Dez anos de Neymar: gênio com a bola, infeliz sem ela

Camisa 10 do PSG e da seleção brasileira, Neymar completa dez anos de carreira nesta quinta-feira (7), em meio a polêmicas sobre sua personalidade e seu real potencial enquanto jogador. Volta e meia, as atitudes do astro brasileiro são utilizadas para contestar a tese de que ele um dia poderá ser eleito o melhor jogador do mundo. Seus defensores, em contrapartida, defendem que o fator extracampo podem ser deixados de lado se estiver desequilibrando dentro das quatro linhas. Mas, afinal, qual é o balanço da carreira de Neymar até aqui?

Vestindo a camisa do Santos, Neymar conquistou quase todos os títulos que disputou, com exceção do Brasileirão. Nas conquistas, inclusive, sempre foi protagonista. Brilhou ao lado de Robinho, Ganso e companhia em campeonatos paulistas, na Copa do Brasil e marcou gol decisivo na final da Libertadores, contra o Peñarol, no Pacaembu. No ano seguinte, contra o Internacional, também pelo torneio continental, o então camisa 11 marcou um gol antológico na Vila Belmiro, palco que lhe rendeu o prêmio Puskás no ano anterior. A narração de Pedro Ernesto Denardin dá o tom da admiração a Neymar àquela altura.

Do céu ao inferno

Este, inclusive, é um ponto interessante. Enquanto esteve no Brasil, Neymar era admirado por torcedores rivais. Não é pretensão dizer que arquirrivais paravam para assistir o Peixe de 2010, que enfileirou goleadas e bom futebol. Até mesmo o episódio envolvendo Renê Simões, que afirmou que o Brasil estava ‘criando um monstro', passou batido diante das atuações do santista.

Nos últimos anos, porém, a imagem de Neymar tem sido constantemente arranhada. O ápice foi a Copa da Rússia, onde seus topetes e seus tombos reforçaram a enxurrada de críticas atreladas ao seu desempenho abaixo do esperado. E, apesar de Neymar ter estado fora das principais eliminações de sua carreira – contra a Alemanha, na Copa de 2014, Real Madrid e Manchester United, em duas edições de Liga dos Campeões -, muitos torcedores esperam ansiosamente para ver o tamanho da bofetada que a crônica esportiva dará na maior esperança de títulos do futebol brasileiro.

Com a bola nos pés, Neymar é um craque, algo indiscutível. Em dez anos de carreira, já deu inúmeras provas sobre isso. Basta perder alguns segundos no Youtube, procurando compilados, para constatar o óbvio. Seu arsenal de dribles o torna imprevisível. Por saber finalizar muito bem com as duas pernas, atuar em alto nível pela ponta ou pelo meio, por saber cobrar faltas, ser letal no mano a mano, torna-se um atleta completo. Diferenciado. O problema é que o fator extracampo tem sido seu maior adversário. Na próxima Copa do Mundo, o camisa 10 já terá ultrapassado a barreira dos 30 anos e pode ter sua última oportunidade de conquistar o título usado como parâmetros para separar os que habitam o Panteão do futebol e os reles mortais.

Qual seria o legado de Neymar?

Quando o legado de um jogador é colocado em pauta, o nome de Ronaldinho Gaúcho sempre me vem à cabeça. Vestindo as cores do Barcelona, clube que Neymar deixou para sair da sombra de Messi, o R10 foi eleito duas vezes o melhor do mundo, chocou o mundo com sua magia, venceu a Copa de 2002 e parou no auge, deixando no ar a sensação de que, se tivesse optado pela vida longa dentro das quatro linhas, poderia ser o maior futebolista de todos os tempos. Se Neymar, tão famoso quanto Ronaldinho, decidisse pendurar as chuteiras hoje para curtir sua vida ao lado dos ‘parças' nos camarotes ou jogando videogame, dificilmente seria colocado no mesmo patamar do ‘Bruxo'.

O cumprimento de Neymar e Ronaldinho Gaúcho antes do início de uma das maiores partidas da história do Brasileirão (Reprodução)

É exatamente por isso que Neymar, que não é mais um menino, como seu pai insiste, precisa se reinventar. Não necessariamente precisa abandonar de vez a jogatina online e a presença nas festas mais badaladas e cobiçadas do planeta. Entretanto, seria prudente que demonstrasse mais comprometimento e uma postura mais madura diante dos fracassos. O PSG foi eliminado pelo United, em pleno Parque dos Príncipes, e Neymar usou o Instagram para xingar a arbitragem. Sua frustração diante da retumbante eliminação seria melhor absorvida se optasse por uma mensagem de apoio aos companheiros, por exemplo.

 Se no Santos o ‘Menino do Topete Dourado' era símbolo para uma legião de crianças que se espelhavam no menino da Vila para imitar seu moicano, na Europa e na seleção brasileira é visto como arrogante. E este é a principal pedra em seu sapato: o gênio que tinha tudo para ser idolatrado para sempre, hoje precisará causar uma reviravolta sem precedentes para voltar a unânime.

André Siqueira Cardoso
Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

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