O Meu Pacaembu

Ao som de “Codinome Beija-flor”, sentado em sua sala espaçosa embaixo do setor Tobogã, Mauro Sernardes Castro, com seus 62 anos, se emociona ao lembrar dos grandes momentos que viveu no Paulo Machado de Carvalho.

Frequentador assíduo da Arquibancada Verde desde criança, Mauro teve o sonho realizado de chegar, em 2007, ao cargo de administrador do estádio, o qual ocupa até hoje. Seu coração são-paulino o levava ao Pacaembu, mas sua mente, acima de tudo, é apaixonada pelo futebol, fazendo dele um frequente apreciador do estádio municipal. Descreve com nostalgia os momentos vividos sobre as pulsantes arquibancadas, desde os jogos do Santos de Pelé, no auge dos anos 60, até o desconcertante elástico de Romário, em 1999, pelo Flamengo, em cima do volante corintiano Amaral.

A paixão pelo futebol não veio ao acaso. Fala com orgulho de Arthurzinho, seu bisavô, que correu pela lateral esquerda da Seleção Brasileira na década de 30. Nos anos 40, seu avô já adulto e seu pai na adolescência tiveram a oportunidade de presenciar a inauguração do estádio, que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas e outras estrelas. Crescendo nesse meio futebolístico e nos arredores do Pacaembu, o “Maurinho” viu, encantado e incrédulo, grandes jogadas de homens considerados deuses nos clubes paulistas, como o divino Ademir da Guia e Roberto Dias, o melhor zagueiro dos anos 60 (opinião de Edson Arantes do Nascimento). Por isso, Mauro exclama, sem titubear: “Minha vida é o futebol!”.

Para ele, ir ao Pacaembu como torcedor do Tricolor sempre foi algo marcante. Com um sorriso no rosto, brinca: “tenho passagem aqui, como torcedor, do riso ao choro!”. Sua voz sempre calma e um pouco rouca, lamenta o jogo que tirou o título Paulista do São Paulo de 1967. Aponta, com se fosse um narrador de rádio vendo o lance naquele momento, um erro de marcação do jogador Renato, do São Paulo. Tal deslize permitiu Benê, do Corinthians, aos 40 minutos do segundo tempo, empatar o jogo e deixar o Santos com o título daquele ano.

Os jogos do São Paulo foram especiais na vida dele, mas Mauro sente prazer de recordar as grandes despedidas que aconteceram naquele local. Fã declarado do futebol de Romário, Castro esteve presente no dia 27 de Abril de 2005, data em que o “baixinho” se despediu da Seleção Brasileira, com direito a gol de cabeça contra a Guatemala.

Outra despedida que diz ter marcado sua vida foi a de Ronaldo “Fenômeno”, o eterno camisa 9 do Brasil, no dia 7 de junho de 2011. Tal momento foi descrito pelo administrador como “uma loucura”. Além disso, ele personifica, com muita emoção, o estádio que tanto ama, e declara: “o Pacaembu se sentiu muito feliz”. O craque é outro jogador que Mauro tem um grande apreço dentro das quatro linhas e fez questão de enfatizar grandes elogios. Ele descreve o Fenômeno como um homem, que no momento do desembarque do ônibus no estádio, ficava totalmente focado e profissional. Sempre o via chegar e observava que ele “ligava um interruptor e virava outra pessoa”.

Nos olhos de Mauro é possível ver sua adoração pelo estádio paulistano e pelos fatos históricos que ele presenciou como torcedor e administrador do lugar. O considera praticamente um santuário do futebol. Mas não foi apenas a bola que o encantou ao longo desses anos, principalmente depois de maio de 2007, quando o principal nome do cristianismo veio abençoar a Igreja do futebol: o Papa Bento XVI levou 40 mil fiéis ao estádio do Pacaembu (e mais de 7 mil ficaram do lado de fora). Para ele, era uma experiência nova, que vinha de fora das quatro linhas. As dificuldades iam da comunicação com os policiais internacionais até reconhecer as limitações do estádio, e mesmo assim, executar uma boa tarefa: “Eu tinha que ter firmeza naquilo que falava. O momento era de ir pra casa, fingir que dormia e voltar para o trabalho”. Mas tudo isso foi por uma boa causa. Segundo ele, foi maravilhoso receber o pontífice e superar todos os obstáculos.

E, por mais que um homem como Mauro, que viveu grandes momentos futebolísticos e pessoais ali, trabalhe no lugar de seus sonhos e passa boa parte do tempo convivendo com pessoas que uma nação inteira gostaria de ter o prazer de conhecer, é impossível não se emocionar ao vê-lo responder o que o Pacaembu significa para ele. Com os olhos marejados e após uma longa pausa, conclui: “Tudo”.

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Sobre Gabriel Tampelini Cruz

Gabriel Tampelini Cruz já escreveu 6 posts nesse site..

19 anos, estudante de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.Como a maioria dos meninos, queria ser jogador de futebol, mas como percebeu que não tinha habilidade necessária para isso, contentou-se em comentar os jogos em vários aspectos. Apreciador da comunicação, gosta muito de falar, escrever e ler sobre os esportes, principalmente sobre o futebol, uma de suas maiores paixões.Está no começo de sua sonhada carreira de jornalista esportivo. Sabe que até lá, várias coisas podem acontecer, pensamentos e opiniões podem mudar e o caminho pode ser tortuoso. Mas uma coisa é certa: o esporte (e o futebol, em especial) nunca vai sair de sua vida.

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Gabriel Tampelini Cruz
19 anos, estudante de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.Como a maioria dos meninos, queria ser jogador de futebol, mas como percebeu que não tinha habilidade necessária para isso, contentou-se em comentar os jogos em vários aspectos. Apreciador da comunicação, gosta muito de falar, escrever e ler sobre os esportes, principalmente sobre o futebol, uma de suas maiores paixões.Está no começo de sua sonhada carreira de jornalista esportivo. Sabe que até lá, várias coisas podem acontecer, pensamentos e opiniões podem mudar e o caminho pode ser tortuoso. Mas uma coisa é certa: o esporte (e o futebol, em especial) nunca vai sair de sua vida.

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