não parece ter volta para alegria de todos que admiram o esporte praticado por elas.

Próxima copa de futebol feminino em 2023

O Brasil, assim como outros 10 países, expressou interesse em sediar a Copa do Mundo Feminina da Fifa em 2023. Segundo a entidade máxima do futebol, esse é o maior número de países a indicar interesse em sediar uma competição entre mulheres desde a primeira edição do torneio que aconteceu em 1991.

O recado da rainha após eliminação da seleção feminina na Copa da França

Quando perguntada sobre o momento que o futebol feminino está passando, a jogadora comentou que é preciso valorizá-lo mais e mandou um recado para as futuras atletas do esporte. “Não vai ter uma Formiga para sempre, uma Marta, uma Cristiane. O futebol feminino depende de vocês para sobreviver. Pensem nisso, valorizem mais. Chorem no começo para sorrir no fim”, pediu Marta muito emocionada com os olhos cheios de lágrimas.

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Victor Lima
Victor Gonçalves de Lima 28 anos, Paulista - Formado em Gestão Ambiental, Química e Estudante de Jornalismo. Amante do futebol desde garoto passei a me interessar muito pelos bastidores do esporte coberturas, entrevistas, textos, estatísticas etc. além disso, adoro escrever e encontrei tudo isso no curso de Jornalismo onde pretendo me especializar em jornalismo esportivo. Como lazer gosto de curtir a família, praticar atividade física, Cinema e Estudar. Agradeço a Deus pelas oportunidades em minha vida, em especial a minha família e esposa Talita, meus maiores incentivadores. Instagram @victorloficial @casaldecampos
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