Exclusiva com Guilherme Martorelli: "Pandemia expõe má administração de clubes da Série A"

Advogado do Sindicato dos Atletas, Guilherme Martorelli, explicou que times da Série A do Brasileirão culpam o Covid-19 como vilão da crise financeira, mas estão com 13º terceiro, salário e direitos de imagem referente a 2019, em atraso com jogadores.

O contágio do novo coronavírus vem crescendo exponencialmente no Brasil, o que culmina em prorrogar cada vez mais a quarentena, medida que prevê o distanciamento de pessoas e o isolamento social. Assim, a sociedade tem de se adequar a essa nova realidade de viver, sem aquele churrasco com amigos, festas, shows, teatros, cinemas e sem irem aos ginásios ou estádios acompanharem seu esporte favorito.

Em meio a essas questões, as federações de futebol estudam retomar as atividades, mesmo que de portões fechados. Porém, seria essa uma medida adequada? Conversamos com o Advogado do Sindicato dos Atletas de São Paulo, Guilherme Martorelli, que tirou essas e algumas outras dúvidas.

Exclusiva com Guilherme Martorelli

Na última terça-feira (28) o Brasil chegou há 474 mortos de Covid-19, na ocasião, o número foi o maior já registrado, infelizmente. E nesse mesmo dia, houve uma videoconferência com os presidentes das federações estaduais, junto a CBF sugerindo a volta do futebol em 17 de maio. Qual o posicionamento do sindicato dos atletas?

“O posicionamento do sindicato dos atletas é respaldado com o nosso médico, doutor Renato Anghinah, neurologista que tem acompanhado e dado um norte para o nosso entendimento e posicionamento. E o posicionamento hoje, é de que o futebol não deve voltar no momento. Estamos em uma fase que os casos têm aumentado, o nível de propagação do vírus está muito grande e isso coloca diretamente em risco, todos aqueles que não estiverem em suas casas.

Então, voltando o campeonato os atletas estariam correndo grande risco de contaminação, e não temos como saber o que pode vir acontecer. Tem muitos que não estão tendo sintomas, estão assintomáticos, mas tem uns que mesmo sem nenhum tipo de problema prévio, podem vir a óbito. Então, nosso posicionamento é que não é o momento exato, para a volta do futebol”.

Para que ocorra essa possível retomada, seriam disponibilizados testes semanais para os jogadores, sendo que esses testes são pagos pelos clubes. Sem contar que ainda não existe uma vacina especifica contra o Covid-19. Dessa maneira, não seria colocar a saúde dos atletas em risco?

Acho muito estranho isso porque, claro que os atletas continuam em risco independente de testes ou não. Hoje o que se sabe até o momento é que a melhor situação, para não se colocar em contato com o vírus é fazendo a quarentena, ficando em casa. Sem contar que os atletas teriam de ser testados semanalmente, sendo a vacina custeada pelos times. Os clubes estão tendo de reduzir os salários, para manter-se então como que eles vão arcar com os gastos desses testes? Algumas coisas da logística, não estão bem encaminhadas a meu ver”, comenta Martorelli.

A Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol) defende a continuação dos Estaduais, pós-pandemia. Levando a dois pontos: 1) Os clubes menores, precisam do campeonato para manter sua folha salarial através da televisão, patrocinadores e público. 2) Como os clubes da série A irão adequar-se a um calendário que tenha: Campeonato Paulista, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Sul-Americana e Libertadores?

“Essa situação é bem o que você colocou. Os clubes menores precisam mais do campeonato estadual por conta, da cota de transmissão, patrocinadores e público. Diferente dos clubes da série A, que tem outras competições para participar. Mas eu acho que tudo isso, deverá ser adequado para todos. Nós vemos que os clubes grandes aqui de São Paulo estão em situação mais delicada. Os que ainda não diminuíram salário estão em vias concretizar de diminuição de salário dos atletas.

Então mais dinheiro da televisão, vai ser importante para todo mundo. Eu acho que as federações estaduais, junto com a CBF vão ter que trabalhar em conjunto, para chegar a uma conclusão melhor para todo mundo. Não vai ter como jogar todas essas datas, que teriam antes. Pelo menos alguma coisa terá de ser mudada. Diminuir o número de datas, alguma coisa do tipo.

Estamos acompanhando nas mídias, que estão falando em mudar o formato das competições, como se fosse copa do mundo ou copa das confederações. Mas a ideia seria deixar os clubes focados em uma só competição, viajassem todos para um lugar mais tranquilo e jogassem todas as partidas  em um período de tempo determinado. Acho que pode ser uma saída muito boa e a mais viável no momento. Mas a gente tem vai ter que estudar muita coisa antes de definir um jeito”, contou Martorelli.

Os clubes estão ficando sem renda, o que é natural em meio à crise e isolamento. Como o sindicato vê a redução de salário dos atletas?

“O sindicato entende que é um caso atípico. Ninguém que está no meio do futebol hoje, já viveu alguma coisa parecida e a gente entende que em uma situação dessas, todo mundo perde um pouco. O que me deixa um pouco um ressabiado é a situação dos clubes estarem diminuindo salário, mas com alguns falando em contratações. Até que ponto os clubes tem necessidade de diminuir o salário, e até onde a renda baixou, para eles não conseguirem arcar com os salários dos atletas.

Nós estamos falando em alguns clubes da série A do campeonato brasileiro que não pagaram o décimo terceiro do ano passado, alguns estão atrasados com os direitos de imagem desse ano, então o problema é só a pandemia? Isso deixa a gente como uma ideia diferente de que se o problema é a pandemia ou se a pandemia está sendo usada como uma desculpa, por conta da má gestão financeira dos clubes que vem acontecendo a um bom tempo. Ano passado houve problema de atraso de salário ou de imagem dos principais clubes do Brasil, mesmo faturando milhões e milhões.

A gente tem o Flamengo, que dizem ter chegado a um bilhão de reais em renda ano passado. Então, o sindicato não entende que o problema seja literalmente a pandemia. Acho que a pandemia é uma coisa que ajudou a prejudicar um pouco, mas quando tem clube falando em contratação, complica falar em redução de salário se tem clube falando em investimento. Se você tem dinheiro para investir, você tem dinheiro para arcar com as suas obrigações, que são os salários dos atletas, não só dos atletas mas todos que trabalham dentro do clube”, explicou Guilherme Martorelli.

O ex-zagueiro e atualmente diretor de futebol do Athletico-PR, Paulo André, recentemente ganhou uma ação trabalhista, processando o Corinthians. O que pode ser considerado horas trabalhadas de um atleta? O atleta tem direito a receber horas extras por jogar aos domingos e feriados?

“As horas trabalhadas dos atletas abrangem muita coisa. Todo o tempo em que ele fica em treinamento, em academia, fisioterapia, todo tempo de jogo, tudo isso deve ser considerado, hora trabalhada. E o jogador tem direito a receber hora extra, mas não decorrente por jogar em domingo e feriado, uma coisa não está vinculada diretamente a outra. A hora extra é por trabalhar, ficar a disposição da empresa por mais de 44 horas semanais ou oito diárias.

A situação dos domingos e feriados, é que ele tem o descanso que a gente chama de DSR (Descanso Semanal Remunerado), que depois de trabalhar nos domingos e feriados o trabalhador tem direito a descanso de um dia direto. E isso no futebol não acaba acontecendo por conta dos calendários. E os atletas têm direito normalmente, o atleta tem todos os direitos da SLT. Algumas coisas que a lei Pelé específica, para os atletas que acaba não tendo o direito por conta da SLT, mas na grande maioria, creio que 90% da SLT cabe normalmente ao atleta”, finaliza Martorelli.

Foto destaque: Divulgação/Fábio Gianelli/Sindicato dos Atletas

Marcio Reis
Meu nome é Marcio Henrique Coelho Reis de Paulo, tenho 28 anos, sou de São Caetano do Sul. Graduado em Publicidade e propaganda pela USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) e no momento estou cursando Rádio, TV e Internet na Fundação Cásper Líbero. Sempre fui um apaixonado por futebol, como a maioria dos garotos tive o sonho de ser jogador, mas fiquei no sonho. Porem o esporte me mostrou que era possível trabalhar com futebol. Ainda é um começo, mas batalho para ser comentarista efetivo na área.

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