Futebol, Samba, Pão de Queijo e Bunda

Não há como negar que o mundo do futebol está sob o domínio dos homens, seres barbados que criaram um estilo de vida próprio que envolve, entre outras coisas, frequentar estádios com os amigos, assistir a jogos no bar, organizar debates regados a cerveja em churrascos etc. Costumes tradicionalmente masculinos quase sagrados para seus adeptos e que ficaram enraizados dentro da cultura popular do macho bolero.

É sabido também que tais tradições são reservadas aos membros do clube da bolinha e que há certas restrições quanto à participação das mulheres, as quais não são propriamente participantes do grupo, mas sim objeto de discussão entre os marmanjos. E é aí que a coisa começa a ficar um tanto chata.

O desfile organizado pelo Atlético Mineiro no começo da semana (segunda-feira, dia 15) para apresentar o uniforme novo do time, confeccionado pela empresa canadense Dryworld, foi um grande exemplo de como a relação entre os dois gêneros pode gerar situações desconfortáveis no meio do futebol. Durante a apresentação, desfilaram na passarela jogadores, crianças e modelos homens e mulheres, estas que eram as únicas vestidas com trajes diferenciados: biquíni e apenas a nova camisa do galo no corpo, deixando as suas exuberantes nádegas à mostra.

Inegavelmente a participação das meninas deu um toque sensual à cerimônia, mas também gerou a revolta de uma parte da torcida atleticana e da mulherada em geral, que considerou a exposição das modelos ofensiva e sexista. Acusação que ganhou ainda mais fundamento após ser revelado que, nas etiquetas das novas camisas, onde há informações sobre a lavagem, estava escrita a frase “Give it to your wife””, que em português significa “entregue para a sua esposa”.

Após as críticas, a Dryworld pediu desculpas e, em nota, declarou que a frase é apenas parte de uma campanha publicitária e não deve ser levada como uma ofensa. Já o ex-presidente do Atlético Alexandre Kalil se manifestou dizendo que “num país com tanta roubalheira, implicar com bunda de fora parece sacanagem”. Realmente existem outras questões para nos preocuparmos, porém isso não quer dizer que devemos fechar os olhos para o problema.

É certo que os organizadores do evento quiseram agradar a maioria, composta pelos machos alfa de plantão, ao apelar para a sensualidade das modelos. Porém não houve o cuidado de pensar um pouco nas torcedoras, que não querem ser representadas daquela forma. Afinal elas estão cada vez mais presentes no futebol e mandam muito bem, seja jogando, apitando, comentando, torcendo ou apenas cornetando.

As várias manifestações na internet contra o desfile do Atlético mostraram que tanto os clubes quanto as marcas devem dar mais atenção ao mulherio. E mesmo nós, homens – pois também me incluo nessa matilha –, precisamos rever conceitos antigos para que não ocorram mais gafes.

É claro que gostamos de musas, mas devemos também procurar saber o que elas têm para falar. Liberar as fronteiras do nosso restrito território masculino; reservar uma mesa no bar, que só precisa ser um pouco mais limpa e arrumada que o normal, para elas assistirem aos jogos; incentivá-las a frequentar as arenas; e uma série de outras atitudes, que podem deixar o ambiente do futebol muito mais agradável.

E se os torcedores do Galo, bem como todos os homens fãs de futebol, me permitem, eu sugiro que vocês mesmos lavem as suas camisas, deixando escorrer pelo ralo o machismo e o estereótipo que resume a cultura brasileira a apenas futebol, samba, pão de queijo – no caso dos mineiros – e bunda. Pois somos mais que isso. Assim como nossas mulheres também são muito mais que somente belos glúteos.

Renan Amaral

Sobre Renan Amaral

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Apaixonado por esporte, Renan Amaral percebeu que tinha o futebol na veia quando foi a um estádio pela primeira vez. Anos depois, descobriu no jornalismo a oportunidade de estar envolvido de alguma forma com esportes, principalmente com o futebol, sua velha paixão, que nasceu quando ainda era um moleque que esticava o pescoço para ver melhor os jogos da arquibancada.

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