Alemanha protagoniza vexame e sente na pele o peso e a dor do orgulho ferido

Perder é cruel. Poucas coisas são tão dolorosas e difíceis de engolir quanto a derrota do nosso time ou seleção de coração. Mas, se o peso de tal fardo já é tão estafante e duro de ser carregado, a dor se torna ainda mais impiedosa quando fere aquilo que tanto tentamos proteger: o orgulho. E se no dia 8 de julho de 2014, quando um visitante entrou em nossa casa para, respeitosamente, nos humilhar e destroçar o nosso orgulho tão colossal, hoje, foi a vez dele sentir na pele.

Quiseram os deuses do futebol que Brasil e Alemanha, donos de camisas tão pesadas e rivais tão intensos na bola, decidissem o seu destino na Copa do Mundo da Rússia no mesmo dia. Sem que, por um dia sequer, durante quatro longos anos, o “eterno 7 x 1” tenha sido esquecido tanto por nós quanto por eles, as perspectivas dos resultados do torneio até então conduziam para uma precoce revanche. Ou vingança, como preferir, embora ela nunca seja plena.

O cenário se construía para o reencontro ocorrer nas oitavas de final. E, desta vez, nós estaríamos prontos. Vencer os alemães em março, mesmo que sem o peso ou a falta de misericórdia do massacre ao qual fomos submetidos, foi o suficiente para lavarmos um pequeno pedaço de nossas almas. O importante é que o aviso estava dado: voltamos! Contudo, os deuses tinham outros planos, daqueles tão incompreensíveis que nos fazem questionar, sem que possamos entender, o que aconteceu.

Gabriel Jesus foi o autor do gol da vitória brasileira contra a Alemanha em março (Reprodução/Fabrizio Bensch/Reuters)
Gabriel Jesus foi o autor do gol da vitória brasileira contra a Alemanha em março (Reprodução/Fabrizio Bensch/Reuters)

Atuais campeões do mundo e líderes do ranking da Fifa, os alemães, tão frios e sistemáticos, assumiram sem pudor a alcunha de serem “os melhores”. Por planejamento ou soberba, levaram uma equipe quase toda reserva para a Copa das Confederações do ano passado. Mas tamanha a superioridade de seu jogo em relação aos adversários, não teve páreo. Mais um título era conquistado enquanto nas Eliminatórias a seleção europeia vencia todas as dez partidas que disputou. Como pará-los?

Embora os amistosos pré-Copa tenham sido fracos para a Alemanha – uma difícil vitória por 2 x 1 em cima da Arábia Saudita e uma sofrível derrota por 2 x 0 diante da Áustria – como poderíamos duvidar dela? Em um grupo relativamente fácil, sem que alguma ameaça maior pudesse ser representada por México, Coreia do Sul ou Suécia, a classificação parecia garantida. Não sei se os enfrentaríamos em alguma altura do campeonato, mas certamente os veríamos chegar longe. E, veja só, mesmo o certo pode estar errado.

Na estreia, a primeira surpresa. Mesmo com toda pressão exercida pelos alemães, o México, com o gol solitário de Lozano, sagrou-se vencedor. O que começou mal, por muito pouco, já na sequência não terminou ainda pior. Na segunda rodada, a bola foi piedosa. Com um jogador a menos em campo, a grande campeã conquistou uma vitória, por que não dizer, milagrosa contra a Suécia no último minuto de jogo. Ali, um novo herói nacional nascia: Toni Kroos. Aliás, grandioso meio-campista, como você conseguiu acertar, dali, aquele chute no lance derradeiro da partida? Se eu tivesse tanto sangue frio, mal teria sentimentos.

Campeão mundial em 2014, o técnico Joachim Löw tem seu futuro ainda incerto no comando da Alemanha (Reprodução/Michael Dauder/Reuters)
Campeão mundial em 2014, o técnico Joachim Löw tem seu futuro ainda incerto no comando da Alemanha (Reprodução/Michael Dauder/Reuters)

Mesmo que o grupo tenha se configurado tão equilibrado no final das contas, a Alemanha parecia ter se reerguido. E quem melhor do que a frágil Coreia do Sul para que a classificação fosse garantida. O duelo parecia tão fácil que os próprios europeus trataram de complicá-lo o máximo que puderam. A sensação era de que a lebre deixava a tartaruga correr. E a história teria o mesmo final.

Engolida pela obrigação e por uma pressão que se sobressaía ao seu talento, a Alemanha sucumbiu. Se tudo o que era preciso era um gol alemão, a bola puniu sua ineficácia com dois tentos ao rival. O “Davi dos olhos puxados” não tremeu diante do “Golias europeu”. As Águias (Die Adler) perderam as suas asas e caíram em último lugar no grupo.

Desolado, Thomas Müller chora após a derrota para a Coreia, que culminou com o fim da participação alemã na Copa 2018 (Reprodução/Getty Images)
Desolado, Thomas Müller chora após a derrota para a Coreia, que culminou com o fim da participação alemã na Copa 2018 (Reprodução/Getty Images)

Enquanto isso, o nosso dever inicial está cumprido. Gigante que somos, nos reerguemos. Feitas as pazes com a bola e com os deuses que as conduzem, nos classificamos. E que venha o México de Juan Carlos Osório. Se a tão sonhada (ou temida) revanche não se concretizou, pelo menos eles sentiram o que nós sentimos em 2014: a dor de ter o orgulho ferido. E para quem ainda não se satisfez com plenitude, quem sabe, no Catar, daqui a quatro anos (eles passam rápido, pode contar com isso) Brasil e Alemanha se reencontrem.

Bruno Piai

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