Maradona, por Kusturica: um retrato mortal de um Deus

Maradona… para muitos, “él más grande” que já existiu, o autor do gol do século e quase uma divindade na Argentina, especialmente em Buenos Aires. Assim, se conhecemos o gênio Maradona, ainda pouco nos aprofundamos no Diego Armando Maradona e sua vida fora dos campos. Logo, no documentário Maradona, por Kusturica, o diretor traça um perfil humano da vida do maior ídolo dos hermanos de todos os tempos. Dessa forma, é a pedida da coluna Futflix em comemoração a alta hospitalar do craque da albiceleste.

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Assim, disponível no Youtube, a obra é um retrato íntimo filmado pelo premiado diretor iuguslavo Emir Kusturica, grande fã de futebol e de Maradona. Logo, ele traz a figura polêmica em torno do jogador, seja pelo talento em campo ou pela peculiar língua afiada. Além disso, seja pelo vício em cocaína ou pela proximidade com regimes ditatoriais de esquerda. Apesar disso, Diego Armando Maradona é considerado um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, inclusive com uma igreja em seu nome.

Logo, vencedor de duas Palmas de Ouro, em Cannes, Kusturica contrapõe essa realidade argentina de adoração messiânica, mas com ela não conflita, ao mergulhar na vida do craque. Dessa forma, consegue extrair de Maradona depoimentos comoventes, duros e reais de um ser humano que errou muito e que guarda a dor de não poder voltar atrás no tempo. Como dito, está lá as relações com líderes políticos de esquerda, a cocaína, mas também o drama pessoal com suas filhas e a sensação de poder ter dado mais ao futebol.

IGREJA MARADONIANA

Embora mostre outra face do ídolo argentino, Maradona, por Kusturica também apresenta o craque em seu auge ao trazer momentos da Copa do Mundo de 1986. Assim, vencida pela Argentina contra a Alemanha, o jogo símbolo da conquista foi diante da Inglaterra com o famigerado gol do século. Logo, repetido a exaustão, tal tento e o de mão, minutos depois, representam não só uma vitória futebolística, mas também fora dos campos em um ambiente de tensão política. Isso porque, anos antes, a Inglaterra havia derrotado a Argentina na Guerra das Malvinas, e os gols representaram uma vingança contra a opressão que seu povo sentiu.

Assim, se não bastasse o fato de conduzir seu país de apaixonados pelo futebol à uma conquista mundial, Maradona se tornou um herói, também, político. Dessa forma, venerado como uma divindade em cada canto da nação. Logo, como toda deidade, tem um templo, a Igreja Maradoniana de Buenos Aires, em que seus devotos se batizam e se casam em seu nome. Assim, Maradona, por Kusturica ajuda a compreendermos os caminhos que levaram os argentinos a cultuar um Deus em carne e osso.

PERSONA HUMANA DE MARADONA

No entanto, é curioso perceber que embora fale de um dos maiores craques da bola, o futebol é muitas vezes deixado de lado no documentário. Isso porque, desde seu princípio, Kusturica não quer girar em torno do que todos conhecem, mas, sim, entender as idiossincrasias do ídolo argentino. No que reside os melhores momentos da fita. Logo, a obra deixa Maradona livre para ser brincalhão, mau humorado, marrento, mas também emocionante e arrogante ao mesmo tempo.

Dessa forma, por várias vezes, surge um Maradona cantando, chorando, vingando derrotas pessoais e coletivas, admirando as filhas e sendo grato pela parceria com a esposa. No filme, Kusturica não se coloca a margem do que é visto em tela, embora em poucos momentos, deixe o instante acontecer, naturalmente. Logo, a obra funciona como um relato de um fã, mas também de um amigo que acompanhou dias da vida de seu ídolo.

FAMÍLIA E POLÍTICA

Isso porque, apesar de toda a glória no futebol, Maradonaesconde” a dor de não ter acompanhado o crescimento das filhas, Dalma e Giannina. Pois, entorpecido pelas drogas que o consumiram, perdeu momentos da vida delas, embora estivesse fisicamente no local, algumas vezes. Assim, um tempo que reconhece que não volta mais, e que por isso, apenas ele sabe o que é guardar o arrependimento. Arrependimento, inclusive, de não ter sido um jogador ainda melhor para a Argentina e para o mundo, caso não fosse a cocaína.

Ligado a figuras políticas de esquerda na América Latina, como Fidel Castro, a obra escancara sua relação com esses líderes. Inclusive, Maradona tem tatuado as faces do ex-presidente de Cuba e do guerrilheiro revolucionário Che Guevara, no que é motivo de orgulho para o craque argentino. Além disso, apresenta o sangue nos olhos ao falar sobre as ações do ex-presidente americano George W. Bush.

MARADONA… POR KUSTURICA

Em partes da projeção, o diretor Kusturica usa, como artifício, passagens de outros de seus filmes para contextualizar e comparar a vida do craque. Assim, envolve o engajamento político, que beira a panfletagem, e as diferenças em relação a máfia de Nápoles e as supostas armações em copas do mundo. Logo, a obra tem os ex-presidentes da FIFA, João Havelange e Joseph Blatter, como alvos, inclusive, de animações que quebram a tensão de seus depoimentos.

Dessa forma, após seus 93 minutos, Maradona, por Kusturica carrega a alma latino-americana de erros e acertos, de quedas e retomadas. Assim, nos apresenta uma análise documental da carreira do ídolo argentino, sendo ao mesmo tempo, envolvente, imaginativo e emocionante. Um filme feito não apenas para quem cultua o craque, mas para todos que amam o futebol em sua essência. Conhecer um Maradona que viveu como quis, falou o que quis e sempre foi o mesmo é algo significante. Apesar de todos os seus erros, há sempre margem para uma revisão do passado e de construir uma nova história no presente para se ter um novo futuro.

“‘Marado', ‘Marado', nasció la mano de Diós, ‘Marado', ‘Marado', llenó alegria en el pueblo, regó de gloria este suelo… Olé, olé, olé, olé, Diegoooo…”.

Foto Destaque: Reprodução / Pentagrama Films

Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 29 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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