Palmeiras

Depois de mais de 120 dias de paralisação, o Campeonato Paulista voltou com um Palmeiras e Corinthians como protagonista. A 11ª rodada ficou marcada por um dos maiores clássicos do futebol nacional e fez a semana dos torcedores mais agitada que o habitual.

Sem poder contar com torcida e com staff reduzido, as duas equipes se encontraram na Arena Itaquera para o seu 374º jogo nas contas alviverdes e seu 364º jogo nas contas alvinegras. Até porque, nem nisso os rivais concordam. A coluna Rasgando o Verbo de hoje vai falar um pouco sobre essa rivalidade.

SEMANA DE DERBY

Para o torcedor, a semana que antecede o clássico é atípica. Além do pensamento no rival, tem aquela provocada básica e, claro, muita conspiração a respeito dos selecionados para honrar a camisa em campo.

No entanto, para o clube, a semana deve – pelo menos aparentemente – ser comum. Treinos, trabalhos musculares, coletivas e afins. Contudo, no meio de uma pandemia, as coisas foram um pouco diferentes.

A semana que antecedeu o Derby da última quarta-feira (22) foi bem conturbada para o torcedor do Verdão. Além de ter perdido Dudu, um dos principais jogadores do time para o Catar, os palmeirenses tiveram que lidar com a dúvida de Rony (vai jogar? Não vai jogar?), lesão de Gabriel Veron e uma folga inesperada concedida aos atletas no fim de semana antes do jogo.

Tal feito causou mal estar entre os torcedores, que já reclamavam dos meninos da base fazendo dancinha no Tik Tok (!!!), quando viram a foto do zagueiro Luan na praia ficaram mais bravos ainda. Ponto negativo para o alviverde em uma semana onde as tensões já são exacerbadas.

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A RESPOSTA EM CAMPO

Do outro lado, o Corinthians estava bem pressionado. Precisava da vitória para se afastar do rebaixamento na competição. Além disso, uma vitória no clássico poderia ajudar o clube a chegar perto de uma possível classificação. Além, é claro, daquela moral básica que o time ganha depois de vencer um clássico contra o maior rival.

As dívidas que o clube somou durante a paralisação e o atraso de salários dos jogadores poderiam ser pontos fracos para o Corinthians nessa partida que é tão importante. Concentrados, os corintianos se preparavam para enfrentar o forte time do Palmeiras.

A manhã da grande noite começou estranha. O gramado da Arena Corinthians apareceu pichado com os dizeres “8×0”, e os donos da casa tiveram que apagar a provocação. Como não conseguiram tirar tudo, escreveram por cima “SCCP” (Sport Club Corinthians Paulista). Eles responderam: em campo e com drone.

Depois disso é história, né. O roteiro foi tão parecido com outros clássicos disputados em uma era recente, que se não fosse pela falta de torcida e a presença de máscaras, estaríamos assistindo à uma reprise bem sem graça. Mas depois eu volto a falar disso.

PALMEIRAS X CORINTHIANS: UM CLÁSSICO QUE TEM HISTÓRIA

História é algo que não falta aos clubes. São mais de 100 anos de confrontos entre eles. Como eu disse anteriormente, nem no número de partidas os rivais concordam. Para os palmeirenses, existem 10 partidas a mais.

O dia 06 de maio de 1917 ficou marcado pelo o primeiro combate. Aqueles dois planteis completos nem imaginavam que esse se tornaria um dos maiores clássicos do brasil – sendo clubista, do Mundo também, mas isso é outra história. O palco foi o Parque Antarctica, e a estreia foi com vitória por 3 x 0 do Palmeiras.

O Verdão ainda é dono da maior goleada dos clássicos. Em 1933, 8 tentos foram marcados, enquanto o rival não conseguiu marcar nenhum – quizá ver a cor da bola. Bem mais tarde, em 1952, o Corinthians desforrou com um 5 x 1 aplicado em cima do Palmeiras.

Fato é que, os números dos dois clubes são muito apertados. Pela contagem alviverde, são 373 jogos, com 131 vitórias palmeirenses contra 130 corintianas (sem contar o último jogo). Já a torcida alvinegra conta 363 jogos, com 128 vitórias corintianas, contra 127 palmeirenses (também sem levar em consideração o jogo desta quarta).

No entanto, nove dessas 10 partidas de diferenças que são contabilizadas pelo Palmeiras, foram válidas pelo extinto Torneio Início e uma pela Taça Augusto Mundel. O Palmeiras contabiliza todas as partidas realizadas contra o rival, que por sua vez, não aceita a contagem.

UM CAMPEONATO A PARTE

Contudo, é fato que um Palmeiras e Corinthians é um campeonato a parte. Sempre tem algo em jogo, seja um título ou apenas um afago na moral. Lá em 1936, a primeira final entre os paulistas aconteceu. Depois disso, o clube Alviverde deixaria seu rival na fila de títulos por 21 anos. O embate de 74 que contou com Ademir da Guia de um lado e Rivelino do outro.

Além disso, nos anos 90, uma era de ouro começaria para as equipes. E em 1993 o Palmeiras saiu de uma fila de quase 17 anos em cima do maior rival, no que se tornou o dia da paixão palmeirense. Claro, o Corinthians não deixou barato! Em 1995, o embate entre as potências aconteceu de novo. E foi a vez do Timão ser campeão.

Em 99 os confrontos pegaram fogo. Em maio o Verdão eliminou o rival da Libertadores. Nas mãos de São Marcos, o Corinthians viu sua chance de classificar para a final ficar só na esperança. Um jogo com alma, que com certeza ficou entalado na garganta do adversário.

Por outro lado, o Corinthians queria a vingança. Edilson fez embaixadinhas na frente do banco de reservas palmeirense e provocou a reação imediata de Paulo Nunes. A confusão foi tanta, que a partida foi encerrada antes do seu final, consagrando o Alvinegro como campeão Paulista daquele ano.

É claro que depois disso é história. Sem parecer saudosa de uma época que nem vivi.

PALMEIRAS E AGESTÃO SEM ALMA

Contudo, de uns tempos para cá, o Palmeiras perdeu o encanto. Especificamente durante a campanha 2017 a 2020. Sob o comando de Maurício Galiotte na presidência, o aproveitamento Palestrino diante do rival foi de apenas 22%, somando oito derrotas em 12 partidas disputadas.

Em contrapartida, o desempenho do clube nos tempos de seu antecessor, Paulo Nobre (2013 a 2016), era de 51% (mais que o dobro), mesmo em tempos em que as vacas eram magras e o elenco não era tão recheado de grandes nomes.

É impossível não fazer esse tipo de comparação entre as gestões. Mas não dá para culpar apenas a gestão presidencial. Essa culpa deve ser parcelada. O planejamento do Palmeiras não tem uma organização bem definida já faz muito tempo. Nota-se isso, pelo número de técnicos que passaram pela equipe desde 2017.

DE EDUARDO BAPTISTA À NOVA ERA FELIPÃO

No primeiro ano da gestão de Galiotte foram 3, começando por Eduardo Baptista, Cuca em uma tentativa frustrada de repetir o feito de 2016 e Alberto Valentim. Em 2018 Roger Machado vinha como uma promessa ao clube. No entanto, o professor perdeu o vestiário deixando o problema nas mãos de Felipão, que voltava para mais uma passagem no Verdão.

Campeão Brasileiro em 2018, Felipão não conseguiu se segurar no cargo por muito tempo. Caiu depois de um jogo apático contra o Flamengo em 2019. Logo depois, o presidente apostou em Mano Menezes, que também não ficou muito tempo no cargo de professor Alviverde.

 Mano Menezes também foi uma vítima de um time apático jogando contra o Flamengo. Com ele, Alexandre Mattos também deixou o clube após investimentos no mínimo duvidosos. E agora o clube conta com Luxemburgo, após tentar Jorge Sampaoli.

Mas, por falar em Mattos, o diretor de futebol trouxe para o clube nomes como Carlos Eduardo, Felipe Pires e Deyverson por valores altíssimos. Sem contar com a super contratação de Borja – que em partes foi pressão da torcida – e Ricardo Goulart que ficou pouco tempo na equipe.

OPINIÃO: FALTA ALGUMA COISA NO PALMEIRAS

Além de todo esse cenário interno, dentro de campo falta alma. A torcida começou a chamar o elenco atual de “pipoqueiro”. Na última partida contra o Corinthians, por exemplo, depois de levar o gol, o time se perdeu em campo. Os jogadores caiam sozinhos e não acertavam um bote.

Entretanto, Rony, a promessa de Luxemburgo, não conseguiu suprir a falta de Dudu – último jogador da era Paulo Nobre, que foi emprestado à um clube do Catar após problemas pessoais. Lucas Lima ainda não apresentou o futebol que era esperado, e o técnico continua “sacrificando” Raphael Veiga em uma posição que não é a sua de origem.

Contudo, um primeiro tempo apático e um segundo tempo com mais de 13 tentativas de chute a gol e nenhum sucesso. O Corinthians contou, ainda, com um Cássio cada vez mais inspirado em dia de clássico.

O TORCEDOR PEDE

Além de aspectos táticos e técnicos. Muito além de posicionamento, falta no Palmeiras alguém que bata no peito do companheiro e diga “o Palmeiras é gigante”, como fez o Zé Roberto. Alguém que olhe bem nos olhos do rival, na casa deles, e diga “acabou, Petros”, como Fernando Prass – tão injustiçado por essa gestão – já fez.

Contudo, falta um presidente que olhe nos olhos de cada contratação e diga “honre muito essa camisa”. Alguém que saiba o tamanho de um Palmeiras x Corinthians, e respeite sua grandiosidade. Atletas que não tenham medo, e muito menos soberba. Que ouçam e respeitem a sua torcida.

O último ídolo dessa nova era Palmeiras se foi, com uma promessa de voltar. No entanto, ainda precisa de muito mais do que um Dudu para desacostumar esse time que já se sente confortável com o gosto amargo da derrota para um rival.

No entanto, o torcedor não pede mais uma briga na beira do campo, o futebol mudou. O torcedor quer alguém que reconheça a grandeza de um clássico.

Foto: Folhapress

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Valéria Contado
Eu sou a Val Contado, finalmente jornalista (uhul!), apaixonada por futebol há 24 anos, desde quando meu pai colocou em mim o uniforme do nosso time do coração. Adepta da arte da resenha, falar e respirar futebol é o que eu mais gosto de fazer.

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