O dia que a lenda sumiu

Muitos conhecem a vitoriosa história de Alfredo Di Stéfano. Oito vezes campeão espanhol, cinco vezes campeão europeu e o segundo maior artilheiro da história do Real Madrid, Di Stéfano é um dos maiores jogadores de todos os tempos. Porém, poucos sabem que ele já foi vítima de terroristas em um dos momentos mais complicados da história da América do Sul.

Tudo começou no dia 8 de agosto de 1963. Após um período de seis anos sem disputa, os organizadores do futebol local na Venezuela resolveram “reviver” a Pequena Taça do Mundo de Clubes. Um torneio que serviu como piloto para a criação do Mundial de Clubes, ou Copa Intercontinental na época, disputado pela primeira vez em 1960. Os convidados para aquele torneio, talvez pelo critério de ja terem disputado ou vencido o torneio anteriormente, foram o Porto, o São Paulo e o então melhor time do mundo Real Madrid.

Neste mesmo momento, uma crise abalava a Venezuela. O antigo ditador militar Marcos Pérez Jiménez havia sido deposto de seu cargo como líder do país em 23 de Janeiro 1958, após um golpe de estado. A partir deste ano, liderados por Wolfgang Larrazábal, uma nova junta militar tomou conta do país até Dezembro, quando foi realizado uma nova eleição e Rómulo Betancourt assumiu a presidência do país até 1964.

Este foi um tempo em que o mundo estava divido por causa da guerra fria e, simultaneamente, aconteciam guerras civís e revoluções em quase toda America. Vários grupos e movimentos de esquerda começavam a se formar no continente. As FALN, Forças Armadas de Libertação Nacional,lideradas pelo jovem artista plástico Paul de Rio, ainda nao eram tão forte na Venezuela como em outros países, até que apareceu a grande oportunidade de marcarem seu nome na história. Aproveitando-se da popularidade do futebol no planeta e, mais ainda, da presença do clube mais famoso do momento, o Real Madrid, então tetra campeão europeu, as FALN viram aí a grande chance de exporem suas ideias para o globo, arquitetando o sequestro da principal estrela do time no momento: Alfredo DI Stéfano.

Ná época, DI Stefano era o maior astro do esporte. Considerado, até então, o melhor futebolista de todos os tempos, Di Stéfano foi o primeiro jogador a causar grande impacto na mídia como garoto propaganda de produtos e até mesmo fazendo bico em alguns filmes da época. Alguns anos antes, por ironia do destino, Alfredo representou a si mesmo em um filme onde o enredo era focado no sequestro de um jogador de futebol.

No dia 10 de Agosto de 1963 aconteceu a partida inicial do torneio. Entretanto, a vitória do São Paulo sobre o Porto por 2×1, ficou em segundo plano. Todos, principalmente a mídia, estavam ansiosos mesmos era pela estreia da sensação do velho continente. No dia 18 de Agosto a espera finalmente acabou. Com Di Stéfano em campo, o Real Madrid venceu o Porto, também por 2×1, e assumiu a liderança do torneio com o São Paulo. A próxima partida tornou-se a mais aguardada logo que seria uma “final” antecipada do torneio, porém, tudo mudou.

Às seis horas da manhã do dia 23 de Agosto de 1963, Alfredo Di Stéfano, no seu quarto de concentração do Hotel, recebeu uma ligação na qual dizia que a polícia local gostaria de conversar com ele sobre um suposto caso de tráfico de drogas. Alfredo não hesitou e permitiu

a entrada de duas pessoas identificadas como policiais no seu quarto. A dupla pediu que ele os acompanha-se até o carro onde, posteriormente, foi vendado. Di Stéfano havia desaparecido da concentração e ninguém sabia o paradeiro dele. A partir daí, o nome de Di Stéfano tornou-se o mais procurado da Venezuela.

No dia seguinte, sem condições psicológicas, o time merengue foi facilmente batido pelo São Paulo por 2×1. Já não bastasse o clima ruim causado pelo desaparecimento do principal craque do momento, aquela tarde ficou marcada por mais um atentado terrorista. O centro Universitário de Caracas, que fica ao lado do estádio olímpico, onde acontecia a partida, foi invadido por militantes das FALN. Coincidentemente durante o intervalo do jogo, começava um tiroteio no local. Um dos assistentes de arbitragem quase foi atingido por uma bala perdida. O jogo ficou paralizado por mais 20 minutos, porém, a partida prosseguiu até o final.

No dia 25 de Agosto, a delegação do Real Madrid, que já tinha noção do que havia acontecido com Di Stéfano, ameaçou deixar o torneio pensando na segurança dos outros atletas. Entretanto, o emblemático presidente do clube na época, Santiago Bernabéu, obrigou que o time ficasse no país até o final da competição garantido aos atletas que a situação estava sob controle e nada de mau iria acontecer com eles naquele momento.

Depois de ver a repercussão que o caso tinha provocado, a FALN resolveu liberar Di Stéfano em frente a embaixada Espanhola na Venezuela com uma condição: que ele nunca identificasse ninguém que participou do sequestro. No mesmo dia, 26 de agosto de 1963, Alfredo foi levado para o estádio onde seria realizado o segundo jogo entre Real Madrid e Porto. Acompanhado por policiais até mesmo no vestiário, Di Stéfano foi obrigado a conceder uma coletiva antes da partida.

Assustado, Di Stéfano parecia outra pessoa durante a entrevista. Ninguém entendia o que estava acontecendo com a “Flecha Loira” naquele momento. Após a coletiva, o motivo foi revelado. Alguns daqueles policiais e jornalistas eram justamente os autores do sequestro. O Real Madrid, com Di Stéfano em campo, ainda venceu o Porto por 2×1, mas, por motivos óbvios, sem apresentar o grande futebol das suas últimas partidas. A última partida do torneio foi jogada no dia 30 de Agosto, um empate por 0x0 entre Real Madrid e São Paulo garantiu matematicamente o título para equipe paulista que não disputou a ultima partida com o Porto, logo que não havia mais necessidade e muito menos clima para a realização do “amistoso”.

42 anos depois do incidente, sequestrador e vitima ficaram frente a frente novamente quando o clube espanhol lançou seu filme “Real, The Movie”. Paul de Rio tornou-se um dos escultores e pintores mais famosos da Venezuela. Di Stéfano, maior ídolo da história madridista, morreu no dia 7 de julho de 2014, no Hospital Gregorio Marañon. Ele se encontrava internado desde 5 de julho daquele mesmo ano, após ter sofrido um infarto.

Pedro Victor Almeida

Sobre Pedro Victor Almeida

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Meu nome é Pedro Victor Oliveira de Almeida, sou estudante de Jornalismo, cursando o oitavo semestre, e apaixonado por esportes, principalmente automobilismo e futebol. Aliás, foi a paixão pelo próprio futebol que me motivou a buscar essa carreira com o sonho de trabalhar cobrindo o esporte mais emocionante do planeta.

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