Não só do masculino se vive o futebol da Seleção Brasileira… e ainda bem que não. Isso porque, em 2019, finalmente, experimentamos uma devida e justa cobertura de Copa do Mundo do futebol feminino. Após o vice na China em 2007, uma semente foi plantada pela valorização do trabalho de milhares de mulheres que clamam por respeito e igualdade em um esporte ainda muito masculinizado.

Assim, 12 anos depois, os grandes centros de mídia do país se dedicaram a enviar correspondentes e repórteres para a França, sede da oitava Copa do Mundo. Nunca antes os brasileiros se viram tão unidos em prol de torcer pelas Meninas do Brasil. Nesta terça-feira (29), a coluna Marcas da Copa rememora o ápice dessa união. Apesar de derrotado para as anfitriãs, o futebol feminino sairia mais fortalecido daquele 2 x 1, em Le Havre, pelas oitavas de final da competição. Algo evidenciado com a contratação da técnica Pia Sundhage, no ciclo pós-Mundial.

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A RENOVAÇÃO PÓS-ERA DE OURO

A bem da verdade, diante de tantas dificuldades de inclusão e inserção do futebol feminino, o Brasil vivenciou sua Era de Ouro na década passada sob a liderança da Rainha Marta. Assim, ao lado da maior jogadora de todos os tempos ainda haviam nomes eternizados como os da goleira Andreia, da volante Formiga, da meia Pretinha e da atacante Cristiane. Juntas, elas conquistaram dois ouros nos Jogos Pan-Americanos, em 2003 e 2007, e duas pratas nas Olimpíadas, em 2004 e 2008. Em Copas, foram vice-campeãs, em 2007, diante da Alemanha.

Naturalmente, a década seguinte foi de renovação e muitas jovens jogadoras somaram-se à Canarinha. Logo, foram os casos de Bárbara, Thaísa, Érika, Debinha, Tamires e outras. Apesar da conquista de três Copas Américas, desde então, e do terceiro ouro nos Jogos Pan-Americanos, a preparação para a França-2019 não agradou. Pois, dos 11 amistosos realizados, a Seleção Brasileira ganhou apenas um e foi para o Mundial com nove derrotas seguidas.

 FRANÇA 2 x 1 BRASIL

No entanto, chegando em Grenoble, estreamos com uma grande vitória por 3 x 0 diante da Jamaica com direito a hat-trick de Cristiane. Apesar da queda contra a forte Austrália, classificamos contra a Itália, e o clima era de positividade para enfrentar as anfitriãs francesas. Sabíamos que seria difícil, com o favoritismo do lado das donas da casa e o retrospecto ruim na preparação, mas as Meninas do Brasil foram valentes. E como foram!

1º TEMPO

Dessa forma, para enfrentar a França, que tinha a base do Lyon então campeã da Liga dos Campeões feminino, somente com alta concentração e força na marcação. E nisso, a Seleção Brasileira cumpriu à risca na etapa inicial. Logo, aos 8′, Marta já havia chutado de fora da área, sem grandes perigos. Cumprindo o regramento, sobrava para as francesas tentarem de longe ou em bolas paradas. Nas raras chances com bola rolando, Gauvin recebeu cruzamento, chocou-se com Bárbara e balançou as redes brasileiras. No entanto, o VAR viu falta na goleira e anulou.

Assim, Brasil seguia melhor e o gol ficava mais real com a boa troca de passes. Aos 42′, Debinha partiu pela esquerda, foi desarmada, mas a bola sobrou para Cristiane, que invadiu livre a área. Ela chutou cruzado, e Bouhaddi defendeu com o pé! Apesar do bom primeiro tempo, um susto no final quase pôs tudo a perder com Majri, a Camisa 10, aproveitando vacilo brasileiro e criando a melhor chance das anfitriãs.

Seleção Brasileira tomou um susto ainda no primeiro tempo com gol anulado da França (Foto: Reprodução / Reuters)
Seleção Brasileira tomou um susto ainda no primeiro tempo com gol anulado da França (Foto: Reprodução / Reuters)

2º TEMPO

Retornando com o mesmo ímpeto, a Seleção Brasileira cometeu outro erro logo no princípio da etapa final. Assim, Diani passou por Tamires pela direita e cruzou rasteiro, Barbara não encontrou a bola, e Gauvin, na pequena área, empurrou para o gol. Uma ducha de água fria? Que nada… Porque o Brasil foi buscar o empate. Em seguida, Cristiane já tinha carimbado o travessão em cabeçada após falta cobrada por Marta. Mas o jogo era difícil e Le Sommer quase marcou para as francesas.

Entretanto, como boas brasileiras que não desistem, na base da insistência, Debinha cruzou, a bola desviou na defesa e Thaisa deixou tudo igual para o Brasil. O lance ainda teve revisão do VAR para confirmar que estávamos no jogo! Foi uma partida bastante equilibrada, a partir de então, ia ganhando ainda mais emoção com as chances perdidas de Debinha e Andressinha. Por fim, aos 40′, Cristiane viu Tamires livre, que carregou e bateu na saída da goleira para virar o placar. No entanto, o VAR anulou por impedimento.

Thaisa deixou tudo igual para a Seleção Brasileira (Foto: Reprodução / Reuters)
Thaisa deixou tudo igual para a Seleção Brasileira (Foto: Reprodução / Reuters)

PRORROGAÇÃO

Era o Brasil vivo, era um Brasil que mesmo com todas as dificuldades se impôs e conseguiu levar o jogo para a prorrogação. O clima era de euforia e de tensão por essa já gigante resistência à forte qualidade francesa. No entanto, logo no primeiro tempo, Cristiane deixou o campo lesionada. Assim, em escanteio, quase que a França deixava nas redes. Mas a resposta brasileira foi rápida e Debinha teve a bola da classificação, de frente para goleira, que saiu batida, mas Mbock Bathy salvou em cima da linha.

No fim, a 1′ da etapa final, Majri cobrou falta pela direita, e Henry apareceu livre na pequena área para tocar no contrapé de Barbara. Era outra vez o nome Henry nos eliminando em Mundiais, dessa vez no feminino. Agora sim, um balde de água fria, sem Cristiane e com o cansaço físico e psicológico de um jogo que exigiu demais da Seleção Brasileira, não tivemos força para evitar a queda.

UMA SELEÇÃO DE BRASILEIRAS

Apesar de não ter estado em uma grande fase naquela ocasião, a Seleção Brasileira mostrou muita entrega e união para fazer frente a grandes equipes. Ainda contando com Formiga, Marta e Cristiane, aliada a boa técnica de Debinha, Tamires, Barbara e Thaisa, as Meninas do Brasil enfrentaram de igual pra igual Austrália, Itália e França. E reafirmaram que as mulheres podem, e devem, jogar bola para quebrar o tabu do futebol ser um espaço de homens.

Que o avanço com o televisionamento e maior visibilidade ao futebol feminino não tenha começado e se encerrado apenas com este Mundial. É necessário mudar a mentalidade da própria CBF, de boleiros à cartolas, passando pela grande mídia para que as conquistas dessa edição sejam perpetuadas nos próximos anos. Somente assim, com investimento na categoria de base e com reforço nos clubes voltaremos, em 2023, ainda mais fortes para que possamos voltar também a uma final de Copa do Mundo.

Apesar da eliminação, Marta se tornou a maior artilheira de Copa dos Mundo (Foto: Reprodução / Reuters)
Apesar da eliminação, Marta se tornou a maior artilheira de Copa dos Mundo (Foto: Reprodução / Reuters)

Foto Destaque: Reprodução / Martin Rose / Getty Images

Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 29 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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