Como o basquete mudou a tática no futebol

Aos que leram obras sobre a história da tática no futebol, como na bíblia “Inverting the Pyramid” e principalmente aos que acompanharam e acompanham a trajetória de nomes revolucionários deste esporte, aqui uma explanação da influência que o basquete exerce em seus conceitos táticos.

O professor com licença UEFA PRO, e analista espanhol, Eric Tenllado discorreu sobre isto, em 2012; tendo visto o artigo em espanhol, procurei traduzir os principais pontos de sua análise sobre como Guardiola, Cruyff, Sacchi e Bielsa trouxeram conceitos do basquete para o futebol moderno.

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Eric é um desses loucos por futebol que desde os 14 anos estuda o esporte e sua organização, sua estratégia, e atualmente é professor na escola “Aula Europeia” e treinador das categorias de base do Espanyol, rival de cidade e história, do Barcelona.

Transferência entre Basquete e Futebol para compensar a defesa por zona

Nos fatores e condições necessárias para um correto aprendizado encontramos diversos fatores que se relacionam com o sujeito. Estes são atitudinais, históricos e estruturais.
Com referência ao componente histórico, toma especial relevância o conceito de transferência de ideias. Segundo Bayer, entendemos por transferência “os resultados de um processo de aprendizagem que tem influencia sobre outro processo de aprendizagem”. Neste sentido, tal como cita Riera, “o homem e seu comportamento não podem se entender com independência de sua história”.

Assim podemos afirmar que a “aprendizagem” é um processo de construção constante, resultante da combinação e transferência de outros aprendizados.
Dito que transferência é muito comum nos elementos técnicos, como por exemplo a técnica de lançamento no Waterpolo ser muito parecida com a do Handebol ou do Pitcher no Beisebol. De tal forma que com o aprendizado correto da técnica de passe, o lançamento de um dos esportes permitiria uma transferência positiva na construção do aprender da técnica de outra modalidade desportiva.

Porém este feito não é exclusivo dos elementos técnicos, já que também existe nos conceitos tácticos. Os esportes de equipe, como o futebol e o basquete, pertencem segundo a Caracterização Funcional Táctica, aos denominados esportes táticos, já que contam com os dois elementos indispensáveis para pertencer a esta categoria:
– a luta pela concessão de um objetivo físico quantificável (o gol ou acertar a cesta).
– a modificação da sequência motriz (ataque e defesa).

Ainda assim, contam com a harmonização perceptiva ou colaboração, que é o elemento diferencial entre a tática individual e coletiva.

Ditas modalidades esportivas, por sua estrutura e funcionalidade, estão caracterizadas por uma grande imprevisibilidade, onde não acomoda linearidade; é importante dizer, que estamos falando de uma prática onde o que acontece, em grande medida, tem um caráter espontâneo. Por tanto, inclui uma mais que reveladora dose de complexidade, onde parece imprescindível executar as ações corretas, no momento exato, utilizando a força necessária, imprimindo a velocidade ideal, antecipando as ações dos adversários e tornando compreensível a ação de seus companheiros.

Estes são alguns dos elementos que qualquer jogador tem de ter em conta antes de tomar uma decisão. Decidir qual a melhor opção é o objeto chave da tática e isso sozinho pode ser obtido ao se conhecer os princípios básicos da tática coletiva e realizando uma correta interpretação do jogo.

Os princípios básicos da tática coletiva, assim como o desenvolvimento dos conceitos táticos e interpretação do jogo é igual ou muito parecido para todos os esportes de colaboração e oposição, entendendo que em um dos casos podem chegar a ser mais complexos por sua regulação, quantidade de participantes e outros elementos presentes.

Por tanto, dadas as características similares entre os denominados esportes táticos, como vimos, entendemos que os resultados de um processo de aprendizagem de um esporte tem influencia sobre o processo de aprendizagem de outro esporte com as mesmas características que o anterior.

A continuação pretende desenvolver quatro conceitos táticos básicos para contrabalancear (confundir/liberar) uma defesa em zona desde as modalidades esportivas do futebol ao basquete.

1. Em primeiro lugar, no basquete encontramos o conceito de Dividir a Zona.

Este conceito faz referencia ao portador da bola, normalmente o base (armador). O dono da bola tem que atacar a fronteira/espaço entre duas zonas para gerar uma compressão (confusão/difusão) dos defensores, geralmente feita pelo centro, e a consequente criação de espaços. Este conceito é geralmente associado com o de Penetrar e Infiltrar.

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Neste gráfico podemos observar como o atacante nº 1 ataca ou penetra na fronteira (espaço) entre os dois defensores mais avançados, provocando sua “compressão”, liberando os alas nº2 e nº 3 para infiltrarem nos espaços criados.

No futebol é importantíssimo o momento de tomada de decisão, o famoso “saber quando conduzir e quando passar a bola”.

A condução nos permite atrair rivais, gerando espaço para homens livres por trás da linha de pressão rival.

No gráfico seguinte observamos como o zagueiro/central nº3 realiza uma condução para gerar a compressão dos pontas rivais e tirar os defensores de sua posição. (número 2 e 5).

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Esta situação mostra como podemos encontrar espaços em varias zonas do campo, atacando o espaço dos volantes/médios-centros, meias que jogam por dentro (interiores) ou então os zagueiros e laterais.

Como vemos, ambos conceitos tem a mesma finalidade, seja uma penetração no basquete ou uma condução da bola e infiltração no futebol, nós pretendemos gerar a compressão dos defensores/atrair rivais para liberarmos espaço ao passar a bola a um companheiro livre, ou que adentra em uma zona livre.

2. Em segundo lugar, no basquete encontramos o conceito de Sobrecarga.

Este faz referencia a ação de situar dois atacantes na área de um defensor contrario para gerar uma superioridade numérica.
Pelas regras do basquete, se aconselha manter esta superioridade no máximo entre cinco e seis segundos, já que passado isto, a defesa se reorganiza.
Este conceito se relaciona com o “corta-luz”.

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Neste gráfico observamos como o pivô nº5 observa e corre para a zona onde se encontra o pivô nº4 para gerar uma superioridade numérica de 2×1 nesta zona defensiva.

Posteriormente o ala nº 2 poderia ir ao espaço que deixou anteriormente o pivô nº5 que junto ao nº 4 agora gera a superioridade numérica.

No futebol este conceito do basquete pode ser associado com o de gerar superioridades numéricas/posicionais em setores do campo. Este conceito pretende encontrar um jogador com suficiente espaço e tempo, que não tem tido uma vantagem numérica atoa, como claro sinal de que está com a vantagem ao receber, onde sua superioridade permite maiores opções de passe para ele e sua equipe (como vimos anteriormente, por trás de uma linha de pressão rival).

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No gráfico podemos observar como o meia armador, playmaker, nº 10 (verde), se situa em uma linha de passe por trás dos quatro centrocampistas da equipe rival, gerando uma superioridade posicional que favorece a sua equipe. Ademais o interior nº 8 se dispõe a atacar o espaço que existe nas costas dos médios centros rivais, gerando outra linha de passe as costas do centro de campo rival, o famoso jogo entre linhas.

Em suma, observamos como em ambas as modalidades esportivas o que se pretende com estes conceitos é gerar uma superioridade numérica e posicional na zona ativa da bola, para que se possa conseguir essa vantagem ao portador da bola e sua equipe.

3. Em terceiro lugar, encontramos um conceito que no basquete se costuma chamar Ataque aos Espaços.

Tanto no basquete como no futebol, para desenvolver o dito conceito, é fundamental situar-se em amplitude e profundidade para gerar estes espaços interiores e posteriormente poder realizar um movimento/corrida ou desmarcação nestes, por trás de uma das linhas de pressão rivais (jogo entre-linhas). Este conceito está muito relacionado com o chamado “terceiro homem” no futebol e se realiza mediante a passes pelo meio/interior do bloqueio defensivo rival.

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O gráfico nos mostra como os pivôs nº4 e nº5 “cortam/movimentam-se”(um por trás e outro pela frente do adversário respectivamente) atacando o espaço livre que o sistema defensivo zonal do rival expõe.

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Já neste gráfico ao lado podemos observar como a equipe em posse da bola (verde) se sitúa em máxima amplitude e profundidade para gerar espaços no bloqueio defensivo rival. Neste caso, notamos como se pode usar o conceito de terceiro homem mediante a desmarcação do apoio do ponta (nº7) e do meia armador (nº10), ou ao transitar a bola pelo corredor central, com a ruptura e avanço do lateral (nº2) ou do apoio do ponta (nº7).
4. Finalmente, podemos encontrar o que o basquete chama de Impedir Movimentos Defensivos dentro da Zona.
Este é, sem duvida, o conceito diferencial entre ambas as modalidades esportivas, já que para desenvolve-lo fazem uso do bloqueio ofensivo, elemento que no futebol geralmente se usa nas jogadas de bola parada e não no desenvolver da partida. Se trata de situar-se na trajetória do rival com o objetivo de liberar um companheiro de sua área/zona de posição (posicionamento).

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Neste gráfico observamos o seguinte:

– O pivô nº 5 sobe para bloquear a um dos defensores, para que o base/armador possa avançar ao lado direito do ataque (nº1).
– O defensor da zona esquerda da defesa salta para defender o base, liberando de marcação o ala desta zona. (nº2)
– O pivô nº 4 bloqueia o seu defensor para liberar de marcação o ala nº 3 que ingressou nesta área para gerar superioridade numérica.

No futebol podemos encontrar muitas jogadas de bola parada cujo objetivo é liberar de marcação o jogador encarregado de finalizar a jogada “dissecada na prancheta do técnico”.

CONCLUSÃO:

Os denominados esportes táticos onde interatuamos com nossos companheiros, os adversarios e um objeto, neste caso a bola ; em um “médio cerebral”, onde reina a a incerteza, tudo se resume em saber jogar, em saber entender e interpretar o jogo com suas situações e interações.

Marcelo Faviere

Sobre Marcelo Faviere

Marcelo Faviere já escreveu 6 posts nesse site..

Estudante de jornalismo e formado pela Universidade do Futebol no curso de "Introdução aos Aspectos Táticos do Futebol", Marcelo Faviere sempre gostou de jogos de estratégia, no qual montava desde equipes de futebol a civilizações. Sempre debatia com os professores da escolinha de futebol que jogara na infância, o por quê da equipe ter perdido ou ganho uma partida, montava equipes com as figurinhas dos jogadores que trocava na escola. Como sempre gostou de falar, herdou uma vontade de traduzir seus pensamentos sobre o esporte, na escrita, em uma tentativa de exaltar o quão complexo e difícil é falar de futebol, que é muito mais do que assistir a um gol.

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Estudante de jornalismo e formado pela Universidade do Futebol no curso de "Introdução aos Aspectos Táticos do Futebol", Marcelo Faviere sempre gostou de jogos de estratégia, no qual montava desde equipes de futebol a civilizações. Sempre debatia com os professores da escolinha de futebol que jogara na infância, o por quê da equipe ter perdido ou ganho uma partida, montava equipes com as figurinhas dos jogadores que trocava na escola. Como sempre gostou de falar, herdou uma vontade de traduzir seus pensamentos sobre o esporte, na escrita, em uma tentativa de exaltar o quão complexo e difícil é falar de futebol, que é muito mais do que assistir a um gol.

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