O peso de um não!

Dunga foi garantido como técnico da Seleção brasileira até o início da Copa América Centenário, em junho, nos Estados Unidos. Mas engana-se quem acredita que a permanência de Dunga foi o assunto mais comentado da semana no mundo futebolístico. Em diversos meios de comunicação, a recusa de Tite frente ao convite para assumir a Seleção foi a pauta mais badalada. O não dito pelo treinador corintiano teve um enorme peso.

A discussão foi iniciada na última terça-feira, quando uma reunião definiu a permanência de Dunga. Logo depois vieram as informações de que o gaúcho só se manteve no cargo porque Tite havia recusado uma proposta da cúpula da CBF. Após isso, na sexta-feira, o presidente corintiano, Roberto de Andrade, em entrevista coletiva, comemorou a permanência de Tite no Corinthians dizendo que é mais corintiano que patriota. Por fim, o senador Romário veio à público na manhã deste sábado elogiando a atitude do treinador do Corinthians.

– Com o momento que vive o futebol e o momento da CBF, aquele treinador que realmente quiser fazer um trabalho digno, decente e que quiser entrar para dirigir a seleção brasileira com nenhum tipo de peso na consciência, tem realmente que fazer o que o Tite fez: dar um não. A CBF, no momento, está desgovernada, não sabe quem manda – disse Romário.

Mas por que o treinador teria dito não à CBF?

Em primeiro lugar, a mágoa de Tite com a CBF é evidente e plenamente justificável. Apenas relembrando, em 2013, o treinador saiu do Corinthians e fez questão de dizer que estaria se preparando para assumir a Seleção brasileira na hora certa, isto é, após a Copa de 2014. O treinador foi à Europa para estudar, rever e aprimorar conceitos. A Copa do Mundo chegou, o Brasil oscilou, derrapou, decepcionou e foi atropelado pela Alemanha.

Ah, mas então teria chego a hora de Tite? Na verdade não, pois a CBF trouxe Dunga, mais uma vez.

Tite continuou afastado, recusou propostas e aproximou-se de Carlo Ancelotti, a fim de aprender um pouco mais sobre o 4-1-4-1, esquema tático que fez sucesso no mundial de 2014. Em sua estadia na Europa, o técnico frisou, inúmeras vezes que teria se reinventado, mas seu desapontamento era evidente.

O Corinthians  chamou e Tite retornou para o braço do bando de loucos. E adivinhem qual foi o esquema tático utilizado pelo Corinthians na conquista do título brasileiro do ano passado? A resposta é simples: 4-1-4-1. Tite acertou mais uma vez e encantou os espectadores futebolísticos.

Mas o fator principal que afastou Tite da Seleção é que no Corinthians, o treinador tem o apoio da diretoria, da torcida e de todos os jogadores. Tornou-se comum dizer que além de treinador, Tite é gestor de pessoas e sabe administrar um grupo como ninguém. O ambiente no Timão é favorável ao treinador e aos jogadores. Diametralmente oposta é a situação na CBF, pois há uma crise institucional com dimensões assustadoras instaurada dentro do órgão máximo do futebol brasileiro. O então presidente Coronel Nunes é um fantoche de Marco Polo Del Nero, que não dá as caras, pois é alvo de investigações do FBI. Na Seleção, Tite teria que se moldar às doutrinas arcaicas da CBF, como por exemplo a influência implícita de dirigentes na convocação de jogadores.  Isso sem dizer que no Corinthians, Tite tem tempo para treinar, repetir e realmente implantar um esquema tático. Prova disso é que entra jogador, sai jogador, mas o Corinthians mantém o mesmo padrão dentro de campo.  Na equipe canarinho, entretanto, as coisas são diferentes. A convocação é feita hoje para que os jogadores se reúnam amanhã e entrem em campo no dia seguinte. Não há tempo hábil para treinamento. Basta prestar atenção nas convocações de Dunga e perceber que a espinha dorsal é a mesma, mas mesmo assim, não há nada de inovador na equipe dentro de campo. Ao contrário, o funcionamento se dá da seguinte maneira: joga no Neymar, porque ele resolve. Mas o Neymar foi suspenso, não joga a próxima partida. O resultado? Brasil fora da zona de classificação para a próxima Copa do Mundo.

Dunga nunca foi e nunca será unanimidade no comando da Seleção. Esta já é sua segunda passagem e o treinador acumula em seu currículo desavenças com repórteres, jogadores e dirigentes. No quesito aproveitamento, Dunga oscila bons e maus momentos, mas sua equipe dentro de campo sempre privilegiou a raça, em detrimento do talento. No Corinthians, Tite é unanimidade, ídolo máximo da torcida e mais que técnico, é amigo dos jogadores. Na Seleção brasileira, Tite teria a responsabilidade de afastar o fantasma da desconfiança, tirar a equipe do fundo do poço, apagar o retrospecto recente de fiascos e reerguer a equipe que mais tem títulos mundiais.

Não que o treinador não tenha essa capacidade, pois à frente do todo poderoso Timão, Tite foi gigante, venceu todos os títulos imagináveis e escreveu seu nome na galeria da fama do clube paulista, mas se um dia a CBF fechou as portas para ele, nada mais justo que Tite feche as portas para os comandados do Coronel Nunes desta vez.

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André Siqueira Cardoso
André Siqueira Cardoso
Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

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