Conmebol tem alguma razão

Anunciada na última terça-feira (27) pela Confederação Sul-America de Futebol (Conmebol), a provável mudança no regulamento das Copas Libertadores e Sul-Americana traz mais pontos positivos que negativos, mas também há ressalvas.

A ideia de estender o tempo das competições possibilitaria aos clubes maior tempo de descanso entre as partidas, o que em tese não os forçaria a ter de focar de antemão no torneio continental em detrimento ao nacional. Resta saber como os clubes conciliarão a enxurrada de torneios em um calendário já apertado. Os estaduais serão mais curtos? Já tem Copa do Brasil em março; Brasileirão, em maio. E, em 2017, haverá eliminatórias ao longo do ano inteiro. O desgaste físico continuará inevitável – quiçá, com otimismo, melhor administrado.

Desde que a Libertadores adquiriu status de maior torneio da América do Sul, não o era até meados da década de 70, o imaginário coletivo pressiona os clubes, sobretudo aqueles que ainda não a venceram, a tê-la como principal meta da temporada. A valorização no Brasil se deu a partir da conquista do Cruzeiro, o segundo time brasileiro a fazê-lo, em 1976. O primeiro – o Santos, bicampeão com todos os méritos (1962-63) – venceu numa época em que o título credenciava o campeão a entrar na edição seguinte nas semifinais, já que só os campeões nacionais se classificavam para a disputa, ou seja, o número de participantes, até 1966, foi sempre igual ou inferior a dez. Além disso, derrotar os rivais estaduais rendia as melhores manchetes nos jornais, e os times definitivamente estavam atrás disso. Hoje, o Peixe tem todo o direito de gritar com orgulho: tricampeão! – porém, nos anos 60, gabava-se muito mais pelo hepta paulista alcançado naquela década.

Não é novidade que desde então os cartolas reclamam da baixa premiação paga ao campeão continental, embora a Conmebol tenha aumentado em 40% o valor na última edição. O Atlético Nacional, por exemplo, faturou R$29 milhões pela conquista em 2016. A recompensa é bem superior ao que o Santos recebeu pelo título do Paulistão nesta temporada (R$4 milhões), ao contrário do que disse o superintendente de futebol do Corinthians, Andrés Sanchez, no final de 2015, quando ameaçou tirar o alvinegro da competição caso a confederação não “abrisse a carteira”. Ainda assim, a pressão dos clubes brasileiros seria uma das causas que motivaram os dirigentes a adotarem tal postura.

Aumentar o número de participantes (de 38 para 42) é democrático. Caso o Conselho da entidade aprove as modificações neste domingo e, por conseguinte, o Brasil herde uma vaga, e na hipótese de que a CBF a conceda ao quinto colocado do campeonato brasileiro, o contemplado poderia ser uma equipe de menor expressão. Foi o que aconteceu com o Coritiba, em 2003, e Paraná, em 2006, quando a quinta melhor campanha assegurava a classificação. E é o que teria acontecido em outras duas ocasiões na era de pontos corridos: Atlético Paranaense (2010) e Vitória (2013). O exemplo do rubro-negro baiano é especial porque aquela teria sido um feito inédito na sua história. Nem mesmo quando do vice-campeonato, em 1993, o clube se classificou, uma vez que cada país só podia indicar duas vagas e, no caso do Brasil, a terceira ficou com o São Paulo por ter vencido a Libertadores no ano anterior.

Outra medida levantada versa sobre a obrigatoriedade dos participantes investirem no futebol feminino, sob risco de exclusão caso não o procedam. Há quem veja excesso na decisão. “Inclusão por imposição”, argumentam. No entanto, seria ingênuo acreditar que os clubes tomariam a iniciativa de livre e espontânea vontade, tendo em vista que nunca tomaram, salvo algumas exceções. Neste sentido, uma regra – que é impositiva por definição – pode corrigir distorções. O futebol, como todos sabem, foi, e é, um meio de predominância masculina. Se o objetivo é torná-lo mais paritário, e deveria ser – o mundo avança nesta direção – não há porquê o futebol ficar para trás. Argumento semelhante pode ser utilizado para justificar a exigência de maior investimento nas categorias juvenis.

Elogios à parte, há duas novidades bastante questionáveis. A primeira é a exigência quanto às condições dos estádios – segundo a entidade, elas deverão atender padrões mínimos de conforto, tanto ao torcedor quanto à impressa. O conceito é subjetivo e, na visão de muitos, não prioritário, tendo em vista que é característico da Libertadores primar por fatores extracampo. Jogar em estádio acanhado, com cadeiras quebradas e lanches sem gosto, mas com os Andes ao fundo, é mágico. Sem meia-volta, o lobby pró-conforto ou, no vocabulário marqueteiro, a “experiência única” é segregacionista: favorece a classe que pode pagar para entrar.

A segunda é ainda mais polêmica: jogo único na final, em mando neutro. Não há cabimento uma decisão entre Flamengo e Boca Júniors em La Paz. Primeiro porque esta final merece dois jogos. Privar Maracanã e Bombonera de celebrarem a oportunidade – única e eterna – é mais cruel que exigir do torcedor emoção contida. Segundo porque o torcedor boliviano tem o direito de assistir ao seu time jogar em casa. Neste ano, por exemplo, o Independiente Del Valle chegou pela primeira vez à final da Libertadores. Feito histórico. O Equador parou para torcer. Rafael Correa, torcedor do Emelec, pediu apoio ao rival nas redes sociais. Aí você vai dizer que o time não pode jogar em casa a partida mais importante da sua história? Não, não faz o menor sentido.

O futebol não é estático. Ele deve se renovar e aprimorar. Discussões podem levar a mudanças eficazes. Troca de informação e experiência é produtivo. Ninguém duvida que o modelo europeu é inspirador sob diversos aspectos. Porém, uma coisa é adequá-lo a outras realidades, preservando hábitos culturais; outra coisa é a cópia perfeita: importar tudo porque lá fora é sempre melhor. Não é. Em termos qualitativos não é mesmo. Se fosse, não existiria mercado global. Cada país se isolaria na sua pretensiosa autossuficiência. Os franceses repatriariam os seus talentos e deixariam os sul-americanos e africanos no hemisfério sul. Os ingleses não dependeriam de estrangeiros para abrilhantar as ligas locais.

A realidade é que não há uma só forma de jogar, torcer e se organizar, e esta é uma das virtudes deste esporte. A final da Copa dos Campeões é incrível; o ambiente e a organização, sublimes. Mas é um jogo só. Se torcesse para o Manchester United, iria querer vê-lo disputá-la no Old Trafford para talvez desfrutar da maior honraria que um time pode alcançar: erguer o troféu diante da sua torcida, no seu estádio, onde tudo começou ou se converteu. Barcelona e Bayern nunca tiveram este prazer. O único título do Borussia, em 1997, foi no estádio do arquirrival. O Milan venceu duas vezes em Atenas (1994 e 2007) e nenhuma em Milão. O Real foi campeão mais vezes em Heysel (1958 e 1966) que no Bernabéu. Moral da história: também há coisas com as quais os europeus deveriam aprender conosco.

Caio Araújo

Sobre Caio Araújo

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Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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Bem, posso dizer que, como tantos outros jovens brasileiros, comecei a gostar de futebol bem cedo. No início, o meu barato era mais jogar do que assistir, por isso escolhi um time para torcer já mais velho. Depois estes papeis se inverteram, e, infelizmente, hoje jogo muito pouco. De uns tempos para cá - nos últimos cinco anos - passei a investir mais esforço para fazer da brincadeira de menino um ofício. Fiz alguns cursos na área, acompanhei as notícias com maior frequência e escrevi um pouco sobre esportes em geral, e não só futebol.

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