Um dos jogadores mais completos e queridos da Seleção Brasileira chama-se Marcos Evangelista de Morais ou, simplesmente, Cafu. Se traduzirmos o apelido, associamo-nos a um gavião, porém o craque ganhou a alcunha por ser comparado ao ex-jogador Cafuringa, que atuou pelos times de Fluminense e Atlético Mineiro nas décadas de 60 e 70. Assim, Cafu dedicou mais de 20 anos ao futebol, chegando a ser considerado por muitos como um dos maiores laterais-direitos de todos os tempos.

No ano de 2004, foi apontado em uma lista feita por Pelé como um dos 125 maiores jogadores vivos do mundo. Em suma, Cafu é recordista de jogos pela Seleção, estando presente em 149 partidas. Nesse ínterim, participou de quatro Copas do Mundo seguidas, chegando a ser campeão em duas oportunidades, nos anos de 1994 e 2002. A coluna Nostalgia Brasileira desta semana homenageia este grande craque, que é considerado o maior lateral-direito do Brasil, além de ser uma unanimidade no futebol.

O INÍCIO

Nascido em junho de 1970, Cafu cresceu em uma família humilde na comunidade do Jardim Irene, região da zona sul de São Paulo. Apesar das más condições no local que morava, onde dividia um cômodo com seus pais e cinco irmãos, o garoto tinha um sorriso de orelha a orelha que cativava todos, e sempre foi grato por tudo.

Além das dificuldades financeiras, Cafu enfrentou problemas ainda mais graves, como o fato de presenciar amigos queridos se perderam nas drogas e no alcoolismo. A essa altura, o rapaz ainda não imaginava a carreira vitoriosa que o esperava no futuro. Decerto, sua experiência negativa na juventude é um dos fatores que o fizeram criar a Fundação Cafu, anos mais tarde.

“Fui nascido e criado no meio disso, não tinha como fugir. Era a nossa realidade e o nosso dia a dia. E hoje é a realidade de outras pessoas que não tiveram as oportunidades que eu tive. Isso é normal, não tem como fugir. Então, eu tinha dois caminhos: o caminho do bem e o caminho do mal. E eu segui o caminho do bem. As pessoas do caminho do mal ainda me ajudavam, porque sabiam que meu caminho era o certo”, declarou Cafu em entrevista ao Uol Esportes.

CARREIRA

Apesar da infância humilde, Cafu nunca desistiu de seu grande sonho em se tornar um jogador de futebol. Posteriormente, seu pai, Célio de Morais, teve um papel fundamental para que persistisse em seus objetivos. Desse modo, com seu potencial talento para a bola, não demorou para estrear. Ao todo em sua carreira, foram nove peneiras, até finalmente conseguir uma chance. Seus primeiros clubes foram o Nacional-SP e o Itaquaquecetuba Atlético Clube.

O papel do meu pai era nunca deixar o filho desistir ou desanimar. Ele foi o meu maior incentivo. Toda vez que eu chegava em casa de cabeça baixa, era ele quem falava: ‘filho, levanta a cabeça, são barreiras que estão colocando na sua vida e que só você pode superar. A gente pode te ajudar, te dar todo um suporte, mas quem joga é você!'.”

Apesar de estar trilhando seu sonho, o retorno financeiro ainda não era o suficiente para se manter. Desse modo, resolveu mesclar sua carreira de jogador com bicos de serralheiro. Sensato, o rapaz sabia dos riscos do mercado da bola e, caso não se tornasse atleta profissional, ao menos saberia fazer outras coisas para se sustentar. Todavia, não era o que o destino lhe planejava, pois sua carreira estava prestes a decolar.

 

Cafu

Reprodução/Uol Esportes

O INÍCIO II

Após tanto esforço, enfim, Cafu começava a desenhar sua história no futebol. Depois de passar por frustrantes oito peneiras, o craque chamou a atenção de nada menos que São Paulo FC e, assim, passou a atuar pela equipe no ano de 1989. Apesar de se consagrar como lateral-direito, no Tricolor, iniciou como atacante. De qualquer modo, sua trajetória gloriosa começava naquele momento.

No Morumbi, sua maior influência foi o, na época, comandante Telê Santana. Um adorava dar treinos e o outro adorava treinar. Porém, os ensinamentos mais preciosos do mestre foram dados fora de campo. Além dos sermões necessários durante a concentração, um dos seus lemas eram “repetir, repetir e repetir.”

Ele chegava ao CT e falava: ‘não pensa que quando vocês faltam aos treinos ou quando não treinam ou não corre, que vocês estão me enganando, porque estão enganando vocês mesmos. O verdadeiro malandro é aquele que age direito, treina, concentra, trabalha. Vocês vão ver que, no futuro, serão recompensados’”, declarou Cafu ao Uol Esportes.

Nesse ínterim, vestindo a camisa 11 tricolor, fez uma partida irretocável na primeira final do Campeonato Paulista de 1992 contra o Palmeiras. No clássico, terminado em 4 x 2, foi o homem do jogo ao marcar um gol e dar três assistências. Posteriormente, a equipe que estava disputando simultaneamente a Libertadores da América, uma semana depois, sagrou-se campeã mundial, derrotando o estelar Barcelona. Ao todo, foram dois Paulistas, um Brasileirão, duas Libertadores, dois Mundiais, duas Recopas Sul-Americanas e uma Supercopa Libertadores. Com suas atuações, o resultado veio ao ser eleito pelo jornal uruguaio El País, como o melhor jogador da América em 1994.

Cafu

Reprodução/O curioso do futebol

RUMO A EUROPA

No ano de 1995, partiu rumo à Europa, alçando novos vôos. De início, atuou pelo espanhol Real Zaragoza, onde ganhou a Eurocopa. Em maio do mesmo ano, a equipe acabou vendida para a Parmalat. Desse modo, passou a atuar pelo Juventude, clube que a empresa patrocinava. Sobretudo, o intuito da multi-internacional era outro, pois planejava levá-lo de volta ao Brasil, dessa vez, para atuar pelo Palmeiras.

Entretanto, para se livrar de uma provável multa de US$ 3,6 milhões exigida pelo São Paulo, a empresa o deixou por um mês em resguardo no time de Caxias do Sul, pelo qual realizou apenas dois jogos. A cláusula são-paulina impedia que o jogador atuasse por outra grande equipe paulista assim que voltasse ao Brasil. Desse modo, o time do Morumbi acionou a FIFA. Porém, acabou por não ficar com o valor integral da multa, recebendo apenas US$ 1 milhão pela quebra de contrato.

RETORNO AO BRASIL

Em junho de 1995, Cafu retornou ao Brasil para atuar pelo Palmeiras. Na equipe, permaneceu por dois anos e foi peça importante na gloriosa conquista do título do Campeonato Paulista de 1996, em que o Verdão marcou 102 gols na competição. O investimento deu resultado, pois, logo em sua segunda partida, marcou duas vezes na vitória por 5 x 1 sobre o Grêmio, em jogo de volta das quartas de final da Libertadores. Encerrou sua passagem pelo Verdão no ano de 1997.

Cafu

Reprodução/O curioso do futebol

RETORNO À EUROPA

A essa altura, Cafu era um jogador consagrado e, logo, partiu rumo à Itália. Em seu retorno, integrou-se ao elenco do Roma, onde ganhou o Scudetto no ano de 2001. Posteriormente, na equipe, foi denominado como Il Pendolino, traduzido para o português como “O trem expresso“, por toda sua completividade e balanço. Mais tarde, integrou o elenco do Milan, onde conquistou o Campeonato Italiano de 2004 e a Liga dos Campeões da UEFA de 2007. Encerrou sua passagem pelo time em 2008, contra a Udinese, marcando seu último gol do na vitória por 4 x 1

De volta ao Brasil, começou a cogitar a hipótese de uma aposentadoria. Contudo, em seus relatos da época, demonstrava interesse em permanecer atuante no mundo do futebol, nem que fosse pelos bastidores dos clubes ou como técnico. Chegou a receber propostas dos paulistas Barueri e Santo André, para disputar o Campeonato Brasileiro, mas não chegou a um acordo. Em suma, acabou por não se efetivar em mais nenhuma equipe e, desse modo, seu último clube acabou por ser o Milan.

SELEÇÃO BRASILEIRA

Desde que estreou no São Paulo, Cafu foi destaque. Sendo assim, não demorou para chamar a atenção da Seleção Brasileira. No ano de 1990, chegou a ser convocado para alguns jogos e em todas as oportunidades, correspondeu com boas atuações. Como resultado, veio a convocação para a Copa do Mundo de 1994. Para a competição, o jovem de apenas 24 anos foi integrado para a reserva. No torneio, com muita raça, o Brasil chegou à grande final diante a Itália. Posteriormente, com a contusão de Jorginho, Cafu foi convertido como titular aos 22 minutos, pelo técnico Carlos Alberto Parreira. No jogo, foi grande o responsável por fechar a defesa, assim, culminando numa partida sem gols. Logo, nos penais, a Canarinho venceu os italianos por 3 x 2 e, assim, sagrou-se como tetracampeã.

Depois disso, firmou-se como titular absoluto ganhando a Copa América de 1997 e 1999. Além disso, também levou o país à final da Copa do Mundo de 1998, que, mais tarde, perderia para a França. Apesar da penosa eliminação, foi convertido como o capitão do elenco da Copa de 2002, após contusão de Emerson. Novamente chegando a uma final pela 3ª vez consecutiva, foi fundamental na vitória por 2 x 0 diante a Alemanha, assim,  eternizando-se como o Capitão do Penta.

No ano de 2006, foi novamente convocado com status de capitão. A essa altura, o agora veterano, já obtinha grandes marcos pela Seleção. Sobretudo, o fato de ter chegado a três finais consecutivas e ainda ser o jogador que mais vestiu a Amarelinha, em cerca de 150 jogos, tornaram-no uma unanimidade no futebol, não somente brasileiro, mas também mundial. Decerto, um marco difícil de ser superado.

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Reprodução/CBF

100% JARDIM IRENE

Apesar da carreira consagrada, Cafu nunca escondeu de ninguém as origens humildes. Suas raízes sempre foram seu maior orgulho e, quando surgia a oportunidade, explanava seu amor. Durante a conquista da Copa do Mundo de 2002, eternizou o seu bairro de nascimento com a frase “100% Jardim Irene“, escrita em sua camisa.

A partir dessa paixão, uma ideia que já havia passado pela cabeça do craque dois anos antes começou a ganhar forma. Trata-se do projeto de fundar uma entidade voltada para os jovens carentes das comunidades. Desse modo, surgiu a Fundação Cafu. Voltada para o auxílio comunitário, o intuito da entidade era fazer com que os jovens trilhassem caminhos éticos e buscassem seus objetivos, sem precisar passar por caminhos obscuros, como muitos amigos do jogador passaram.

Não existe preço nesse mundo que possa pagar o sorriso no rosto de uma criança. O que pode significar pouco para você, com certeza irá nos ajudar a alimentar o sonho de nossos jovens e crianças. Vamos caminhar juntos e fazer a nossa parte. Toda criança tem o direito de sonhar, e você pode ajudar a tornar esse sonho realidade”, disse Cafu à ESPN

Após 16 anos auxiliando jovens de toda São Paulo, em dezembro de 2019, a Fundação anunciou o encerramento das atividades por conta de crises financeiras. A organização oferecia aprofundamentos culturais ao esporte e  chegou a atender 950 crianças e adolescentes da região. Segundo a organização, o objetivo era utilizar oficinas como meios de transmitir valores e princípios necessários para formar cidadãos responsáveis. O anuncio do encerramento aconteceu via rede social.

Hoje [23/12/2019], colocamos um ponto final neste ciclo, mas temos um pedido: continuem alimentando sonhos! Sonhem cada vez mais alto. Tenham fé e coragem. Sejam protagonistas de suas histórias, agentes de transformação”, dizia no comunicado

Cafu

Reprodução/O curioso do futebol

 

Foto destaque: Reprodução/Paulo Pinto/Estadão

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Karine Gommes
Se o céu é o limite, então voe, irmão! Sou jornalista em formação do 7° semestre pela Universidade Cruzeiro do Sul. O jornalismo surgiu em minha vida, quase que simultaneamente, com a minha paixão por esportes. Necessitava viver aquilo. Assim, fui atrás. Conforme conhecia o profissão, pude visualizar quão ampla é. Apesar de ser apaixonada por esportes, eu quero vivenciar todas as vertentes que o jornalismo me proporcionar. Estou aqui para fazer jus ao meu grande sonho. Prazer, sou Karine Gommes ;)

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