Didira

Nesta terça-feira (9), a coluna Parabéns ao Craque traz uma homenagem ao maior jogador da história da Agremiação Sportiva Arapiraquense. Isso mesmo, estamos falando do meia Didira, atualmente no Santa Cruz, que completa 32 anos de vida. Logo, com uma história de superação e conquistas, o atleta é um exemplo de humildade e luta por espaço no, muitas vezes, ingrato futebol brasileiro.

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A INFÂNCIA POBRE EM ARAPIRACA

Assim, Cícero dos Santos Bezerra nasceu em um 9 de junho como este, em 1988, na cidade de Arapiraca, interior de Alagoas. Desde pequeno, tinha talento para o esporte, mas esbarrava em uma realidade comum a muitos aspirantes: a falta de dinheiro. Além disso, com 18 anos, o futuro ainda era incerto para este sonhador do futebol. Dessa forma, a bola foi uma amiga fiel que ajudava a esquecer a vida difícil que sua família levava. Nas peladas, encontrava a alegria de criança ao fazer gols nos campos batidos de terra.

Passei muita fome. Fome demais. Saía para jogar e não tinha nada. Deixava meu pai, minha mãe e meus irmãos com fome. E ficava pensando: “um dia, eu sei que Deus vai me ajudar e vou ser jogador profissional”. Cheguei a pegar um treinador que disse que eu não poderia ser jogador, pelo tamanho, que não tinha porte físico e qualidade para jogar. Mas não desisti.” – afirmou Didira em entrevista ao Globoesporte.com.

Logo, a realidade era ingrata e Didira sabia disso. Tanto que participava de peladas no interior para conseguir algum pouco dinheiro para matar a fome da família. No ASA, enfrentou muitas dificuldades para se deslocar para os treinos e compartilhou da fome com os colegas:

No ASA, saía pra jogar num ônibus mais velho, que era só mais pra treino. E a gente viajava para Matriz do Camaragibe, Murici… Viajava oito horas da manhã pra jogar uma hora da tarde. Passei muita fome, fome demais. Os que tinham condições, levavam comida, lanche. Quem não tinha, eu e mais três, comia só banana, melancia e trelelê de caju. E olhe lá quando tinha. Mas quando a gente entrava em campo, corria dava nossa vida ali para buscar o sonho de cada um. Os quatro que não tinham dinheiro foram os que chegaram. Os outros, que tinham condições, viraram médico, bombeiro…” – contou.

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O SONHO DE JOGAR FUTEBOL

Dessa forma, foi através de uma ligação telefônica que a história de Didira tomou outro rumo. Isso porque, quando estava indo participar de uma corriqueira pelada, recebeu o telefonema do técnico Leivinha, dos juniores do ASA, em 2006. Assim, o jogador havia sido convidado para atuar por um dos maiores clubes do estado, era a oportunidade que esperava na carreira.

No entanto, a realidade bateu a porta. Se não tinha dinheiro para comprar alimento para casa, quanto mais para chuteiras? Pegando uma chuteira emprestada e uma carona com um desconhecido torcedor do ASA, Didira se virava como podia. Logo, do teste para assinatura do contrato bastava pegar a caneta e assim começou a caminhada de um dos mais identificados jogadores nordestinos que o futebol conheceu.

A IDOLATRIA NO ASA

Inicialmente, apesar do ânimo e vontade de jogar, Didira foi pouco utilizado na lateral direita. Dessa forma, em 2007, foi emprestado ao Universal, modesto clube de Alagoas. No ano seguinte, já estava de volta ao ASA para, enfim, ter espaço e tempo para sedimentar seu futebol. Assim, no retorno, deixou de lado a lateral e se tornou meia-atacante, e daqueles fazedor de gols. Logo, titular, conquistou o Campeonato Alagoano e participou da campanha que culminou com o acesso à Série B, em 2009, sendo vice-campeão.

Pela Segunda Divisão, o objetivo natural de evitar o rebaixamento foi alcançado com cinco rodadas de antecedência. Enquanto que em 2011, Didira foi um dos grandes nomes do ASA em mais uma campanha de permanência na Série B do Campeonato Brasileiro. Além disso, faturou mais um Alagoano, o último até então dos sete títulos estaduais do clube de Arapiraca. No mesmo ano, teve uma breve passagem pelo Atlético-MG, para disputa da Série A.

Já em 2013, apesar do rebaixamento nacional, Didira contribuiu para a melhor campanha do ASA na história da Copa do Nordeste. Isso porque, foi vice-campeão, sendo derrotado, na final, para o Campinense, da Paraíba. Além disso, ainda faria boa caminhada na Copa do Brasil, chegando a terceira fase, eliminando o Ceará e caindo diante do Flamengo. Enquanto que em 2014, foi o pior ano do meia no clube, com péssimas campanhas à nível estadual e nacional. Por fim, no Fantasma, foram aos menos 40 gols em mais de 200 jogos.

NO CSA, OS ANOS DE CONQUISTAS NO FUTEBOL

Após um 2015 de altos e baixos no ASA, Didira trocou o clube pelo rival CSA para escrever uma nova história de identificação. Isso porque, foram quatro anos dedicados ao Azulão do Mutange. Assim, a cada temporada, os números melhoravam. Inicialmente, o craque pegou o clube na Série D do Brasileirão, em 2016. Já no primeiro ano, alcançou o acesso à Série C, sendo vice-campeão brasileiro, perdendo a final para o Volta Redonda. Assim, em 2017, Didira conquistaria a sua maior glória no futebol: a Série C do Campeonato Brasileiro.

Pois, após a frustrante perda do título alagoano para o CRB, a equipe já liderada pelo jogador fez grande campanha desde o início da Terceira Divisão e levantou a taça diante do Fortaleza, de Antônio Carlos Zago. E não parou, pois o ciclo foi completo com um novo acesso, dessa vez, a Série A, em 2018, sendo vice-campeão, no ano em que fez mais gols na carreira: 13. Dessa forma, Didira e o CSA entraram para a história com os primeiros a alcançarem a elite com três acessos consecutivos. Por fim, no Azulão foram 25 gols em 146 partidas.

A CARREIRA CONTINUA FORA DE ALAGOAS

No entanto, as alegrias ficaram no ano anterior. Pois, em 2019, enfrentando as dificuldades naturais para um clube sem grande poderio financeiro, o CSA retornou para a Série B. Com ele, Didira perdeu valor de mercado após a façanha dos anos passados. Dessa forma, decidiu recomeçar a carreira fora de Alagoas. A aposta da vez foi no Santa Cruz, com quem já tinha um namoro antigo desde 2014.

Agora, no Tricolor do Arruda, Didira ainda não teve uma sequência que faça-o ser fundamental para o elenco, apesar do status de uma das principais contratações do ano. No entanto, sua história é permeada de dificuldades e superação e, hoje, está novamente diante de um obstáculo e com dedicação mostrará sua qualidade e voltará ao destaque que sempre lhe acompanhou.

Se o futebol fosse uma pessoa, eu agradeceria todos os dias. Futebol é a única coisa que eu sei fazer. Futebol é a coisa mais importante. Todos os dias chego no treino, olho pra o campo e digo: “Senhor, muito obrigado por ter colocado a bola na minha vida.

Parabéns, Didira!

Foto destaque: Reprodução / Ailton Cruz – Gazeta de Alagoas

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Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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