Da queda do muro à Euro de 1992: o reinício da seleção Alemã unificada

De 1945 a 1989, a Alemanha foi um país dividido por questões políticas, ainda carregando as marcas deixadas pela Segunda Guerra Mundial. Contudo, com a demolição do muro que separava as pessoas entre o mundo capitalista e o comunista, o futebol sofreu consequências.

Da queda do muro à Eurocopa de 1992, a Quebrando Muros dessa semana conta a história e as marcas de uma nação que se dividiu ao meio.

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O MURO DE BERLIM

De antemão, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo não só estava diferente pelos horrores que viu, mas por tensões políticas herdadas. Sendo assim, a Guerra Fria – como o próprio nome traduz, uma Guerra sem ataques diretos – entre os Estados Unidos e a URSS permaneceu durante muito tempo.

Um dos maiores símbolos desse conflito indireto foi o Muro de Berlim, construído a partir de 13 de agosto de 1961, devido a uma grande saída de pessoas da parcela oriental para a ocidental da cidade.

Construção do Muro de Berlim
Homens na construção do Muro de Berlim, 1961. Foto: Horst Siegmann/Landesarchiv Berlin

O muro de 155 km de extensão não serviu apenas para dividir um povo, mas para construir imagens sobre o regime comunista e capitalista. Assim, no oeste, a cidade de Berlim se desenvolveu graças ao investimento de vários países. Sobretudo, os Estados Unidos, que investiu no lugar através do Plano Marshall. Enquanto isso, no lado leste, a população ficou cada vez mais descontente com os rumos econômicos e sociais que o capitalismo soviético tomava.

FUTEBOL ORIENTAL PRÉ-QUEDA

A força do oeste sobre o leste não foi apenas no campo social e na economia, mas também dentro dos campos de futebol. A razão é o investimento pesado do regime soviético nos atletas olímpicos, tendo frutos expressivos. Porém, os atletas de futebol foram deixados de lado.

Caren Metschuck (direita), ganhadora de quatro medalhas em Jogos Olímpicos pela RDA.
Caren Metschuck (direita), ganhadora de quatro medalhas em Jogos Olímpicos pela RDA. Foto: Reprodução/Bundesarchiv

Assim, a República Democrática Alemã (RDA, monitorado pela URSS) disputou cinco Olimpíadas entre 1968 e 1988, indo ao pódio 384 vezes. Seu maior número de pódios foi na edição de Moscou, em 1980, com 126 medalhas. Ainda, vale destacar que o EUA boicotou esta edição do evento, e facilitou as coisas para o time olímpico. Por outro lado, enquanto os atletas olímpicos recebiam medalhas, os futebolistas orientais eram esquecidos.

“Os clubes do lado oriental eram, entre aspas, amadores, não havia profissionalismo. Os jogadores na maior parte das vezes tinham um emprego, mas na realidade eram praticamente funcionários do estado”, relatou Gerd Wenzel, jornalista especialista em futebol Alemão para a LANCE!

Além de serem amadores, havia mais um obstáculo para os atletas do leste. Isto porque a polícia secreta da Alemanha Oriental, mais conhecida como Stase, tinha seu próprio time. Enfim, por ser um clube de autoridades, ninguém ousava tentar ganhar, por medo de retaliações.

A QUEDA

Com o passar dos anos, o declínio no regime das repúblicas soviéticas ficou cada vez mais claro, e chegou ao seu ápice na década de 80. Assim, no dia 9 de novembro de 1989, o povo foi liberado para fazer a travessia de um lado para o outro do muro, derrubando-o no processo.

O duelo entre as seleções da Alemanha Oriental e Ocidental aconteceu apenas 6 dias após a queda do muro, pelas Eliminatórias da Copa de 1990. Além disso, apenas em 3 de outubro de 1990, o país seria oficialmente unificado.

Manifestante destrói parte de uma parede do Muro de Berlim Oriental, perto do Portão de Brandemburgo. Foto: Reprodução/David Brauchli/Reuters
Homem destrói parte de uma parede do Muro de Berlim Oriental.
Foto: Reprodução/David Brauchli/Reuters

A queda do Muro de Berlim marcou o fim da Guerra Fria, uma vez que a URSS estava acabada, e o muro que separava os dois regimes econômicos também. Entretanto, a demolição dessas paredes não trouxe apenas a união do país, como, obviamente, a da Seleção que os representava dentro dos gramados.

A UNIFICAÇÃO ALEMÃ

De antemão, vale destacar que em 1990, um ano após a derrubada do muro, a Alemanha Ocidental conquistou a Copa do Mundo, sendo o tri-mundial dos alemães. Assim, a vitória foi sobre a Argentina, por 1 a 0, graças ao gol de Andreas Brehme, aos 40’ do segundo tempo.

Nas rodadas antes da final do torneio, a Alemanha havia eliminado três países, sendo a Inglaterra um deles. Apesar da vitória ter sido dois meses antes da união oficial do país, foi uma festa para todos os lados.

A vitoriosa Seleção da Alemanha Ocidental. Foto: Reprodução/Associated Press
A vitoriosa Seleção da Alemanha Ocidental. Foto: Reprodução/Associated Press

Apesar da conquista no Mundial, apenas na Euro de 1992 a Alemanha realmente representou os dois lados. Já unidos, a seleção foi até a final do Campeonato Europeu, duelando contra a Dinamarca em 26 de junho de 1992. Para a surpresa de muitos, mesmo com os alemães tendo conquistado o tri-mundial apenas dois anos antes, os dinamarqueses venceram o Torneio. Sendo derrotado por 2 a 0, os convocados daquele time ainda refletiam questões políticas de antes da derrubada do muro.

ESCASSEZ ORIENTAL NA SELEÇÃO

Após a união alemã, quem era oriental sofreu com os resultados da falta de investimento da RDA no futebol. Sem apoio antes da queda do muro, muitos atletas que pertenciam ao lado oriental foram para o ocidental.

Com falta de atletas de qualidade no oriente, apenas três dos treze jogadores que atuaram na final contra a Dinamarca nasceram no leste. No mais recente título da seleção, a Copa de 2014, apenas um dos 23 convocados, Toni Kroos, nasceu na porção oriental do país.

Enfim, mesmo após quase 31 anos da queda do Muro de Berlim, certas marcas não ficam para trás.

Foto Destaque: Reprodução/Ullstein Bild/Granger

Giulia Cavalheiro
Meu nome é Giulia Cavalheiro, tenho 18 anos e sou estudante de Jornalismo - 3° semestre da UFSM. No meio de uma confusão para decidir qual carreira seguiria na vida, juntei a minha paixão por escrever e pelo futebol para escolher qual caminho seguiria. De São Paulo, deixei tudo para trás e me mudei para o Rio Grande do Sul afim de seguir meu sonho no jornalismo.

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