Libras

O mês de setembro é muito especial para os portadores de deficiência auditiva, por isso é conhecido como setembro azul. Isso porque anteriormente no dia 10 era celebrado o Dia Mundial da Língua de Sinais, em 26, o Dia Nacional do Surdo e no dia 30, o Dia Internacional do Surdo, intérprete e/ou tradutor Mundial do Surdo. Entretanto, em 2019 a Assembléia Geral das Nações Unidas alterou uma das datas e declarou o dia 23 deste mês como ‘Dia Internacional da Língua de Sinais'.

Ao passo que a data remete à criação de uma organização importante de defesa dos direitos e que luta pela preservação da língua de sinais e, a cultura da pessoa surda, trata-se da World Federation of the Deaf (WFD), ou seja, Federação Mundial de Surdos, fundada em 1951 e localizada na cidade de Roma, na Itália.

No mundo tem cerca de 70 milhões de pessoas surdas, no entanto, no Brasil estima-se que são mais de 10,7 milhões de deficientes auditivos. Sobretudo, mesmo com esse número significativo, infelizmente grande parcela da sociedade os ignoram e os governantes não dão a atenção necessária para essa parte da população.

Setembro Azul – Inovação e Empatia

Com o intuito de celebrar a data tão importante no calendário, o portal ‘Futebol na Veia‘ conseguiu uma vaga na agenda de Iathsa Oliveira, responsável pelo ‘VascoLibras', perfil totalmente voltado a comunidade surda vascaína e que vem fazendo muito sucesso na web.

Nesse ínterim, tradutora e intérprete há mais de 18 anos, vivencia a língua de sinais diariamente. De antemão, questionada sobre como surgiu a ideia de criar um canal voltado ao público surdo, ela revelou que tem como objetivo espalhar e, multiplicar a  adesão tanto de surdos quanto ouvintes.

Então, estou inserida de fato na Comunidade Surda há 18 anos. Mas profissionalmente há 10. A Falta de informaçôes claras e de uma comunicação eficaz fez com que eu tivesse esse olhar mais técnico e profissional, visto que vivo diáriamente com isso.
Se tratando do Vasco, após gravar o hino do Clube, o Renato que é um dos Administradores do Grupo do WhatsApp da comunidade surda vascaina me convidou para fazer parte do grupo na qual eles comentam sobre o clube e colocam suas dúvidas. Eu as vejo e traduzo para Libras tornando assim informação eficaz a eles .
Só que sempre quis que houvesse mais pessoas no grupo. Um Clube como o Vasco não tem somente 20 torcedores espalhados pelo brasil… por isso criei o instagram e o twt com o apoio e consentimento deles e ja somos mais de 50. E cada dia mais vai entrando mais surdos.”

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Por um Vasco acessível

Todavia, a dinâmica do meio esportivo foi adaptada aos deficientes auditivos com essa iniciativa tendo apresentação e transmissão de jogos em libras. Além disso, as entrevistas coletivas também ganharam sua versão, bem como o hino Cruz-Maltino. Torcedora do Vasco desde a infância, é possível notar nas palavras de Iathsa que o amor ao time, a empatia e busca pela acessibilidade foi o pontapé inicial.

A História do Vasco é muito grande sobre fazer as minorias serem vistas e reconhecidas. A presença do Intérprete nas coletivas, notícias, jogos e tours estaria não só levando acessibilidade e inclusão, mas estaria mostrando que é um clube de todos e para todos de fato”. Assim sendo, a tradutora usou o espaço para deixar um convite para todos: “Vamos juntos, tornar o Vasco e o FUTEBOL Acessivel e Inclusivo, o tornando de fato GIGANTE!”

Preconceitos Enraizados

Em pleno o século XXI, ainda nos deparamos com preconceitos enraizados, porém ainda são vistos como brincadeira por uma parcela da sociedade, seja por falta de conhecimento ou mesmo por inocência. Nesse sentido, os termos como ‘mudinho' e ‘surdo-mudos' não são mais aceitáveis.

Dessa forma, Iathsa endossa o coro contra o bullying realizado aos portadores de deficiência auditiva. Do mesmo modo, ela repassa uma informação que uma parcela da população desconhece e repetem por hábito, diga-se de passagem erroneamente.

A primeira coisa é dizer que ele não são SURDO-MUDO, MUDINHOS, Eles são Surdos. Não desenvolvem a fala de forma eficaz por conta da Surdez, mas emitem som (grutam, choram, reclamam). A Mudez é outra deficiência. Para muitos destes, a Lingua Materna é a Libras e não o Português. A Sociedade coloca o Surdo como ‘invisivel' e os coloca no cantinho de esquecimento, mas em pleno 2021 isso? Até quando eles serão privados de ter acesso de forma correta as informações”.

Ajudar é preciso, desde com uma base adequada

A princípio, fazer o bem, agir com o coração em prol do próximo nem sempre é algo fácil. Ao passo que na caminhada encontra-se alguns obstáculos e a profissional explicou qual a  maior dificuldade na produção de conteúdo. Por outro lado, se faz necessário ressaltar que não basta boa vontade é preciso ter conhecimento, caso contrário, a prática mais atrapalha do que ajuda os surdos.

“Existem algumas… Ás vezes as pessoas gravam videos e não se importam com a qualidade do som; o que dificulta o entendimento por causa dos ruídos. Bem como, confundem assuntos que não tem conexão. Ai cabe ao Intérprete usar e abusar da contextualização e dos recursos que estão a disposição. 

Reprodução/Twitter

Libras é amor

De acordo com a idealizadora do VascoLibras aproveitou para destacar o quão é importante aprender Libras, no entanto, pontuou que a prática é o ponto principal da aprendizagem. Primordialmente, o amor é necessário para absorver e executar a língua de sinais.

Do mesmo modo, Iathsa citou que existem que já utilizamos de forma inconsciente no dia a dia, em libras eles são chamados de icônicos. Por exemplo: beber, dinheiro, telefone, entre outros.

“Para quem está aprendendo, não desista! Libras é prática. É treinamento, é vivência, contato e acima de tudo AMOR! Eu digo que todos nós sabemos Libras, mas não temos consciência disso. Se eu pedir para você fazer o sinal de Casa, Telefone, coração, gritar, Sorrir… Você sabe fazer. O que falta é a informação, o querer aprender e viver isso”.

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Repercussão Positiva

Sobretudo, questionada referente a repercussão e aceitação do projeto pela torcida do Vasco, a profissional conta que foi abraçada pelos vascaínos. Além disso, ela destaca a participação das pessoas que não possuem nenhuma deficiência auditiva e que mesmo assim, apoiam a luta pela acessibilidade e inclusão.

Graças a Deus está sendo muito boa. A Torcida Vascaina me surpreendeu com total apoio nao só por mim, mas pelos próprios surdos! É dificil ver ouvintes que não conhecem Libras lutando pela acessibilidade e inclusão como têm acontecido. Cada dia é uma surpresa e um apoio incrivel!
Nós estamos imensamente gratos a cada um que nos segue, apoia e compartilha”.
🤟💙⚽️

Sociedade Bilíngue

No entanto, é preciso destacar a visibilidade que a Libras ganhou no país com o auxílio da primeira dama do Brasil, Michele Bolsonaro, que interpretou parte do discurso de posse do presidente em 2019 e também fez questão de participar da gravação do hino nacional em língua de sinais.

De tal forma não tem como negar a interferência positiva da mesma no sancionamento da nova LDB, em 04 de agosto deste ano. Afim de beneficiar os deficientes auditivos, a alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – N° 9.394, de 1996), visa conceder uma educação bilíngue caracterizando como a primeira língua a libras, enquanto o português escrito será a segunda língua.

Abaixo temos alguns links importantes para aprofundar o conhecimento no assunto no âmbito nacional.

Reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais-Libras (Lei n° 10.436 de 24 de Abril de 2002)

Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei n° 13.146 de 06 de Julho de 2015)

Atualização da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional com Educação Bilíngue para Surdos (LDB n° 14.191 de 03 de agosto de 2021)

Permita-se

Afim de encerrar a entrevista com chave de ouro, a criadora da VascoLibras destacou que é preciso se abrir e deixar a Língua de Sinais. Assim sendo, a mudança no modo de olhar o mundo com mais empatia será iniciada.

Se permita conhecer essa Lingua tão rica e cativante que é a Libras! Tenho certeza que assim como mudou a minha vida, ela fará o mesmo com você”.

Foto: Reprodução Twitter

Tathiane Marques
Na verdade, não fui eu que escolhi o jornalismo e sim ele que me escolheu. Sem dúvidas, a profissão é como um oceano que precisa ser desvendado na sua profundeza, só assim é possível conhecer e respeitar toda sua beleza.