Entre o campo e o preconceito: proibição do futebol feminino no Brasil

- Conheça a história da proibição do futebol feminino no Brasil que durou mais de 30 anos
Proibição futebol feminino no Brasil

O futebol feminino tem uma história de preconceito, proibição e injustiça, que, aos poucos foi sendo modificada, mas que ainda está longe do cenário ideal. A categoria tem ganhado mais popularidade no Brasil com as conquistas de Marta, disputas olímpicas e Pan americanas, mas também pelo espaço de luta que as jogadoras se impuseram nos últimos tempos. Exigir maior visibilidade e espaço, principalmente em transmissões de televisão, para o futebol feminino permitiu que a categoria conseguisse subir mais um degrau.

Mesmo o futebol feminino não ainda não ter conseguido o mesmo espaço do masculino, muitas atletas tiveram que suar a camisa para conquistar o que vemos hoje. A missão de fugir da discriminação e do preconceito começou muito antes de Marta.

Um pouco da história

A Inglaterra é o berço do futebol e é de lá que veio o primeiro registro de uma partida de futebol feminino. A disputa foi realizada em 1898 em Londres, onde disputaram Inglaterra x Escócia. No caso do Brasil, a primeira partida tardou para acontecer. Antes, haviam jogos com times mistos de homens e mulheres, mas considera-se que em 1921 tivemos a primeira partida de futebol feminino no Brasil.

O futebol feminino muitas vezes foi motivo de piadas em circos, pois era visto como uma performance (Foto: Reprodução/Acervo/Museu do Futebol)

A disputa ocorreu na zona norte de São Paulo entre os bairros Tremembé e Cantareira. O jogo não foi bem visto por muitos, inclusive jornais como ‘A Gazeta’, que classificou a partida como uma situação curiosa e até cômica. O preconceito e limitação do papel da mulher na sociedade naquela época era muito forte e no futebol não foi diferente. Naquele tempo, as mulheres tinham um papel secundário no esporte e ficavam apenas na torcida ou frequentavam os concursos de madrinhas de clubes.

Quando a proibição começou

Correr pelo campo atrás da bola não era visto como uma atividade que podia ser realizada por mulheres. O futebol era considerado impróprio para as damas. Por ser visto como um esporte bruto, o futebol não agradava os mais conservadores do país. Apenas em 1941 aconteceu o primeiro jogo de futebol masculino apitado por uma mulher. Isso só aconteceu, pois, o árbitro escalado para aquela partida havia passado mal e foi substituído por uma mulher.

Contar a história do futebol feminino é contar uma história de resistência. No mesmo ano, em 1941, as mulheres foram proibidas de praticar o esporte no Brasil. A criação de um decreto lei durante o Estado Novo proibia a prática de esportes “incompatíveis com a natureza feminina”. Não apenas o futebol, de campo ou salão, mas outros esportes vistos como ‘masculinos’ como lutas, pólo e halterofilismo. O decreto foi assinado em 14 de abril de 1941 pelo então presidente da república Getúlio Vargas.

Decreto proibiu o futebol feminino
Na ocasião, mulheres não podiam praticar aquilo que não era “próprio para sua natureza” (Foto: Reprodução/Museu do Futebol)

O artigo 54 do decreto-lei, afirmava que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. O período obscuro de vigência deste decreto anulou qualquer chance de atletas mulheres se profissionalizarem no futebol. Não apenas isso, por ser um decreto, a mulher que praticasse era criminalizada.

Pior fase da proibição

Na época era comum o ideal de que a mulher deve cuidar do lar e da família e não perder seu tempo com esportes ‘brutos’. Mas toda essa concepção não impediu que muitas mulheres parassem totalmente com o futebol. Essas mulheres sempre desafiaram a “essência feminina” idealizada por Vargas.

O esporte era praticado na surdina em campos de várzea e em locais em que o Estado não chegava, como as periferias. Mas, em 1965 a coisa ficou pior. O governo militar nomeou oficialmente esportes considerados inadequados para as mulheres na legislação do Brasil. Entre eles estavam o futebol, polo aquático, halterofilismo e beisebol.

Muitas mulheres foram presas nessa época mais severas quando pegas jogando futebol. Até argumentos médicos foram levados em consideração para a proibição do esporte no país. Alegava-se que a mulher que jogasse futebol poderia levar cotoveladas no útero ou nos seios, o que a tornaria infértil e não poderia amamentar. Em outros países o cenário não foi diferente. Nações como a própria Inglaterra, berço do esporte, e Alemanha proibiram o esporte para as mulheres na década de 70. A partir desse ano, foi criada a Federação Internacional do Futebol Feminino.

Fim da proibição

No Brasil a situação ficou maleável apenas em 1979 com o fim do decreto-lei, justamente pela abertura política ao fim da ditadura militar. Apesar de não ser mais proibido, o futebol feminino não se desenvolveu imediatamente no país e isso trouxe consequências até hoje para a categoria.

Em 1979 firmou-se o fim da proibição no Brasil
Mesmo com o fim da proibição, o futebol feminino ainda se encontrava desamparado, sem estímulo de clubes ou federações (Foto: Reprodução/Sidney Corrallo/Estadão)

Um dos motivos pelo “atraso” do futebol feminino foi a demora para a regulamentação da modalidade, que só foi acontecer em 1983. Apesar da conquista, o regulamento apresentava muitas falhas como proibição de cobrança de ingressos e proibição da troca de camisetas após a partida com o time adversário.

Os reflexos do preconceito com o futebol feminino também foram sentidos nas edições das Copas do Mundo. Enquanto a primeira Copa do Mundo de futebol masculino foi realizada em 1930, o evento para o futebol feminino foi se concretizar apenas 60 anos depois, em 1991.

Primeira Copa do Mundo de futebol feminino
A seleção brasileira foi eliminada da Copa do Mundo na primeira fase da competição (Foto: Reprodução/Acervo Futebol Feminino)

Entretanto, é inevitável que os mais de 30 anos de proibição tenham deixado marcas e reflexos negativos até hoje. A falta de incentivo, salários menores, piores condições de trabalho, falta de patrocinadores são apenas alguns dos problemas que a categoria ainda enfrenta. Mas, depois de muita pressão, o cenário vem mudando, ainda que lentamente. Apenas em 2019, pela primeira vez, quatro canais nacionais puderam ter o direito de transmissão ao vivo da Copa. Na TV a cabo, todos os jogos foram transmitidos por alguns canais.

Foto destaque: Reprodução/Arquivo público/Museu do futebol

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Nicoli Suman
Nicoli Suman
Nasci no interior de São Paulo, mas atualmente moro em Londrina - PR. Estou cursando o 3° ano de jornalismo na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Dentro do curso tenho muita afinidade com radiojornalismo e telejornalismo. Faço estágio na Rádio UEL e na TV UEL concomitante. Na faculdade, confesso que não tenho nada de experiência em relação ao jornalismo esportivo, mas me identifico muito com a área e estou tentando me inteirar mais sobre o meio que pretendo seguir futuramente. Tenho mais facilidade com esportes mais alternativos como skate (pois prático há uns anos), surf, vôlei de praia, escalada etc. Gosto de futebol, mas não tenho muita experiência na área. Mesmo assim, estou aberta a conhecer e acompanhar mais o esporte para produzir material.

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