Eliminatórias Sul-Americanas são as mais acessíveis do mundo

Todo mundo já ouviu da boca de jogadores e treinadores que as eliminatórias sul-americanas são dificílimas, alguns ousam dizer que são as mais difíceis – verdadeira batalha continental repleta de sangue, suor e lágrima, como é narrado o drama bélico ao qual o futebol costuma ser associado, sobretudo na América Latina. Esta analogia, embora desproporcional, é rica em metáforas, dualidades, símbolos, sagas, tabus e poesia. Agrada o escritor, os personagens e o leitor. Portanto, é um recurso válido. Afinal, o futebol é terreno fértil a exageros. Eles são bem-vindos. Mas, será mesmo que a afirmação é verdadeira?

Poucos diriam que o torneio é fácil, mas, sem dúvida, a seletiva sul-americana é a mais acessível do planeta, ao contrário do que difundem jogadores e comissão técnica da seleção brasileira ao justificar derrotas ou enaltecer o próprio mérito durante a competição. Na relação candidato-vaga, as eliminatórias mais difíceis do mundo são as africanas e asiáticas. Na África, o filtro para selecionar cinco dos 53 países, isto é, 9,4% do todo, é brutal.

Primeiro, 29 nações disputam confrontos diretos de ida e volta no formato mata-mata. Os treze classificados se juntam aos 27 mais bem ranqueados para uma nova rodada eliminatória, outra vez em duelos de ida e volta. Os vinte sobreviventes são divididos em cinco grupos de quatro, dos quais somente o campeão garante participação na Copa do Mundo. Para efeito de digressão, a região não tinha sequer uma posição reservada até 1970. Após a aparição do Egito, em 1934, os africanos só voltariam a ter um representante na nona edição do mundial, quando a Tunísia conquistou a única vaga destinada a Confederação Africana de Futebol (CAF).

Trata-se de uma seletiva perversa e desigual no comparativo com outras zonas de classificação. Na Europa, a mesma quantidade de países (53) tem direito a 13 vagas (24%). Na América do Sul, quatro dos 10 (40%) estão assegurados, e se o quinto colocado avançar na repescagem, o que sempre acontece desde que a “meia-vaga” foi instituída, em 2002 – nas quatro vezes com o Uruguai -, isso significa que metade dos concorrentes vai para a Copa, privilégio exclusivo dos latinos. É bom lembrar que Suriname, Guiana e Guiana Francesa, embora situados na América do Sul, associaram-se a Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF), o que pode ser melhor para eles no que diz respeito a enfrentar adversários menos conceituados, mas a opção certamente favorece os afiliados a CONMEBOL.

A CONCACAF distribui três vagas e meia para 35 concorrentes (10%), sendo notável que EUA e México entram como favoritos a ficar com duas delas. A última vez que um deles ficou de fora da Copa foi em 1990, quando o México foi desclassificado da fase final das eliminatórias em função de irregularidades cometidas no pré-olímpico de 1988, e com isso a Costa Rica herdou a segunda vaga a que a confederação então indicava. Na bola, o El Tri deixou de ir somente em três ocasiões: 1934, 1974 e 1982.

O caminho dos asiáticos também não é brincadeira. A Confederação Asiática de Futebol (AFC: Asian Football Confederation) dispõe de 4,5 vagas: quatro diretas e uma para repescagem. São 52 seleções divididas em um sistema semelhante ao africano. Na primeira fase, 12 confrontos de play-off definem as seis seleções que se juntarão as outras 34 na segunda fase. Essas 40 equipes são separadas em oito grupos de cinco, onde jogarão entre si dentro e fora de casa. O primeiro colocado de cada grupo, bem como os quatro melhores segundo no geral, avançam para a terceira etapa. Forma-se, então, dois grupos de seis, onde os times se enfrentam outra vez em turno e returno. O campeão e o vice de cada chave estão classificados para a Copa. Os dois terceiros se enfrentam em mata-mata e o vencedor concorre à última vaga contra o campeão da Oceania.

Desde 2006, a Austrália disputa as eliminatórias pela AFC. Em 2010, a FIFA alterou os critérios de repescagem e o indicado pela Confederação de Futebol da Oceania (OFC), cuja seletiva não garante vaga direta ao mundial, passou a enfrentar um país asiático ou da América do Norte ou Central e não mais um sul-americano. Essas alterações aumentaram de certa forma a chance de um país do continente ir para o torneio. Foi por isso que, em 2010, Austrália e Nova Zelândia puderam participar pela primeira vez da mesma edição na Alemanha. Aquela foi a segunda aparição dos neozelandeses, que na primeira deram o azar de cair no mesmo grupo do Brasil em 1982.

Portanto, o método de distribuição das vagas para a Copa do Mundo favorece a América do Sul e, em menor distorção, a Europa, em detrimento às demais nações, sobretudo as africanas e asiáticas. Outra discrepância é que como o país-sede está garantido, a vaga por ele não disputada permanece no próprio continente. Das 20 edições até hoje disputadas, apenas cinco ocorreram fora da Europa e América do Sul, ou seja, este eixo que já é contemplado com o maior número de vagas – 13 e 4,5, respectivamente – ganhou uma mais de bônus 15 vezes.

Relação candidato/vaga por continente:  

Europa (UEFA): 53/13 (24%)

América do Sul (CONMEBOL): 10/4.5 (45%)

América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF): 35/3.5 (10%)

África (CAF): 53/5 (9,4%)

Ásia (AFC): 52/4,5 (8,6%)

Oceania (OFC): 11/0,5 (4,5%)

Mundial não é exclusivo dos melhores  

A Copa do Mundo é o maior torneio entre seleções de futebol do planeta; isso não se discute. Há quem pense que ela deveria reunir as melhores nações do esporte, mas se assim fosse bastaria organizar uma competição entre Europa e América do Sul. Desta forma, as duas maiores forças continentais não teriam de pré-selecionar os seus representantes. Ninguém ficaria inconformado em assistir a repescagem entre Portugal e Suécia, como em 2013. Cristiano e Ibra não teriam de duelar entre si para ver quem ficaria de fora; ambos viriam ao Brasil e o público não perderia a chance de presenciar dois dos maiores jogadores da atualidade em campo. O futebol ganharia em termos qualitativos, sem dúvida.

No entanto, um torneio com representantes de todo o mundo foi concebido justamente para possibilitar a participação inédita de países com incipiente tradição no esporte. Se os fãs lamentaram a ausência de Ibra, isso não exime o insucesso dele e da sua seleção por não ter alcançado a vaga em uma competição continental, como vimos, já bastante privilegiada. Nestas mesmas eliminatórias, destacou-se um país que se reergueu da guerra para finalmente proporcionar um pouco de alegria ao seu povo. Ninguém achou que a Bósnia iria longe na Copa, e realmente não foi – eliminada na fase de grupos com duas derrotas e uma vitória. Porém, o simples fato de o país ter podido participar, tal qual ocorrera com Angola, Togo, Costa do Marfim e Gana, estreantes em 2006, dá sentido a um evento que se pretende global. Não houve tristeza em Estocolmo que superasse a euforia de Sarajevo.

As grandes potências do futebol são e serão sempre lembradas pelos títulos alcançados. No entanto, o passado não deve carimbar o passaporte para glórias futuras. Para isso, cada um – grande ou pequeno – precisa fazer por merecer no presente. Muita gente considera inimaginável uma Copa sem o Brasil. Não é. Se a seleção brasileira jogar mal e perder muito será eliminada. Normal. Não há conquista ontem que justifique incompetência atual. O Brasil ainda deveria agradecer o sistema injusto do qual se beneficia.

Tradição.

Ídolos jamais serão esquecidos. Eles devem servir de inspiração para gerações posteriores que serão confrontadas como eles foram. Embora a tradição seja um valor caro ao futebol – através dela conquista-se respeito e status de grandeza no meio – ela precisa ser comprovada no campo. Algozes e vítimas se revezam em ciclos infinitos de êxito e frustração. Esta é a beleza do jogo. Ele premia a competência momentânea. Possibilita a quem nunca havia sido grande, que possa se tornar. Além disso, a história não é estática; pode-se construí-la a partir de agora. O Uruguai não vence desde 1950. A Argentina há 23 anos. A Inglaterra tem um título e mais nada. Deixaram de ser grandes? Não o era a Espanha há seis anos? Não o é a Holanda, três vezes vice-campeã?

Este é o jogo que excluiu a Suécia ontem. Amanhã, pode ser o Brasil, a Itália, a Alemanha, a Inglaterra, a Argentina, qualquer um com a arrogância de acreditar que o que os seus conterrâneos fizeram é o bastante para triunfos futuros. As estrelas fazem o torcedor relembrar bons momentos. No campo, deve-se jogar com a mesma honra à camisa de quando a primeira delas ainda estava longe de ser bordada.

Caio Araújo

Sobre Caio Araújo

Caio Araújo já escreveu 17 posts nesse site..

Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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