Incompetência e oportunismo: todos ganham, menos os clubes

Chega a ser estranho dizer que o futebol brasileiro está fadado ao fracasso. A nação que ostenta cinco títulos mundiais já não é mais o país do futebol. A decadência técnica do esporte mais popular do Brasil passa por muitos fatores. Destaca-se um deles: a combinação eficiente entre a incompetência de nossos dirigentes e o oportunismo dos empresários da bola. 

Nos anos dourados do futebol brasileiro, os craques que aqui jogavam permaneciam em seus clubes por muito tempo, ou até mesmo durante toda a carreira. A idolatria é um processo que requer tempo. Identidade se constrói com anos de dedicação e títulos. Hoje, entretanto, alguns de nossos jogadores saem do país sem ter jogado uma partida sequer pelo profissional de seu clube formador. Os que sobem ao profissional, por sua vez, muita das vezes são fatiados entre diversos empresários e, em vendas futuras, todos saem ganhando, menos os clubes. 

O futebol é um balcão de negócios. Na transição da base para o profissional, empresários utilizam o poder de barganha para colocar clubes contra a parede. O jogador é uma aposta que, caso venha a dar certo, gerará lucro para o agente. Soma-se a isso a precária situação financeira dos clubes. Nesta conjuntura, tornou-se recorrente na assinatura de primeiros contratos entre clube e jogador a venda de parcelas de direitos econômicos para empresários. 

Exemplos não faltam. O Corinthians detinha 30% de Malcom e 5% de Matheus Pereira, que se transferiram para Bordeaux e Juventus, respectivamente. O grupo DIS era dono de 68% dos direitos de Paulo Henrique Ganso. Além disso, duas das principais estrelas do futebol brasileiro também se enquadram nessa situação. No Palmeiras, por exemplo, Gabriel Jesus, a maior revelação alviverde dos últimos tempos, possui 70% de seus direitos econômicos vinculados a empresários: 22,5% para Fábio Caran e 47,5% para Cristiano Simões. No Santos não é diferente: 40% do passe de Gabigol é do grupo de investidores Doyen Sports e outros 20% pertencem ao próprio atleta; ao Santos resta 40%. 

Para piorar, os contratos possuem cláusulas que deixam os clubes de mãos atadas. No caso de Gabriel Jesus, a multa rescisória é de 40 milhões de euros, mas para cinco clubes do futebol europeu – Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Bayern de Munique e Paris Saint Germain – , o preço cai para 24 milhões. Caso alguma proposta seja apresentada por esses clubes, o Palmeiras é obrigado a liberar o atleta. Ainda, caso alguma equipe que não compõe esta lista apresente uma proposta no mesmo valor do estipulado e Gabriel Jesus queira sair, resta ao Palmeiras liberá-lo ou adquirir os 70% pertencentes aos empresários. Neste caso, mais uma vez, a instituição formadora do atleta vira refém de empresários, já que com a devida valorização do atleta, os agentes pedirão uma quantia superior ao valor pago na compra. 

O caso de Gabigol não é diferente. Consta em seu contrato a obrigatoriedade de venda por parte do Santos caso haja uma proposta no valor de 20 milhões de euros pelos 40% que pertencem ao Alvinegro. A Juventus da Itália ofereceu o referido valor e restou ao presidente Modesto Roma Júnior aceitar. A transação só não foi concluída, pois Gabriel quis receber quantia maior por seus 20%. Para poder contar com o garoto, portanto, a Juventus deverá subir a proposta. 

A situação de impotência dos clubes pode ser exemplificada também pelo caso de Lucas Lima: enquanto o Santos possui apenas 10% de seu passe, os 90% restantes estão divididos entre a Doyen Sports (80%) e Edson Khodor (10%). Ademais, o contrato de Lucas Lima prevê que, caso o Santos não venda o jogador até o fim de 2016, será obrigado a desembolsar R$ 7,3 milhões para comprar os 80% que pertencem ao grupo de investidores. Mesmo assim, em caso de venda, 80% do valor terá que ser repassado ao fundo. Parece incoerente, mas é realidade. 

Muito se fala em reforma do futebol brasileiro, mas o erro começa nas categorias de base. Enquanto empresários mandarem nos bastidores do esporte, os clubes ficarão à míngua, sem suas principais estrelas e os jogadores deixarão o país sem identidade alguma com seu torcedor. 

André Siqueira Cardoso
André Siqueira Cardoso
Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

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