A desigualdade de gênero no futebol e no mundo

Em 2017, a CBF anunciou uma grande atualização em seu regulamento de licenciamento de clubes, com destaque no futebol das mulheres brasileiras. A partir de 2019, os times que não possuírem um elenco feminino vestindo seu uniforme estarão sujeitos a severas penalidades definidas pela federação, entre elas – e talvez a mais prejudicial – a proibição da participação em campeonatos nacionais e internacionais.

A um olhar raso, a medida parece ofensiva e até ditatorial vinda de uma entidade que há tempos já não agrada o público e os clubes. Mas é impossível errar sempre, e a atitude da federação, por mais estranho que seja escrever isso, foi correta.

Manchester United lança time de futebol feminino

O futebol, como qualquer esporte ou mídia de entretenimento, caminha de mãos dadas com a sociedade refletindo fora de campo o que acontece dentro das quatro linhas. A partir do momento que tivermos igualdade nesses aspectos, não haverá necessidade de imposições como as descritas no primeiro parágrafo. É o mesmo mecanismo das cotas em universidades, que não buscam a superioridade dos historicamente prejudicados, mas sim o nivelamento social dos descendentes de opressores e oprimidos.

Para entender melhor, tracemos uma linha do tempo. O primeiro rascunho do que conhecemos hoje como democracia surgiu por volta de 590 a. C., em Atenas, obviamente com algumas diferenças do sistema político atual. Nesse momento, o povo era definido como homens atenienses maiores de 18 anos. Avançando bastante na história, chegamos a 1893, um marco para o mundo, quando a Nova Zelândia inaugurou a garantia ao sufrágio universal, que dava espaço ao voto para mulheres.

Os números assustam. Foram necessários mais de dois séculos para que as mulheres pudessem começar a ter um direito que nós, homens, tínhamos desde sempre.

Levando a bola para o lado futebolístico, em 1864 o mundo via algo revolucionário: a primeira partida de futebol “oficial” do mundo, disputada na Inglaterra. Também lá foi disputada a primeira partida de futebol feminino, 21 anos depois. Não é um intervalo de dois mil anos, mas já podemos pensar o motivo para essa partida não ter acontecido antes, o machismo.

Desde antes de Atenas, em 590 a. C., passando por Londres em 1864 e indo até Rio de Janeiro de 2017, a desvalorização da mulher por ser mulher perdura até hoje. Não são somente nos estádios vazios de entrada franca que vemos como essa cultura ainda vive. São nos salários diferentes para os mesmos cargos, são nas falas de políticos, são desde as cantadas e buzinadas nas ruas até os estupros nos transportes públicos.

O machismo existe e ainda é cultural, e no futebol não é diferente.

 

Se os dirigente do futebol masculino não errarem em duas contratações por ano, isso paga um time de uma comissão técnica de bom nível de futebol feminino. A Fifa vai exigir isso de todos. Eu reconheço a dificuldade dos clubes, mas com 5% dos recursos do futebol masculino é possível montar um time feminino.”

 

Marco Aurélio Cunha, diretor de futebol feminino da CBF.

 

Tiago Souza
Formado em jornalismo pela Universidade São Judas, atuei em diversas áreas de maneira colaborativa. Sou viciado em informação e, por isso, estudo todos os dias sobre futebol e videogames, tendo essas duas vertentes como pilares da minha personalidade. Apesar de levar esses temas muito a sério, tenho a plena noção de que, sem o amor e a descontração, nenhuma delas existiria de forma tão espetacular como são hoje.

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