Para muitos, a Copa América é considerada a Copa do Mundo sem os europeus, ou aquela copa que ninguém se importa, desde que dê Brasil. A bem da verdade, é o maior torneio em expressão das Américas e um bom termômetro de preparação para as Eliminatórias do Mundial. Recentemente, apesar do título com a geração de Tite, ficamos mais de 10 anos sem conquistá-la, mas nem sempre foi assim. Isso porque, houve um tempo em que Copa América era sinônimo de taça erguida, e erguida por Cafú, nosso capitão e lateral-direito.

Assim, o ano era 2004… vínhamos de duas conquistas da competição em 1997 e 1999. Além disso, na Coréia do Sul e Japão, retomamos a hegemonia no mundo com o pentacampeonato. No entanto, um ano antes, carregando a desconfiança natural das Eliminatórias, o Brasil caiu nas quartas de final para Honduras. Portanto, o roteiro até a vitória seria um dos mais sofridos, até então, para este torcedor brasileiro. É o que estou prestes a contar na coluna Marcas da Copa.

UM CLÁSSICO POUCO PROVÁVEL NA FINAL

Pois, a Argentina vinha de um jejum de 11 anos sem títulos, desde a conquista da Copa América, em 1993. Após a taça, os Albicelestes passaram a não levar a sério a competição, tendo nem disputado em 2001, quando a Colômbia foi campeã. Além disso, o vexame em 2002, caindo na primeira fase, colaborou para que eles encarassem essa edição com outros olhos. Dessa forma, levaram força máxima ao Peru, com craques como Abbondanzieri, Ayala, Heinze, Zanetti, Mascherano, Sorín, Kily González, Tevez e D'Alessandro.

Enquanto isso, o Brasil de Parreira levou à Copa América um time B, sem os principais jogadores que atuavam em solo europeu. Logo, de remanescente do penta, apenas o meia Kléberson, mas com Adriano Imperador na frente… Assim, na primeira fase, superamos Chile, por 1 x 0, e Costa Rica, por 4 x 1, mas tivemos um revés para o Paraguai, por 2 x 1, que nos dragou ao segundo posto do Grupo C. Já a Argentina também teve campanha semelhante no Grupo B, após golear o Equador, por 6 x 1, e vencer o Uruguai, por 4 x 2 , mas cair diante do México, por 1 x 0.

Na fase final, a goleada, por 4 x 0, frente o México que havia derrotado a Argentina, deu a ilusão que poderíamos ganhar mesmo com um time B. No entanto, chegamos a final através dos pênaltis contra o Uruguai. Enquanto isso, os hermanos passeavam sem serem vazados contra o Peru e Colômbia. Naturalmente, eram os favoritos à taça, já que o Brasil não tinha maiores pretensões em solo peruano. A bem da verdade, a primeira final legítima entre os maiores rivais sul-americanos foi emocionante, com tudo que um clássico Brasil x Argentina tem direito.

BRASIL X ARGENTINA – COPA AMÉRICA 2004

1º TEMPO

Era chegado o dia da decisão… no campo, a Argentina confirmava o favoritismo com um time bem montado por El Loco Bielsa e não dava espaços para o Brasil reserva. Sendo assim, a Canarinha se limitava a chutões e ligações diretas que quase sempre não rendiam nada no ataque. Enquanto isso, Mascherano reinava no meio-campo adversário, diminuindo o poder de criação do craque Alex. Logo, com o jogo dominado, os hermanos levavam perigo com seu trio ofensivo: Rosales, Tevez e Kily González. Dessa forma, aos 19′, Luisão derrubou Lucho na área, pênalti.

Na sequência, Kily González inaugurou o placar para a Argentina. Assim, da apatia, o gol fez o Brasil acender em campo, mas era facilmente desarmado no último terço do gramado. Ao passo dos minutos, o nervosismo crescente deu lugar a discussões e bate bocas, inclusive, com Zagallo exigindo mais entrega e vontade por parte de seus jogadores. Por outro lado, os Albicelestes seguiam fazendo seu típico futebol, de velocidade e catimba nas bolas paradas.

Enquanto isso, a cada bola na área, era um tormento para o coração brasileiro, com jogadas bem construídas através de tabelinhas e chutes cruzados, a Argentina envolvia nosso escrete. No entanto, nos acréscimos, se a bola não chegava com qualidade, a saída foi em uma cobrança de falta. Logo, Alex bateu e mandou na cabeça de Luisão que deixou tudo igual. Era o combustível que faltava para dar esperança para o segundo tempo e o balde de água fria argentino, após uma grande etapa inicial.

2º TEMPO

A Argentina voltou ainda mais ligada na partida e seguiu dominando, empilhando chances perdidas. Isso porque, em uma delas, a bola raspou a trave de Júlio César. Assim, ainda recuados, os brasileiros perderam jogadores importantes, como Kléberson e Luisão, por lesão, e Alex, por cansaço. Enquanto isso, Bielsa mandou à campo o que tinha de melhor, promovendo a entrada de D'Alessandro para deixar o meio campo mais criativo. Portanto, já com um time B e sem suas melhores peças, a nossa seleção seria facilmente vencida.

Sendo assim, a Argentina pressionou até os minutos finais. Logo, aos 42′, Zanetti cruzou, a zaga afastou, mas na sobra Renato furou e deixou para Delgado virar o placar para os hermanos. Tudo o que não podia acontecer, aconteceu. Para muitos torcedores e comentaristas, a Copa América estava perdida naquela instante… para os argentinos, já era dada como certa. Em vez de segurarem a bola com inteligência, Tévez e D'Alessandro brincaram com a redonda na lateral de campo, debochando dos brasileiros à espera da apito final. Mas ainda faltavam os acréscimos.

Assim, demonstrando ter brios, os jogadores brasileiros recuperaram a bola e precisavam apenas de uma chance, uma bola e ela aconteceu. Aos 47′, Renato cobrou falta, a zaga argentina afastou, Diego pegou o rebote e chutou para cima, Luis Fabiano ganhou dos zagueiros, mas perdeu a redonda, que sobrou para Adriano. Logo, em um dos atos mais marcantes e históricos do futebol brasileiro, o Imperador deu uma pucheta, girou o corpo para frente (“CAPRICHA ADRIANO, OLHA O EMPATE!!”) e mandou um balaço em Abbondanzieri que nada pode fazer. Um GOLAÇO!! Era o lance final do tempo regulamentar… o Brasil ainda estava vivo na Copa América.

Adriano decreta o empate e a ida aos pênaltis na Copa América (Foto: Divulgação/CBF)
Adriano decreta o empate e a ida aos pênaltis na Copa América (Foto: Divulgação/CBF)

PÊNALTIS

 Nas cobranças, como um roteiro de justiça no futebol, quem tanto debochou perdeu o primeiro pênalti, com Júlio César defendendo o chute de D'Alessandro. Em seguida, Adriano Imperador confirmava o heroísmo e abriu o placar para o Brasil. Na sequência, Heinze mandou para longe, e Edu ampliou a vantagem brasileira. Em seguida, Kily González e Sorín fizeram os únicos gols dos Albicelestes. Enquanto que Diego deu match point para a Canarinha, que coube ao zagueiro Juan o tento da conquista para decretar o 4 x 2!! Festa em todo o país, a Seleção Brasileira era campeã da Copa América!!

UM JOGO PARA A POSTERIDADE

Dessa forma, o gol de Juan não apenas definiu mais uma Copa América, foi a representação da hegemonia brasileira frente a Argentina. Assim, um instante que confirmou a fase copeira que vinha desde a Copa do Mundo de 1994 e elevou o status de uma geração vitoriosa. Além disso, as circunstâncias da partida, com desfalques significativos diante de um rival completo, com gols nos acréscimos e decidido nos pênaltis reuniu todos os ingredientes de um confronto memorável. Vencemos a Seleção Argentina antes e depois daquele 25 de julho, mas nada como em 2004.

Foto destaque: Divulgação/CBF

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Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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