Rapinoe ao lado de um colega de ensino médio utilizando o uniforme da equipe de basquete da Foothill High School

A coluna Parabéns ao Craque deste domingo (5) faz homenagem à atacante Megan Rapinoe, eleita a melhor jogadora do mundo pela FIFA no ano passado. A atleta norte-americana, que está completando 35 anos, defende o OL Reing, nos Estados Unidos. Ao longo da carreira, a jogadora conquistou diversos títulos nacionais e internacionais, além de se tornar conhecida por lutar pela igualdade de gênero – não somente no futebol – e pelos direitos da população LGBTQI+.

PRIMEIROS MOMENTOS DA CARREIRA

Desde a adolescência, Rapinoe sempre foi decisiva. Em 2002, a atleta começou a jogar pelo Elk Grove Pride na Women's Premier Soccer League (WPSL), que é a segunda divisão do futebol feminino nos Estados Unidos. Logo no primeiro ano jogando pela equipe, a atleta marcou um gol de empate contra o Peachtree City Lazers, que fez com que o clube conquistasse o segundo lugar no Campeonato Nacional de Futebol Juvenil dos EUA.

Foi o bom desempenho da atleta na equipe, onde ela permaneceu até 2005, que a deu uma vaga para jogar na Copa do Mundo de Futebol Feminino Sub-19 em 2004. Na competição, a seleção norte-americana ficou em 3º lugar. A classificação no pódio também ocorreu com uma forte ajuda de Rapinoe, visto que a jogadora marcou em três partidas, contra as equipes da Rússia, da Austrália e do Brasil.

O que poucos sabem, no entanto, é que antes de tentar a carreira no futebol, Rapinoe jogava basquete na escola. Apesar de ter deixado o basquete de lado e se tornado jogadora de futebol profissional, atualmente a atleta namora a basquetebolista e campeã mundial Sue Bird.

Rapinoe ao lado de um colega de ensino médio utilizando o uniforme da equipe de basquete da Foothill High School (Foto: Reprodução/Foothill High School yearbook)
Rapinoe ao lado de um colega de ensino médio utilizando o uniforme da equipe de basquete da Foothill High School (Foto: Reprodução/Foothill High School yearbook)

DESTAQUE NO PORTLAND PILOTS

Em 2005, após entrar para a Universidade de Portland, em Oregon, a atleta deixou o clube onde jogava e passou a defender o time universitário Portland Pilots. Se, até então, Megan ainda não era uma jogadora consagrada, foi durante este período que a atleta conseguiu este título. No primeiro ano da jogadora como titular do Pilots, o time invicto venceu o campeonato acadêmico da National Collegiate Athletic Association (NCAA).

Megan Rapinoe durante uma partida pelo Portland Pilots
Megan Rapinoe durante uma partida pelo Portland Pilots (Foto: Divulgação/Will Crew)

No ano seguinte, em 2006, a atleta já estava entre as principais artilheiras do país, com um número impressionante de dez gols e duas assistências em 11 partidas. Entretanto, a temporada que parecia ser perfeita foi interrompida após a atleta sofrer uma lesão no ligamento cruzado anterior. Em 2007, Rapinoe também foi prejudicada por uma segunda contusão, que a fez ser dispensada faltando dois jogos para o fim da temporada.

O histórico pessimista marcado pelas lesões não foi um impedimento para que a atleta fosse titular em todos os jogos da temporada de 2008. Em uma das partidas, Rapinoe marcou cinco gols e deu 13 assistências, o que ajudou o clube a obter um recorde de 20 x 2. Com isso, a atleta foi eleita a Jogadora do Ano da Conferência da Costa Oeste.

CARREIRA COMO JOGADORA PROFISSIONAL

A carreira universitária brilhante fez com que a atleta fosse selecionada pelo Chicago Red Stars, em 2009, para a primeira edição do Women's Professional Soccer (WPS), que era a elite do futebol feminino norte-americano no período. Assim, após ser titular em 17 dos 18 jogos da temporada, Rapinoe foi nomeada para o “Time das Estrelas” da liga.

Os anos seguintes foram marcados por mudanças de clube. Em 2010, a jogadora assinou com o Philadelphia Independence após o Chicago Red Stars interromper as operações. Após quatro jogos pela equipe, a atleta passou a defender o MagicJack, também na WPS. O futebol australiano também pôde contar com Rapinoe. Em 2011, a atleta assinou com o Sydney FC e jogou somente duas partidas pela W-League.

Em 2013, Megan se aventurou no futebol francês pelo Olympique Lyonnais, que já havia vencido seis campeonatos consecutivos da liga francesa. Neste período, a jogadora atuou como lateral-esquerdo e foi titular em seis partidas. Ademais, o vice-campeonato da Liga dos Campeões Feminina da UEFA, conquistado pelo Lyon naquele ano, também contou com uma forte contribuição da atleta, visto que a jogadora marcou dois gols e deu uma assistência nas cinco partidas que disputou.

Após tantas mudanças em um curto período, Rapinoe assinou com o Reign FC, onde permanece até hoje, em 2013. Como nas equipes anteriores, Megan manteve o protagonismo e se tornou a artilheira do time logo na primeira temporada disputada. Além disso, nos dois anos seguintes, em 2014 e 2015, a jogadora ajudou a equipe a vencer a temporada regular da National Women's Soccer League (NWSL), que é a atual primeira divisão do futebol feminino nos EUA.

COMPETIÇÕES INTERNACIONAIS

Rapinoe treinou pela primeira vez com a seleção principal dos Estados Unidos em 2006. A estreia da atleta ocorreu em um amistoso contra a Irlanda em julho. Em outubro do mesmo ano, Megan marcou seus dois primeiros gols com a camisa da seleção norte-americana, como representante da equipe principal, em um amistoso contra Taiwan. Apesar do bom desempenho, as duas lesões sofridas fizeram com que a jogadora não participasse da Copa do Mundo Feminina de 2007, na China, e nem das Olimpíadas de Pequim em 2008.

Em 2011, Megan disputou sua primeira Copa do Mundo e foi titular em todas as partidas. A participação da atleta foi decisiva para fazer com que a equipe norte-americana chegasse a final. Apesar de perder para o Japão por 3 x 1 na final, a seleção estadunidense se destacou naquele ano. Isso porque Hope Solo, a goleira da equipe, foi eleita a melhor do torneio.

Além disso, a ex-atacante Abby Wambach foi considerada a segunda melhor jogadora da copa. Embora Rapinoe não tenha conquistado nenhum destes títulos, as três assistências e o gol marcado durante a competição foram suficientes para que sua cidade natal, Redding, nomeasse o dia 10 de setembro como “Megan Rapinoe Day“.

No ano seguinte, Rapinoe marcou dois gols contra o Canadá em uma partida da semifinal e ajudou a seleção a chegar à final dos Jogos Olímpicos de Londres. A equipe, que conquistou a medalha de ouro, contou novamente com uma assistência de Megan na partida final contra o Japão. O desempenho impecável continuou nos anos posteriores. Assim, em 2015, a seleção feminina dos EUA venceu a Copa do Mundo Feminina no Canadá com a ajuda de Megan. Afinal, a jogadora marcou dois gols na competição e deu uma assistência na final contra o Japão.

CONSAGRAÇÃO NA COPA DO MUNDO DE 2019

Se você conhece um pouco sobre a carreira Rapinoe, é provável que se lembre de algum dos seis gols que ela marcou na Copa do Mundo de Futebol Feminino na França, em 2019. Após sofrer uma eliminação nas quartas de final contra a Suécia nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, a seleção norte-americana se tornou a melhor do mundo mais uma vez nesta competição.

Foi durante este torneio que Megan fez seu 50º gol internacional. Dessa forma, além de contribuir para que a seleção norte-americana levasse a taça para casa, a atleta recebeu a Bola de Ouro como melhor jogadora da competição e a Chuteira de Ouro como artilheira do torneio.

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MEGAN RAPINOE ELEITA MELHOR DO MUNDO

Após superar a atacante norte-americana Alex Morgan e a zagueira inglesa Lucy Bronze, Rapinoe foi considerada a melhor jogadora do mundo na temporada 2018/2019 pela FIFA, em uma decisão fortemente influenciada pelo desempenho da atleta na Copa do Mundo. Durante a premiação, que ocorreu em setembro do ano passado, em Milão, Megan aproveitou o discurso para agradecer as colegas de equipe e os treinadores. Além disso, a atleta pediu por igualdade salarial e pelo engajamento da comunidade do futebol contra o racismo e a homofobia.

“Primeiramente, gostaria de agradecer à minha família, minha namorada que não pôde estar aqui, muito obrigada por todo o apoio em todos estes anos. Todos meus treinadores e treinadoras em toda a minha vida. Todas minhas colegas de equipe. Muito obrigada a todas as jogadoras com quem joguei no passado. Foi um ano incrível para o futebol, a Federação Francesa e a Fifa fizeram uma grande Copa, fazer parte disso foi indescritível”, disse Megan Rapinoe ao receber a premiação.

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RELAÇÃO COM O IRMÃO

A relação de Megan com seu irmão, Brian Rapinoe, foi fundamental para torná-la uma atleta. Isso porque, segundo a jogadora, ele foi a grande inspiração para que ela seguisse a carreira no futebol. Embora os dois fossem muito próximos durante a infância, Brian foi preso na adolescência após levar metanfetamina pela escola.

A vida conturbada do irmão continuou nos anos seguintes, marcada por tráfico de drogas e roubo. Após passar alguns anos em detenção, Brian tatuou uma suástica na palma da mão e se uniu à seguidores do nazismo para se manter protegido na prisão. Assim, o irmão da atleta foi mandado para a prisão de segurança máxima de Pelican Bay, na Califórnia.

Megan Rapinoe e Brian Rapinoe durante a infância
Megan Rapinoe e Brian Rapinoe durante a infância

Foi na prisão onde Brian assistiu as primeiras aparições de Megan na seleção feminina dos Estados Unidos. Após a equipe conquistar o título mundial em 2015, Brian concedeu uma entrevista à ESPN falando sobre o desempenho da irmã.

“Eu estava super feliz pela Megs e super triste por mim. Eu amo muito a minha família, e todos eles estavam lá. Entendi que eu não podia nem ser parte daquilo. Sim, eu fiz muitos torcerem por ela na prisão, mas, quando o jogo acabou, eu estava sentado na minha cela e não podia abraçá-la. Não estava lá para testemunhar isso. Foi mais uma coisa da vida da minha família que eu perdi. O que estou fazendo com a minha vida?”, declarou o irmão de Megan.

Atualmente, Brian está em um programa de reabilitação e ressocialização na Califórnia e conversa com Rapinoe diariamente. Segundo ele, o sucesso da irmã serviu como exemplo para que ele tentasse recomeçar. Dessa forma, a jogadora assumiu um papel heroico para ajudar a luta do irmão contra as drogas e a criminalidade.

LUTA POR IGUALDADE

A maestria de Rapinoe em campo também se estende para fora dos gramados. A atleta é conhecida pela forte luta pelos direitos da comunidade LGBTQI+, pela igualdade de gênero e contra o racismo. Na Copa do Mundo em 2019, a atleta protestou ao não cantar o hino dos Estados Unidos por não se sentir representada pela bandeira norte-americana. Os atritos com o presidente dos EUA, Donald Trump, também marcaram a participação da atleta na Copa no ano passado. A capitã da seleção feminina do país afirmou que não iria à Casa Branca caso a equipe vencesse a competição.

“Sua mensagem está excluindo pessoas. Você está me excluindo, excluindo pessoas que se parecem comigo, excluindo pessoas de cor, excluindo americanos que talvez o apoiem”, disse Megan se referindo à Trump em entrevista à CNN.

Além disso, às vésperas do início da competição, Megan Rapinoe se uniu às colegas de time para processar a Federação Americana de Futebol por discriminação por gênero. O processo incluía denúncias sobre ganhos financeiros em comparação com à seleção masculina. Ademais, os protestos denunciavam a diferença em relação aos locais de treino, ao tratamento médico e até sobre o transporte para os jogos.

A jogadora também se posicionou diversas vezes contra o racismo. Além de uma série de publicações em suas redes sociais, a atleta falou sobre o assunto inúmeras vezes em entrevistas. Ao falar para a BBC no ano passado, Megan afirmou que multas atuais para discriminação racial no esporte são muito baixas.

“Se houver um único exemplo de racismo e as jogadoras em campo não ficarem indignadas, então elas são parte do problema”, disse a atleta em entrevista à BBC.

Megan Rapinoe protestando contra a desigualdade no futebol durante o hino nacional dos EUA em uma partida contra a Holanda (Foto: Kevin C. Cox / Getty Images)
Rapinoe protestando durante o hino nacional dos EUA em uma partida contra a Holanda (Foto: Kevin C. Cox / Getty Images)

Foto destaque: Reprodução/Getty Images

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Giovanna Oliveira
Giovanna Oliveira, 19 anos. Estudante de jornalismo, profissão que escolhi por ser apaixonada por ouvir e contar histórias. Atualmente, trabalho na redação da Casa Vogue e sou colunista do Coldplay Brasil. Acredito que não somente o futebol, como todos os outros esportes, são algumas das formas mais encantadoras de lidar com a vida e se conectar com as pessoas.

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