Todos já conhecem o Brasil como o país do futebol. Afinal, uma Seleção com tantos ídolos mundiais como Pelé, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Neymar, e cinco vezes campeã do mundo tem um algo a mais. Mas somos realmente o país do futebol, ou o país do futebol masculino? Dessa forma, para entender o título, é preciso que satisfaça o esporte como um todo. O que se observa é uma realidade distinta que demorou e vai demorar para recuperar o tempo perdido no futebol feminino.

Sendo assim, a coluna Rasgando o Verbo desta semana mostra que os prejuízos para a modalidade vem de décadas, e porque esse apelido, em partes, não pertence ao país.

Atraso Histórico

Imerso em uma cultura machista e preconceituosa, o futebol feminino sofreu uma repressão de décadas. Essa pode ser uma história que os fãs do futebol ou qualquer outra pessoa não tenha conhecimento, mas sim, de 1941 a 1979, mulheres eram proibidas de jogar bola no Brasil. O governo de Getúlio Vargas, em seu decreto-lei 3.199 de 14 de abril de 1941, argumentava que o futebol era um esporte perigoso, que ia contra as condições físicas e naturais da mulher. Ou seja, já era o machismo enraizado numa concepção que o sexo feminino só servia para engravidar, disfarçado em uma ideia de proteção às mulheres, para que elas não se machucassem.

Muitas mulheres, portanto, jogavam as escondidas, clandestinamente. Se descobertas, presas, o que aconteceu com várias. Apesar da proibição ter se encerrado em 1979, a regulamentação só veio em 1983. O estranho é mentalizar que isso aconteceu no futebol feminino, mas às vezes, é difícil imaginar que aconteceria o mesmo no masculino. Foram 42 anos de atraso que trazem reflexos até hoje.

Criação de um Campeonato

Em 2007, a Seleção Brasileira Feminina venceu o Pan-americano do Rio de Janeiro. Meses depois, alcançou sua melhor participação em Copas do Mundo, perdurando até hoje – o vice-campeonato. Na época, a Rainha Marta já conquistava por duas vezes o prêmio de Melhor do Mundo, e no Brasil, ainda não tinha um campeonato próprio de destaque para o feminino. Por que em um país que sua própria seleção está em ascensão não tinha um campeonato pra categoria? Sendo assim, anos mais tarde, em 2013, criaram o Campeonato Brasileiro. Mas sem visibilidade alguma.

Apenas em 2019, após seis anos de criação, o torneio ganhou um patrocinador – UBER. Para incentivar a prática do esporte pelas mulheres, a Confederação Brasileira de Futebol obrigou os times masculinos a montar equipes femininas. Caso contrário, essas equipes não participariam de competições internacionais. Mas como? Apesar de alguns clubes darem valor para as atletas, outros criaram para estar nas competições, o time feminino fica às traças.

O Descaso Sem Fim

O ano é 2020, muitos times femininos pelo Brasil sofrem com a falta de patrocínio. Muitos times femininos pelo Brasil precisam de uniformes emprestados para jogar. Muitos times femininos pelo Brasil não oferecem salários para as jogadoras. Muitas jogadoras pelo Brasil estão no futebol pelo amor, o amor na ponta da chuteira. A pandemia chegou e piorou a situação que já não era boa. A CBF auxiliou os clubes femininos com certas quantias em dinheiro para ajudar às atletas. Muitas delas nem sequer viram o montante. Clubes sumiram com o auxílio ou colocaram nos cofres do masculino, sem nenhuma explicação.

Na iminência de fechar, o tradicional clube, Iranduba teve que recorrer a vaquinha on-line para se manter. Por outro lado, a equipe do Vitória possui um presidente tão machista a ponto de dizer “o masculino é prioridade e ainda tenho que ouvir gente preocupada com o futebol feminino”. Isso serve para elevar um país ao patamar de PAÍS DO FUTEBOL? A equipe feminina do Atlético-GO joga com uniformes do masculino, mas para o presidente do clube, nem teria essa categoria. Já o Auto-Esporte da Paraíba demitiu quatro jogadoras após reclamarem da distribuição do auxílio da CBF.

A Luta Continua

O Brasil não é país do futebol porque foram 42 anos de proibição do esporte. O Brasil não é o país do futebol porque o primeiro campeonato só surgiu em 2013, e o primeiro patrocínio só em 2019. E há vários outros motivos para isso, além de ter poucos veículos e transmissão adequada para acompanhar o futebol feminino. O Brasil não é o país do futebol porque as jogadoras ainda sofrem machismo no clube, pelos chefes, pelos torcedores, pelos mascotes de time igual ao Atlético Mineiro. Brasil não é o país do futebol porque alguns times ainda vivem no descaso, sem salários, sem uniformes, sem visibilidade, sem base, sem aporte, sem justiça.

2020 ainda não acabou, apesar de todos os imbróglios vividos, ainda há esperança no fim do túnel. Mais dois patrocinadores para o futebol feminino surgem – Nike e Guaraná – pelo menos para o campeonato oficial. Além disso, várias outras começaram a apoiar após parceria com Guaraná. Duas mulheres estão a frente da Coordenação de Seleção e Campeonatos. A Seleção Feminina receberá o mesmo que a masculina. Futebol feminino não é apenas Copa do Mundo. Há muito ainda para se fazer, mudanças precisam de tempo, basta estar preparado e querer. Não sabemos quando o futebol feminino terá reconhecimento, mas o que se sabe é que o Brasil está longe de ser o país do futebol.

Foto destaque: Divulgação/Ellen Moreira 

Mariana Tolentino
Meu nome é Mariana Tolentino Dias, sou goiana, tenho 20 anos e curso Jornalismo na PUC-GO. Não me vejo fazendo outra área a não ser o esportivo. Futebol e NBA são minhas paixões. Torcedora roxa do Goiás Esporte Clube e do Houston Rockets

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