Milito: uma rivalidade entre irmãos

Cresceram na cidade de Bernal, localizada na província de Buenos Aires. Durante os primeiros anos de vida, compartilhavam dentro de casa a paixão de todo menino: o futebol. Sendo assim, andavam sempre em trio, pois a bola, melhor amiga de ambos, era parceira inseparável. Dia após dia a pelota era uma espectadora privilegiada, uma vez que acompanhava in-loco o surgimento de dois ícones. No entanto, a mesma bola que uniu, separou. Essa é a história de Gabriel e Diego Milito.

INDEPENDIENTE X RACING

Sem sombra de dúvidas, o surgimento de Gabriel Milito foi uma revolução dentro do Independiente.“El Mariscal” debutou pelo Rojo com apenas 17 anos. Entretanto, apesar da pouquíssima idade, se consolidou, em 1997, como peça-chave no sistema defensivo, logo em sua primeira temporada na equipe principal. Nesse cenário, começou a ser figurinha carimbada nas convocações da Seleção Argentina sub-20. No Torneio Sul-Americano de 1999, foi protagonista na conquista do título. Entretanto, na Copa do Mundo da categoria, disputada naquele mesmo ano na Nigéria, não foi capaz de impedir a eliminação precoce da Alviceleste, que caiu nas oitavas de final diante do México após um goleada por 4 x 2.

Enquanto o caçula cimentava sua trajetória no Rey de Copas, Diego Alberto encerrava o primeiro jejum do Racing ao se consagrar campeão do Campeonato Argentino sub-20 em 1999, fato que não ocorria há 9 anos. A excursão internacional de Gaby saltou aos olhos dos caça-talentos da Europa. Logo, as primeiras ofertas chegaram à mesa do Independiente. Na época, o Olympique de Marseille tentou por mais de uma vez a contratação do defensor, que foi enfático:

“Só vou sair quando for campeão”.

Três anos mais tarde, era um dos líderes da equipe comandada pelo técnico Américo “El Tolo” Gallego que conquistou o Torneio Apertura de 2002.

MILITO HAY UNO SOLO

O sucesso de Gabriel foi concomitante ao de Diego, que, em dezembro de 2001, botou novamente um ponto final em outro tabu da Academia. O histórico campeonato que acabou com um seca de 35 anos serviu como trampolim para a Europa. Em 2004, “El Príncipe” se mudou para o Genoa. Na Itália, em uma temporada, anotou 34 gols. Com destaque, trocou Gênova por Zaragoza, onde Mariscal o esperava. Esta foi a única oportunidade na qual os Milito defenderam a mesma camisa. No entanto, ambos teimavam em se destacar. Assim, se separaram novamente: Gabriel rumou para o Barcelona; Diego para Inter de Milão.

Em clubes melhores estruturados, zagueiro e atacante levantaram a orelhuda. Além disso, tiveram a oportunidade de disputar uma Copa do Mundo. No entanto, fizeram em edições diferentes. Enquanto Gaby esteve, em 2006, na Alemanha, Diego foi para à África do Sul em 2010. No frigir dos ovos, o atacante brilhou mais que o defensor. Gabriel, em quatro anos de Barcelona, disputou apenas 76 partidas. Sendo assim, as dez conquistas do defensor na Catalunha possuem um sabor distinto aos seis troféus, em cinco temporadas, do Príncipe na equipe Nerrazurri. Quando retornaram aos seus clubes na Argentina, o defensor demonstrou que estava fora de ritmo, ao passo que o atacante conduziu o Racing ao título do Torneio Transición 2014.

O TEMPO É O MELHOR REMÉDIO

Por diversas ocasiões estiveram frente à frente. Nesses momentos, uma máxima entrava em vigor: “Milito, Milito, futebol à parte“. Porém, o atual técnico do Estudiantes colocou panos quentes no passado: “esses assuntos já ocorreram”. Aquela discussão no Monumental que terminou com a expulsão de Gabriel e com a lesão de Diego é uma história que não voltará a se repetir. O insulto do ídolo do Independiente a mãe do rival, que era a mesma que a sua, foi um dos momentos mais curiosos do clássico de Avellaneda.

Aquele episódio marcou um precedente. Porém, os protagonistas cresceram e juntos provaram que na rivalidade não existe espaço para inimizade. Assim como Gabriel convidou Diego para sua partida de despedida no estádio Libertadores da América, o centroavante retribuiu na mesma moeda quando pendurou as chuteiras no Cilindro. Desse modo, a diferença entre ambos está restrita ao pós-gramados. Enquanto Gabriel escolheu a carreira de técnico, Diego se transformou em manager do Racing.

IMAGINE SÓ

Em um futebol tão volátil como o argentino, não seria nada anormal que o irmãos voltem a trabalhar em conjunto. Seria uma loucura pensar na dupla no Racing, caso Eduardo Coudet realmente deixe o cargo rumo ao Internacional? Ambos seriam considerados traidores?

“Para mim é um treinador fantástico, apesar da identificação que tem. Gostaria de fazer acontecer, mas lamentavelmente será impossível, porque ele sente dessa maneira. Eu gostaria, mas ele não viria. Eu busco os treinadores que tem uma grande capacidade, e Gabriel está dentro dessa lista de técnicos. Mas, pela história que todos conhecem será impossível”, disse Diego quando foi consultado sobre a possibilidade de contratar seu irmão.

Talvez essas circunstâncias fiquem restritas ao campo da ficção. Contudo, desde cedo aprendemos que “o futebol é uma caixinha de surpresas”.

 

 

Pedro Ferri
Pedro Rodrigues Nigro Ferri, 19, nascido em Assis-SP. Jornalista em formação pela Faculdade da Cásper Líbero e um fiel devoto. Católico? Protestante? Não, corinthiano. Sou mais um integrante do bando de loucos e nunca me conheci sem essa doença. Frequentador de arquibancada, sou apaixonado por torcidas. Sabe aquela música do seu time? É, eu canto ela no chuveiro. Supersticioso ao extremo e disseminador da política "NÃO GRITA GOL ANTES DA BOLA ENTRAR!".

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