Em primeiro lugar, desde que a doença do Coronavírus (COVID-19) começou em aproximadamente janeiro de 2020 e se propagado por todo o mundo, a sociedade tem passado por significativas transformações. Igualmente, o fechamento de locais de lazer, distanciamento social e restrições diversas, fazem parte das inúmeras medidas adotadas para conter o contágio da doença.  O esporte, especificamente o futebol, também teve que se adaptar.

Entrevistamos todos os tipos de profissionais afetados, e especialistas dos principais assuntos que envolvem o impacto do Coronavírus no futebol. Conversei com dois atletas profissionais, e soube como foi esse afastamento por tanto tempo, a volta, os cuidados e suas dificuldades.

Conversamos também com um treinador para saber a visão técnica dos impactos. Agora, vamos falar dos riscos e saúde dos atletas e envolvidos. Dessa maneira, uma enfermeira disse como o desenvolvimento dos atletas é afetado após ter a doença. Além disso, um fisioterapeuta de uma equipe profissional e um árbitro falaram sobre os protocolos determinados pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

ATLETAS, PROFISSIONAIS DA SAUDE E TORCEDORES CONTAM COMO FORAM AFETADOS DIRETA E INDIRETAMENTE PELA PANDEMIA DO CORONAVIRUS

A pandemia do novo Coronavírus trouxe um cenário de imprevisibilidade e incertezas afetando todas as partes da sociedade, inclusive o futebol. Competições nacionais e internacionais foram suspensas gradativamente a partir de meados de março de 2020, com a propagação global do vírus e as medidas restritivas tomadas pelos governos.

Com isso, campeonatos paralisados, atletas infectados e quarentenas obrigatórias formaram um panorama incomum na vida esportiva mundial.

RETORNO DO FUTEBOL 

Após cerca de três meses de paralisação, o futebol mundial retomou suas atividades progressivamente. O primeiro país a retomar as partidas foi a Coreia do Sul, que mesmo enfrentando uma segunda onda da doença, decidiu iniciar um novo campeonato. No Brasil a primeira partida de futebol ocorreu em 18 de junho entre Flamengo e Bangu, pelo campeonato carioca.

Apesar de todas as medidas de proteção tomadas pelos clubes, vários jogadores foram contaminados e alguns clubes tiveram grande parte de seu elenco infectado, como foi o caso do Goiás.

Um levantamento feito pelo site GE (Globo Esporte), mostra que até o dia 11 agosto:

“Ao menos 151 jogadores dos clubes da Série A testaram positivo para o Coronavírus.

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) passou a determinar medidas protetivas para a retomada dos jogos. Juntamente com decisões similares foram tomadas por várias confederações de futebol pelo mundo.

FALA, PH!

Paulo Henrique Santos, chegou ao México em 2012 e atualmente o atleta brasileiro que joga no Toros Neza F.C. do México, que teve cinco colegas infectados pelo Coronavírus , nos descreveu quais foram as diretrizes da Federação Mexicana de Futebol (Femexfut):

Coronavírus
Foto Destaque: Divulgação/Arquivo Pessoal

“Aqui o campeonato demorou muito para começar. E as principais medidas que chegaram aos estádios foram de uso de máscaras, luvinhas, realizar a limpeza antes de entrar no vestiário. Medir a temperatura e usar álcool em gel, além de manter o distanciamento e realizar exames.”

Segundo o jogador, enquanto estiveram afastados do campo precisaram de novidades. Para que não perdessem o bom condicionamento físico, diariamente eram mantidos horários em que simultaneamente todos os atletas entravam em uma sala virtual. Isso se dá para realizar treinos predefinidos pelo clube. Ele ainda comenta sobre as diferenças entre o futebol mexicano e brasileiro.

E sobre a integração dos jogadores infectados ao time:

“Aqui o futebol é muito diferente do futebol do Brasil é mais pegado. Mais intenso, mais correria. Nesse caso de voltar e não estar no ritmo, vários colegas passaram por isso. Mas estávamos em pré-temporada, que exige muito preparo físico e muita força. Quando você não está preparado e quer voltar em dois ou três dias, você não vai se recuperar. E aí vai demorar mais tempo para chegar no mesmo nível dos demais que treinam desde o começo.

NO BRASIL

No Brasil a tendência também foi a mesma. O ex-goleiro da Portuguesa Valdemar Pereira JúniorDida” que atua pelo XV de Piracicaba. Desse modo, também afirma que os treinos online fizeram parte da rotina dos atletas.

Foto Destaque: Divulgação/Arquivo Pessoal

Durante a pausa realizávamos trabalhos online duas vezes por semana através de aplicativos. Além de videoconferências onde passávamos os exercícios. Em outros dias da semana tivemos que gravar os treinos e mandar para o clube. De forma que trabalhamos todos os dias com exceção apenas do domingo. A gente mantinha a parte física, no meu caso como goleiro, quando eu conseguia treinar no campo eu também fazia a parte técnica mais a maior ênfase era na parte física.” 

Dida descreve que parte da comissão técnica havia sido acometido pela doença, e a partir daí houve grande preocupação quanto a uma possível infecção dos demais atletas:

“Tinha o medo sim! Ficou uma situação em que qualquer espirro, qualquer tosse, já criava receio, medo por parte de todos. “Por mais que a gente treine em casa, não é a mesma coisa. O nível de cobrança, o nível de exigência e intensidade não é a mesma. A gente sentiu muito a parte física, e se não fossem os treinos online, teríamos sentido ainda mais”.

O LADO DO TREINADOR

O ex-técnico do Esporte Clube Santo André, Paulo Roberto Santos, está atualmente na Ferroviária, relata que um dos seus receios era o de que a equipe passasse por um desmonte devido ao encerramento de contratos em decorrência da paralisação. Em sua análise, a semana de suspenção das atividades era decisiva para definir a fase classificatória, o que poderia ter sido feito ainda naquela semana. Na volta aos jogos, três jogadores do clube contraíram o vírus, mas a recuperação destes ocorreu de forma rápida e tranquila. Apesar desses casos, o treinador afirmou que:

Foto Destaque: Jesus Vicente/São Bento

“Sempre tivemos essa preocupação, como todos tiveram, mas não sofremos muito com esse problema durante a competição ou logo após o retorno, quando tivemos por volta de vinte dias de preparação. Tínhamos um controle em relação ao nosso departamento médico, que estava atento a isso.”

JOGADORES NÃO PODEM SUBESTIMAR O VÍRUS

Segundo pesquisadores da Pontífice Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o Coronavírus é uma doença não só pulmonar, mas também vascular. O estudo apresentado pela universidade, mostrou que o vírus lesiona o revestimento das células sanguíneas o que aumentaria a possibilidade de coagulação de sangue causando trombos.

Outro estudo feito em parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto D’Or de Pesquisas, afirma que o o Coronavírus pode causar danos cerebrais. Ambos, os estudos foram feitos com amostras post mortem sob autorização dos familiares.

É consenso que a prática de atividades físicas é um fator importante para o bom funcionamento do sistema imunológico e saúde mental, como aponta um estudo da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP.

No entanto, a morte do jogador boliviano Deibert Frans Roman Guzman de 25 anos causada pelo Coronavírus em maio, conforme divulgado pelo jornal The Sun, aponta para a realidade de que não podemos subestimar o vírus apesar de uma vida aparentemente saudável.

FALA, STEPHANIE

Stephanie Pessoa, enfermeira do Hospital e Maternidade Santa Joana no Bairro do Paraíso, em São Paulo, afirma que:

“O Coronavírus ainda é um vírus desconhecido, e aos poucos estamos fazendo pesquisas e descobertas sobre ele. O que sabemos é que pode afetar no desempenho do atleta por comprometer os pulmões, e alguns estudos mostram até sequelas.”

Hoje os atletas são testados com 72 horas antes das partidas, o que segundo Stephanie é o procedimento mais correto pois, em suas palavras:

“O PCR (teste de Proteína C-Reativa) deve ser feito entre o 3°e 5° dia após os primeiros sintomas. Nesse momento, ocorre o período de pico da replicação viral. Assim corre-se menos risco de contágio.”

Agora vamos falar sobre os protocolos de segurança contra o coronavírus adotados pela CBF e a FPF (Federação Paulista de Futebol). Ou seja procuramos o fisioterapeuta do Esporte Clube Santo André, Luciano Vassoler e o árbitro Dyogines Santos.

Vassoler assevera que:

“Os protocolos de segurança foram válidos, embora a nossa equipe tenha ficado um mês isolada em um hotel. Na entrada fizemos um teste sorológico e depois de 15 dias fizemos um PCR, e antes do primeiro jogo repetimos o PCR. Os custos dos testes são muito altos, e você sempre vai testar quarenta e cinco ou cinquenta pessoas. Em um time assim como o Santo André, que tem uma equipe pequena, chega a ter um custo razoável. Em relação aos jogadores infectados, os deixamos isolados em uma ala específica no hotel, mas eles continuavam treinando, separadamente porque todos estavam assintomáticos. Não apresentando nenhum tipo de sintoma, eles continuavam treinando durante 10 a 15 dias para repetir os exames e reintegrar a equipe.”

Dyogines enalteceu os procedimentos adotados pela CBF, que ele classificou como:

Foto Destaque: Divulgação/Arquivo Pessoal

Rígidos e dentro dos padrões internacionais de segurança.” O árbitro ainda acrescentou que “toda a equipe de arbitragem tem que fazer os testes do Coronavírus antes de cada partida em que irá trabalhar. Todos…equipe do campo e equipe do Var. A cada escala, é feito uma nova testagem. Tudo custeado pela CBF.”

EFEITO SOBRE A RECEITA DOS CLUBES 

O impacto financeiro para os clubes também foi significativo. Em artigo publicado pelo site da FIFA, Olli Rehn, presidente do Comitê Diretor da organização, afirma que “o impacto estimado da interrupção foi de cerca de 14 bilhões de dólares”.

Conversamos com Thiago Martins que é diretor do Manaus Futebol Clube. Sob o mesmo ponto de vista, ele afirma que em sua equipe os salários foram reduzidos em 50%, com exceção dos colaboradores que tem remuneração igual a um salário-mínimo. Além disso houve impacto também nos patrocinadores, que reduziram ou suspenderam cotas.

Coronavírus
Foto Destaque: Soccer bet concept with football and money

Perguntado sobre o papel do público na participação da receita do clube, Martins observa que:

“O planejamento orçamentário do clube leva em consideração projeções de público para determinados campeonatos. Não ter público foi um duro golpe para o Manaus, que via nos jogos uma grande oportunidade de rentabilizar não só com ingresso, como também na venda de produtos e adesão ao sócio torcedor”.

Sobre uma perspectiva futura de restruturação dos clubes, o diretor pondera que:

“É difícil prever mesmo com uma ajuda da CBF. Como comentei anteriormente, não só os clubes, mas patrocinadores e outros canais de renda também foram atingidos. Isso fez com que todo planejamento fosse refeito. E adaptado a uma nova realidade, que torcemos para ser temporária. E com a cura, sabemos que ainda levará um tempo até que o ritmo das coisas volte a ser o que era.”

REPORTERES E TORCEDORES: PERSPECTIVAS DO CORAÇÃO E MENTE 

A atividade jornalística também teve que se adaptar a um novo modo de interagir com os jogadores e o público. No início de julho, a Federação Paulista de Futebol, em conjunto com a Arfoc (Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos no Estado de São Paulo) e outras duas associações de cronistas esportivos do estado de São Paulo, definiram o protocolo de imprensa para, naquele momento, a cobertura do campeonato paulista.

O repórter Hezyo Ferreira, que trabalha para uma emissora de rádio, explica que:

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Foto Destaque: Divulgação/Arquivo Pessoal

“O futebol masculino está bem exigente sobre o distanciamento. Você está impedido, de manter proximidade com os atletas e o banco de reserva. Não há repórter no gramado. As rádios estão bem restritas e com números bem reduzido de pessoas. Os protocolos estão funcionando. Há distanciamento, limitação, porque os jogadores fizeram testes, porém os reportes não sabemos. Algumas entidades estão testando os profissionais de imprensa, já outras, acredito até que pelo alto custo, não chegam a fazer os testes.

Hezyo comenta que a redução de equipes na cobertura dos jogos, exige maior concentração dos profissionais, que muitas vezes se desdobram em várias funções, porém ele é enfático, a falta de contato mais direto com os atletas é um fator determinante:

“Por não ter o contato com os atletas, você está alheio a esse ambiente. Não consegue fazer uma entrevista próxima e isso te impacta por não ter “aquela” entrevista. Há limitação de profissionais, que antes era de quatro ou cinco por veículo. Hoje pode chegar apenas a dois. Assim, o comentarista ou narrador tem que ser narrador e técnico [de áudio] ao mesmo tempo e você se desdobra ali. Além disso, também pode haver aquela falha de informação por você não ter tanto contato direto com o jogador para repassando a rádio. Não temos mais o acesso a zona mista, como se tinha antigamente quando o jogo terminav. E você se dirigia a zona mista e conseguia a entrevista no pós-jogo.”

CONTINUANDO

A falta da torcida também foi um tema de nossa conversa. Para o repórter, a falta de público nos estádios trouxe menos “calor humano”, comum não só ao futebol como aos esportes em geral: “estive em grandes ginásios, que normalmente viviam cheios e agora estão parados, parecem um cemitério.

Você ouve o barulho da bola, os técnicos gritando, e é estranho estar vivendo esse momento com a falta da torcida. A própria Superliga levou a ausência de torcidas em consideração, para o cancelamento da competição em 2020, e que vai iniciar em 2021.”

Outro aspecto a ser considerado foi a possível volta das torcidas aos estádios. No fim de setembro, o governo federal deu aval para a volta dos torcedores, decisão bastante criticada e que levou os clubes da série A do Campeonato Brasileiro a adiar o debate sobre esse assunto. De acordo com os profissionais da saúde ouvidos são objetivos quanto a isso: não é o momento!

Stephanie destaca:

“Não há como evitar a aglomeração e contágio nesse caso. E por isso sou totalmente contra a volta de torcidas aos estádios. Pessoas aos atletas e profissionais do clube correm o risco de se contaminar e contaminar outras pessoas.”

Mesmo entre torcedores há um entendimento de que este não é o momento para a volta do público aos estádios.

Arthur Affonso Ramalho de 26 anos, torcedor fanático do Corinthians, afirma que:

“As autoridades se precipitaram, pois no momento da volta aos jogos. a curva de transmissão e média móvel de mortes ainda estava alta e não apresentava queda.”

“O desenvolvimento da cura, ou uma vacina para poder conter o avanço da doença, é uma questão fundamental. Pensar em ter públicos nos estádios agora, é uma questão de preservação de vidas.”

Realizamos uma enquete com torcedores de todo o Brasil e a opinião tem sido majoritários de que o momento requer cautela:

Coronavírus

                                                                               Figura Enquete sobre a volta do público aos estádios

Coronavírus
Figura Enquete sobre a volta do público aos estádios

Assim,  o impacto da pandemia do coronavírus no futebol é algo sem precedentes. Além disso, afetou todo o público envolvido seja profissional ou emocionalmente com este esporte. Com o avanço das pesquisas, nos resta a esperança de que breve voltemos a nossa rotina. Ou pelo menos parte dela, o que inclui vibrar com as decisões nos gramados.

Foto destaque: Divulgação/Internet

Alef Sousa
Alef Sousa
Sempre fui apaixonado por esportes, especialmente futebol. E vi através do jornalismo uma oportunidade de estar trabalhando com a minha Paixão. Estou no 3º Semestre da faculdade de Jornalismo. Meu grande Objetivo é torna-me repórter de campo e cobrir grandes competições. Sou um cara, extrovertido, animado, comunicativo e cheio de vontade de aprender.

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