Helenio Herrera: um gênio tático do futebol europeu dos anos 60

- Com uma filosofia de jogo inteligente, o estrategista franco-argentino apresentou ao mundo o talento da Grande Inter
estrela da Inter, Helenio Herrera foi um dos maiores treinadores da história do clube

Personagem principal da Grande Inter dos anos 60, ele escreveu um capítulo inesquecível história do clube italiano, consolidando o Catenaccio em toda a Europa. A coluna Calciostoria desta semana apresenta a trajetória de Helenio Herrerra, o eterno mestre tático do futebol mundial.

Infância e os primeiros passos na carreira

De origem humilde, Helenio Herrera Gavilán, o “HH”, como ficou conhecido, nasceu na capital argentina, no bairro de Palermo, em 1910. No entanto, em busca de uma oportunidade de vida melhor, aos oito anos de idade, sua família se mudou para Casablanca, no Marrocos. Seu pai, Francisco, era anarquista e exercia a profissão de carpinteiro, enquanto sua mãe, Maria Gavilán, trabalhava como faxineira. A princípio, apaixonado por futebol desde muito novo, durante a sua infância já praticava o esporte na praia próximo a sua residência, com as crianças da vizinhança e dava os primeiros passos para sua trajetória profissional.

Assim, em 1928, ele conquistou sua primeira oportunidade como jogador, nas categorias de base do Roches Noires e logo depois, defendeu as cores da equipe principal do Racing Club. Posteriormente, em 1932, aos 22 anos, partiu para a França e assinou contrato com o CASG Paris, seu primeiro clube da Europa, permanecendo lá até 1933. Entre 1940-1942, foi destaque do Olympique Charleville e naturalizou-se francês.

Início do novo ciclo no futebol

Por outro lado, durante o cenário da Segunda Guerra Mundial, foi chamado para servir a França. Nesse contexto, atuou em uma fábrica de produtos bélicos e também jogava pelo Red Star, onde conquistou a Copa da França de 1942, seu único título como jogador. Além disso, ainda no período de guerra, teve passagem pelo Stade Français, time formado por militares, e desempenhava um papel de liderança na equipe. Em contrapartida, em 1945, encerrou sua carreira como jogador, mesmo ano em que passou a ser técnico do JS Puteaux. Cheio de expectativas e novas ideias, tempo depois, retornou ao Stade Français, dessa vez como treinador e ajudou o clube a subir de divisão.

Helenio Herrera Foto: Reprodução/ Storie di Calcio

Passagens pelo Málaga, La Coruña, Sevilla e Belenenses

O bom desempenho na pequena equipe francesa, chamou atenção do Atlético de Madrid e ele assinou contrato com o clube em 1948. Contudo, para ganhar experiência, inicialmente treinou o Real Valladolid, também da França. Participou de apenas uma temporada pelo clube e não obteve sucesso, já que terminou o Campeonato apenas na décima segunda colocação. Mesmo assim, em 1949, assumiu o comando do Atlético de Madrid e surpreendeu a todos. Pelos Colchonero, conquistou o terceiro Campeonato Espanhol da história do clube e o Bicampeonato, na temporada de 1950-51, findando sua passagem no ano de 1952.

Após sair do Atlético, ele teve uma passagem curta pelo Málaga uma vez que no ano seguinte, fechou com contrato com o La Coruña, onde conheceu Luis Suárez, jogador que o acompanharia no Barcelona e também na Inter. Já em 1953, tornou-se treinador do Sevilla, permanecendo na equipe por quatro anos. Com os Rojiblancos, alcançou um vice-campeonato, durante a temporada de 1956-57. Entre os anos de 1956 a 1958, sem permissão para comandar times espanhóis, por conta de impasses contratuais, ao deixar o Sevilla, mudou-se para Portugal. Em terras portuguesas, assinou com o Belenenses, equipe que ele treinou durante um ano.

Desempenho no Barcelona e a conquista de títulos

Após o final do vínculo com o Sevilla, Helenio pôde retornar à Espanha e ganhou a oportunidade de comandar o gigante Barcelona. Na equipe catalã, ao lado de nomes como o de Luis Suárez, seu velho conhecido dos tempos do La Coruña, Kubala e Evaristo, conseguiu quebrar uma sequência de dois títulos espanhóis do Real Madrid, na temporada de 1958-1959. Além disso, conquistou uma Copa do Rei (1959), depois de eliminar os Merengues nas semifinais por 4 x 2, no estádio Santiago Bernabéu, e derrotar o Granada por 4 x 1 na final.

Fora da Espanha, ainda ganhou a Copa das Freiras, em 1960, e antes de se despedir do clube, também alcançou o Bicampeonato, no mesmo ano. É importante destacar que durante seu ciclo pelo Barça, o treinador apresentou inovações táticas e a prática de concentrações antes de cada confronto, para manter a disciplina dos seus jogadores. Por fim, a conquista de títulos importantes pelo clube espanhol, chamaram atenção de Angelo Moratti, presidente da Inter de Milão, fazendo com que HH se transferisse para a Itália em 1960.

Helenio comemora título pelo BarcelonaFoto: Arquivo/ Inter

Nascimento da Grande Inter e o sucesso do Catenaccio 

Em 1960, além da Inter, Helenio também comandava a Seleção Espanhola. Porém, sem alcançar bons resultados na Copa do Mundo, em 1962, sendo eliminado ainda na primeira fase, ele deixou o comando da Seleção para se dedicar apenas ao time de Milão. Com isso, influenciado por uma cultura tática desenvolvida na Suíça e implantada na Itália por Nereo Rocco, o técnico conseguiu montar um dos maiores times da década de 1960, a Grande Inter. O famoso Catenaccio, tinha o objetivo de sustentar uma defesa consistente, com a introdução de um líbero, um jogador que atuava atrás dos três zagueiros.

Além disso, auxiliava o volante na saída de bola, função que era executada pelo capitão Armando Picchi na época. Por sua vez, o volante era responsável por bloquear o ataque adversário e ajudar a reconstruir as jogadas do time. Por fim, além dos dois alas, participando das ações no centro no campo e o meia direito, havia o meio-campista esquerdo Luis Suárez. Contratado junto com Helenio, ele era peça fundamental no elenco do técnico e também principal destaque da Inter, com estilo de jogo elegante e inteligente. Apesar de ser bastante defensivo, o sistema tinha efetividade no ataque e forte mobilidade pelo setor esquerdo do campo, onde atuava o lateral  Facchetti.

A Grande InterFoto: Reprodução/ Storie di Calcio

Títulos pela Inter de Milão

Sua primeira conquista pela Inter foi o título do Campeonato Italiano, na temporada 1962-63. Nessa campanha, a equipe teve a melhor defesa da competição, com apenas 20 gols sofridos. Na temporada seguinte, o time venceu a taça da Liga dos Campeões de forma invicta, depois de derrotar o Real Madrid por 3 x 1, em Viena. Meses depois, bateu o Independiente, da Argentina, nas finais e ganhou o Mundial de Clubes. Posteriormente, na temporada 19464-65, os Nerazurri conquistaram novamente a Liga dos Campeões, após derrotar o Benfica por 1 x 0, com o gol marcado pelo brasileiro Jair, no San Siro. No torneio Mundial, encontraram o time argentino de novo, e mais uma vez, trouxeram o título para a Itália. Enfim, Para coroar aquela temporada brilhante, ganharam também o troféu da Serie A TIM.

Ele conquistou o Scudetto pela última vez com a Inter em 1966, após 20 vitórias, 10 empates e apenas quatro derrotas na competição. Por outro lado, na temporada 1966-67, a Grande Inter de Helenio foi finalmente batida pelo Celtic, na final da Liga dos Campeões, em Portugal. A partida começou favorável ao time de Milão, já que tinha aberto o placar ainda no primeiro tempo, com um gol de Sandro Mazzola, de pênalti. Mas, na segunda etapa, o clube escocês partiu para cima e empatou o jogo. Desse modo, em busca do resultado, os italianos tiveram que abrir mão de seu sistema defensivo para atacar o adversário e não teve êxito. Aos 39 minutos, o Celtic fez história, Chalmers marcou o gol do título e quebrou a hegemonia do time de Helenio, que também perdeu a taça do Italiano para a Juventus na mesma temporada.

Helenio e seus títulos pela Grande InterFoto: Reprodução/ Storie di Calcio

Final do ciclo como treinador e morte

Quando o glorioso ciclo na Inter chegou ao fim, Helenio assinou com a Roma, 1968. Pela equipe romana, ganhou uma Copa Itália e uma Copa Anglo-Italiana, sendo esses dois, seus últimos títulos da carreira. Deixou o clube em 1973, após uma sequência de resultados negativos e no mesmo ano, voltou para a Internazionale. Entretanto, sem apresentar grande desempenho, não permaneceu em Milão por muito tempo. Em 1978, comandou o Rimini, através de um convite do presidente Ivanoe Fraizzoli.

Por fim,  em 1979, antes de se aposentar, treinou novamente o Barcelona. Encerrou sua trajetória como treinador em 1981, quando se afastou definitivamente dos gramados, por causa de problemas no coração. Contudo, o esporte continuou presente em sua profissão, uma vez que passou a trabalhar como comentarista de futebol. O “mago”, como era carinhosamente chamado pela imprensa e pelos torcedores da Inter, morreu em 9 de novembro de 1997, na cidade de Veneza, aos 87 anos, vítima de um ataque cardíaco.

Para sempre na história do futebol

Entre o sucesso e as polêmicas, HH foi mais que um grande mestre tático, também teve protagonismo fora das quatro linhas, com declarações que marcaram sua caminhada. Quase um filosófico do mundo da bola, ele apresentava a seus jogadores frases que serviam de motivação e exigia muita disciplina antes de cada jogo. No vestiário, frases como “Classe + Preparação + Inteligência + Atletismo= Scudetto” e “Quem não dá tudo, não dá nada” eram frequentemente repetidas pelo técnico. Da mesma forma, sempre buscou o apoio do 12ª jogador, a sua torcida, e ainda que de maneira indireta,  foi responsável por contribuir com o surgimento dos primeiros movimentos Ultras no final dos anos 60. Deste jeito, em meio a uma jornada de trabalho, dedicação, inteligência e muitas glórias, Helenio Herrera construiu sua história profissional e deixou um legado enorme. Por isso, seu nome estará sempre presente na memória do futebol mundial.

Helenio em preparação antes dos jogosFoto: Reprodução/ Storie di Calcio

Foto destaque: Arquivo/Inter 

Maria Gabriella

Sobre Maria Gabriella

Maria Gabriella Reis já escreveu 64 posts nesse site..

Maria Gabriella, baiana, natural de Riachão do Jacuípe. Graduando em Letras pela UEFS, amante da comunicação e encantada pelo poder transformador social e político que o esporte exerce, especialmente o futebol, que nos proporciona uma mistura de sentimentos e emoções a cada partida.

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