Escrevendo uma nova história

Muitos poderiam dizer que a conquista portuguesa, ontem, no Stade de France, não foi merecida. Certamente, a maioria concordaria que Portugal não é o melhor time da Eurocopa. E, no entanto, outra vez o futebol mostra que não é preciso ser o melhor para vencer. Venceu quem ninguém o apontava como favorito, e a zebra só não foi completa porque, afinal, o time tinha uma estrela, mas, ainda assim incapaz de conduzir um elenco limitado à glória. Não era esse o discurso?

Pois Portugal tratou de contradizê-lo e foi ganhando confiança ao longo da competição – não propriamente com vitórias, tendo em vista a seqüência de empates e a classificação na bacia das almas em um grupo teoricamente fácil. Na teoria, porque foi deste grupo que saiu outra zebra do torneio – a Islândia. Na partida contra a Hungria, a terceira na fase de grupos, vimos talvez a primeira aparição do ídolo e a primeira boa atuação da seleção lusa, apesar do empate. Os dois gols de Cristiano evitaram a eliminação precoce – tal qual ocorrera na Copa Mundo de 2014 – e a vitória dos islandeses contra a Áustria (2×1) jogou o time para o lado mais “fácil” da chave, na teoria.

Aí veio a Croácia. Nada fácil. Jogo ruim – é bom que se diga. Pela primeira vez na história da Eurocopa, uma partida terminou sem uma finalização sequer no tempo regulamentar. A decepção ficou por conta dos croatas – que vinham jogando um futebol vistoso, deixando, inclusive, a Espanha em segundo lugar no grupo e eram apontados, com justiça, como favoritos. Fechadinho, Pepe, José Fonte e Adrien Silva neutralizaram Modric e Rakitic. Mandzukic nem viu a cor da bola. Quando a peleja parecia se encaminhar para a disputa de pênaltis, Renato Sanches puxou o contra-ataque mortal pela esquerda. Tocou na área para Nani, que cruzou rasteiro para Cristiano concluir. Subasic ainda espalmou, e, na sobra, Quaresma escorou de cabeça e colocou Portugal nas quartas de final.

Marselha, 30 de junho. A postura portuguesa mudou. Longe de dar show, outros comandados do técnico Fernando Santos romperam com o enredo personificado do duelo CR7 x Lewandowski. Os polacos, que já não haviam empolgado nas oitavas contra a Suíça, abriram o placar com o atacante do Bayern logo aos dois minutos, mas permitiram a reação dos portugueses, que desta vez tiveram de correr atrás do placar. Após algumas chances desperdiçadas por Nani e Cristiano, Renato Sanches deixou tudo igual aos 33. No segundo tempo, Portugal continuou melhor, mas não conseguiu virar. Na prorrogação, as equipes diminuíram o ritmo e gastaram o tempo. A definição seria nos pênaltis. Rui Patrício defendeu a cobrança de Jakub Blaszczykowski e coube a Quaresma classificar outra vez os ibéricos. A esta altura já estava claro que Portugal não dependia de apenas uma estrela para fazer história.

Contra País de Gales, os surpreendentes semifinalistas não corresponderam às expectativas e o esperado encontro entre CR7 e Bale acabou não deixando saudade. Portugal voltou a não empolgar, mas fez o suficiente para chegar a final. Melhor para português, que resumiu o jogo em três minutos, com um gol de cabeça e uma conclusão, desviada por Nani para as redes. Restava uma partida para a consagração máxima do maior ídolo do futebol português, mas para isso Cristiano e cia teriam de derrubar o favorito que jogaria em casa.

A mancha vermelha destoava no Stade de France azul e se fez ouvir durante o hino português. Os franceses cantaram com orgulho a marcha para a vitória. O palco da decisão estava montado para a última partida de um torneio que ficara marcado por antagonismos e dualidades. Era a chance dos donos da casa conquistarem o tricampeonato, dezoito anos depois da maior glória do futebol francês naquele mesmo local. Para Portugal, a primeira grande conquista significaria uma mudança de patamar, aquela que o país deixara escapar outras vezes. Na memória: 1966, 2004 e 2006, mas, principalmente, 2004. A 1.500 Km dali, as ruas de Lisboa voltaram a se encher. Os cachecóis com o brasão das armas enfeitavam a Praça do Comércio. No telão, angústia e confiança nos rostos que cruzaram a fronteira. O troféu que dividia os elencos na entrada do gramado aguardava o nome do novo campeão.

Quando a bola rolou, a França jogou melhor. Para piorar, Cristiano se machucou aos oito minutos, mas não abandonou o barco. Insistiu até o limite da lógica. Saiu. Mas não deixou de jogar. Gritou. Incentivou. Conversou com cada um dos companheiros. Ao pé do ouvido de Éder, o mais novo ídolo luso, trocou meia dúzia de palavras – sabe-se lá quais, provavelmente as óbvias. Ninguém poderia prever, contudo, que Portugal não se deixaria abater. Parece que a ausência do maior craque serviria de estímulo para uma entrega maior. E com o peso da obrigação no outro lado, o país reagiu. Era a prova também de que Portugal não é só Cristiano. O gajo não foi espetacular, mas brilhou nos momentos certos, inclusive fora de campo. Mas foi Rui Patrício, Pepe, Adrian, Guerreiro, Rafael Sanches e Éder – um marinheiro de última viagem, que tocaram o barco até a conquista.

Portugal, como nação, merece este título. A despeito do pontapé inicial, a velha máxima de que nem sempre o melhor vence mais uma vez é realidade. E para os portugueses, 2004 nunca mais será lembrado sem a prorrogação de 2016.

Caio Araújo

Sobre Caio Araújo

Caio Araújo já escreveu 17 posts nesse site..

Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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