Barbosa x sete a um

Dia 16 de julho de 1950. O relógio marcava 15 horas. O local? Maracanã. Final de Copa do Mundo. Frente a frente estavam brasileiros e uruguaios. O público? 199.854 pagantes.

Bastava ao Brasil um empate para sagrar-se campeão mundial pela primeira vez. A Seleção canarinho, inclusive, saiu na frente, aos 47 minutos, com Friaça. O empate da Seleção celeste saiu dos pés de Schiaffino, aos 66 minutos.  Com o resultado, o caneco ficava com os donos da casa.

Na meta brasileira, um dos melhores de sua época, Moacir Barbosa Nascimento, o Barbosa. Durante o mundial de 1950, as atuações do arqueiro brasileiro tinham sido impecáveis. O dono da camisa 1 parou a Espanha no jogo que terminou com um massacre brasileiro por 6 a 1 em cima da Roja.

Mas no dia 16 de julho, aos 79 minutos, 34 minutos da etapa complementar, após chute de Alcides Ghiggia, Barbosa tornou-se culpado, herdou uma pena perpétua.

“A pena máxima para um crime no Brasil é de 30 anos. Eu pago por aquele gol há 50”, lamentou Barbosa na década de 1990.

Depois disso, em 1993, quando tinha 72 anos, Barbosa passou pelo constrangimento de ser barrado na Granja Comary na véspera de um jogo decisivo entre Brasil e Uruguai para as eliminatórias para a Copa de 1994.

“Falaram que eu podia transmitir uma imagem negativa. Não sou pé-frio, só queria passar otimismo aos jogadores’’, declarou na fatídica ocasião.

Sobre Barbosa, o consagrado cronista Armando Nogueira limitou-se a dizer:

‘’Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera.’’

Barbosa faleceu em 7 de abril de 2000. Embora exaltado por sua carreira, carregou consigo o título de vilão. ‘’Duas bolas perfeitamente defensáveis foram às redes brasileiras’’, estampava o Estado de São Paulo no dia 18 de julho de 1950.

Passados quase 64 anos, o Brasil, mais uma vez, sediava um mundial em sua casa. Embalada após a conquista da Copa das Confederações, sob a batuta de Felipão, o Brasil venceu, mas não convenceu, durante a primeira fase e classificou-se para a fase de mata-mata. Nas oitavas de final, a bola no travessão de Pinilla quase nos eliminou. Passamos nos pênaltis, com dose extra de emoção. Nas quartas, o jogo contra a Colômbia de Zuniga, que tirou Neymar da competição. 2 a 1 e classificação suada, mais uma vez, para a semifinal.

Dia 8 de julho de 2014. O relógio marcava 17 horas. O local? Mineirão. Semifinal de Copa do Mundo. Frente a frente estavam brasileiros e alemães. O público? 58.141 pagantes.

Aos 11 minutos, Thomas Muller abriu o placar. Das arquibancadas e de todo o Brasil, reinava a esperança de uma virada. Mas entre os 23 minutos e os 29 da primeira etapa, em um intervalo de 6 minutos, quatro gols marcados pelos alemães. O placar? 5 a 0 para os comandados de Joachim Low.

Quando o árbitro mexicano Marco Rodríguez assinalou o fim da primeira etapa, o otimismo deu lugar ao desespero. Já não existia esperança, tampouco sorriso. A indignação era unânime. Vaias, choro, xingamentos. O Brasil de Felipão desapontava 200 milhões de espectadores.

Na segunda etapa, os alemães tiraram o pé, mas mesmo assim, mais duas bolas na rede de Júlio César. Oscar fez o gol de honra – agora totalmente abalada – no minuto final. Fim de jogo: um para o Brasil, sete para a Alemanha.

Na manhã seguinte, a misteriosa carta da enigmática Dona Lúcia vinha para enaltecer Felipão. Faltou competência, sobraram justificativas.

Na última sexta-feira completou-se o segundo aniversário da acachapante derrota brasileira contra os alemães. Dois anos do maior vexame brasileiro na história do futebol. Dois anos parados tecnicamente no tempo. Dois anos de trocadilhos e piadas. Dois anos do ‘’virou passeio Day’’ .

Em 2016, não se fala mais de Barbosa. As bolas perfeitamente defensáveis foram esquecidas. O Maracanazzo deu lugar ao Mineiraço.

Quatorze anos após sua morte, Barbosa foi absolvido pela nação, que agora tem outros réus. Dezesseis anos após sua morte, Barbosa descansa em paz.

André Siqueira Cardoso

Sobre André Siqueira Cardoso

André Siqueira Cardoso já escreveu 313 posts nesse site..

Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

BetWarrior


Poliesportiva


André Siqueira Cardoso
André Siqueira Cardoso
Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

    Artigos Relacionados

    Topo