Por algum tempo, quando o futebol não tinha regras – era só passatempo, por não ser cronometrada, a brincadeira só acabava nos pátios dos colégios ingleses quando os alunos riquinhos assim o quisessem ou se um disciplinador determinasse. Há relatos de “partidas” que duravam por dias e teriam se estendido não fossem os limites educativos. Boatos. A bola, isso sim, já era chutada há mais de cinco mil anos pelos chineses, mas o objetivo do jogo era distinto: não deixá-la tocar no chão. Na Grécia Antiga, Antífanes utilizou nas suas comédias expressões como bola longa e passe curto.Enquanto Jesus e seus apóstolos eram crucificados, Júlio César treinava a canhota e Nero desistia porque era ruim à beça. E foi pelos pés romanos que a novidade chegou às ilhas britânicas. Durante anos era permitido pegar a bola no alto com as mãos desde que em seguida fosse reconduzida pelos pés. Outras décadas se passaram até que se abolisse o espírito bárbaro contra o adversário, e desde então os jogadores vêm se tornando cada vez mais frescos. De qualquer modo, preservada às analogias bélicas, quarenta cavalheiros bêbados selaram um acordo em uma taverna inglesa na qual convencionou-se: a partir de agora, chutões só na bola. E assim foi dado o pontapé inicial do futebol moderno.
Alguns anos depois, por volta de 1870, os escoceses reconheceram que era preciso ter funções em campo – não dava só para correr atrás da bola, cansava-se muito rápido. O campo, aliás, o espaço delineado para a diversão sempre existiu, mas foi diminuindo conforme o número de praticantes. Um ano antes dos escoceses inventarem a defesa e o meio-campo, quando já havia se chegado ao consenso de que um time seria formado por onze jogadores, proibiu-se pegar a bola com as mãos. A exceção veio dois anos depois com o responsável por guardar a meta.
A meta, mais espessa e bem mais alta do que a atual, era composta por duas traves unidas por uma fita suspensa a cinco metros e meio de altura. Em 1875, a fita foi substituída por um travessão de madeira. Os gols eram marcados com talhos nas traves para controlar o placar – daí a expressão marcar um gol. Alguns acreditam que aqueles meninos ingleses, na ausência de uma meta feita em ângulos retos, improvisavam com as arcadas nos pátios dos colégios e o designado a defendê-las seria o arqueiro – expressão predileta da Coroa Espanhola e suas colônias.
Também conhecido como goleiro, porteiro, guarda-redes, cão de guarda ou goalkeeper, é o cavaleiro solitário na retaguarda das trincheiras. Debaixo dos três postes, o fuzilamento – sua condenação. Raras vezes herói, muitas vezes algoz. Carrega o número um nas costas porque é o primeiro a ser julgado. A falha dos outros é coletiva; a sua, indivisível, define um resultado, um campeonato, uma vida. Os outros têm o benefício da dúvida e são absolvidos antes da sentença; ele se ajoelha na frente do júri atroz e ouve, sem direito a defesa, a pena máxima – a depender da gravidade, perpétua. Ao atacante redimido, aplausos; ele espera paciente, no banco dos réus, por uma segunda chance.
Mangueiradas foram apelidadas as bolas fáceis de serem defendidas depois de 1966 – o que hoje se conhece por frango ou peru. A referência se deve a única falha que o ex-goleiro Manga cometeu na única e última partida que disputou naquela Copa. Depois de dois títulos consecutivos, o Brasil era eliminado na fase de classificação e Manga eleito o bode expiatório porque ninguém teve a audácia de cobrar o rei pelo desempenho aquém da realeza. Sem emprego no Brasil, Haílton Corrêa de Arruda foi jogar no Nacional do Uruguai, onde boatos garantem tê-lo visto marcar um gol de arco a arco.
José René Buros Zapata levantava multidões com suas peripécias escandalosas. Os torcedores do Nacional o idolatravam; os dos rivais odiavam amá-lo e um padre de Medellín prometia em cadeia nacional exorcizá-lo. Mas quando a Colômbia foi eliminada por Camarões nas Oitavas de final do mundial de 90, a idolatria, subitamente, foi embora por conta daquela ousadia descabida. Ninguém o reconheceu no desembarque em Bogotá porque ele havia cortado o cabelo. Só que ao ler o telegrama ameaçador no refúgio, achou melhor passar um tempo na Espanha por medo de que alguém o confundisse com Higuita.
A Colômbia, sem Higuita, derrotou a Argentina, em Buenos Aires, por 5 a 0, no dia 5 de setembro de 1993, pelo grupo 1 das eliminatórias. Os jornais colombianos destacaram a atuação de Rincón, Valderrama e Asprilla; os argentinos culparam o goleiro pelo vexame que quebrou a invencibilidade de 30 jogos da celeste no Monumental de Nuñes. Três meses antes, Goycochea defendeu pênalti nas quartas de final contra o Brasil, na semifinal contra a Colômbia e parou o México na final da Copa América de 1993, o último título da Seleção Argentina.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano dizia que a idolatria do arqueiro está no limiar do erro irreparável – aquele em que 100 anos são insuficientes para apagá-lo. Porque o condenado pela maldição das três traves será sempre mais lembrado pelos gols sofridos do que pelas alegrias evitadas.
Caio Araújo
Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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