“Contos ocasionais: O empate vitorioso” 

O apito do juiz soou com força, assinalando uma falta perigosa na entrada da área. A torcida minguada praguejou fervorosamente. O relógio apontava 10 minutos do segundo tempo. Já o placar anotava um debochado 2 a 0 contra os donos da casa. Para piorar chovia, e o gramado irregular já havia dado lugar a lama em alguns pontos do campo. Sujo e inconformado, o zagueiro se aproximou do árbitro aos berros. O cartão amarelo foi aplicado sem demora. Tudo corria mal, e a derrota acenava convicta para os homens que formavam a barreira. E lá estava o camisa 10 adversário, que já havia feito um gol e dado passe para outro. Era um daqueles meias enjoados, que preferem trabalhar a bola sem depender muito da velocidade.  Ajeitou a redonda com muita marra e carinho. Fez pose de matador e teve liberação para cobrar. Ameaçou uma primeira batida, mas preferiu reclamar da barreira. Neste ponto os nervos já estavam a flor da pele. Três passos e uma batida. Um lance lindo de ver. A pelota cheia de efeito dançando até explodir no travessão. O goleiro, aliviado, enfim não levara o terceiro gol.

Então, o início de um contra-ataque: a sobra ficou no pé do lateral esquerdo, que sem demora ajeitou para o volante. Mesmo pressionado, o camisa 8 girou com graça e serviu o meia-direita. Malandro que só, esse segurou e encenou. Na passada da zaga ele lançou para o ponta-de-lança. Um daqueles passes rasteiros completamente açucarados. E antes que os poucos torcedores pudessem comemorar o jogo já estava 2 a 1. Com a esperança renovada, o zagueiro amarelado procurou se acalmar. O lateral esquerdo se concentrou em marcar o 10 perigoso, que adorava tabelar pelo seu lado do campo. O volante acertou-se com o meia num bate-papo rápido. E o camisa 9 só conseguia pensar em empatar o jogo fazendo mais um gol. A chuva deu trégua e se transformou em garoa, e o jogo seguia…

Aos 40 e poucos minutos surgiu um escanteio, depois de uma falha grotesca creditada a bola molhada. Na verdade o zagueiro visitante cabeceou de olhos fechados, rezando para não marcar contra. Não poderia ceder o empate depois de tanta luta. Ainda mais encharcado até os ossos. Para desespero geral da torcida, lá estava vindo o goleiro para a área. Seria o empate; ou levar o terceiro. Aliás, o arqueiro já havia falhado terrivelmente no primeiro tempo. Redenção ou morte. E assim veio a bola cruzada com força. Um atacante tirando onda de marcador afastou para fora da área…

E antes da primeira pingada no chão, o zagueiro amarelado soltou um pombo sem asa do meio da rua. A rede estufada espalhou água para todos os lados. A comemoração foi uma mistura de alívio, gritos de guerra e lama. Uma farra digna de vitória. Mas para aqueles homens, o empate bastou.

Para eles, jogar futebol era o bastante.

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Douglas Molgado
Douglas Molgado
Douglas Molgado Affonso. 1989. FIAM-FAAM. Twitter: @douglasmolgado)

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