Nesta quinta-feira (24), o Bahia divulgou uma nota, confirmando que a perícia contratada pelo clube não comprovou as denúncias de injúria racial. Desse modo, o meia Índio Ramírez será reintegrado ao elenco. Simultaneamente, a diretoria anunciou algumas medidas que irão ser tomadas para combater o racismo.

Em princípio, a nota do Bahia afirma que, apesar da relevância da palavra do meia Gérson, entende que Ramírez não deve continuar afastado sem provas convictas. Além disso, a diretoria afirmou que vai implementar uma série de medidas estruturais, para combater o racismo, xenofobia e homofobia no contrato dos atletas.

CONFIRA A NOTA DO BAHIA

PARTE 1 – O RACISMO E A SOCIEDADE 

O racismo faz nosso país sangrar. Pela morte, pela dor, pelas portas fechadas, pela discriminação no mercado de trabalho, pela violência diária de todas as formas. O racismo entra pela fresta das casas, está nas ruas, nos supermercados, nas empresas e também no futebol. Segue impregnado por todos os lados. Combater o racismo é dever de todos: das organizações, dos governos e sobretudo das pessoas que historicamente se beneficiaram de uma estrutura social e econômica sustentada na branquitude e no racismo. Entretanto, o racismo é um fenômeno concreto e opera para além das estatísticas de expectativa de vida, acesso à saúde e garantias dos direitos fundamentas e dignidade humana. Assim, o racismo é persistente, gritante, barulhento e, por muitas vezes, silenciosamente cruel”.

PARTE 2 – O BAHIA NO DEBATE RACIAL 

Há três anos, através do Núcleo de Ações Afirmativas, o Bahia se tornou referência internacional na luta antirracista. Portanto, as campanhas educativas do clube viraram tema de vestibular em universidades e de redação em escolas. Sendo assim, além das campanhas, o Bahia foi o primeiro time de futebol no mundo a lançar um programa de imersão para debater os aspectos estruturais do racismo. O “Dedo na Ferida” capacitou 484 pessoas em 15 organizações de 3 capitais brasileiras. Funcionários, diretores, conselheiros, torcidas organizadas, profissionais de imprensa, além de empresas de fora do esporte, participaram gratuitamente.

“Além disso, homenageou personalidades negras do passado e do presente em suas camisas. Por outro lado, na divisão de base, o Bahia possui amplo programa de desenvolvimento humano tendo o combate ao racismo como tema principal. Dessa forma, há apenas 33 dias, abriu programa de trainee exclusivo para pessoas autodeclaradas pretas, ao todo com 305 candidatos, em outra inovação no futebol”.

PARTE 3 – ACONTECEU COM O BAHIA? QUAL O SENTIDO DISSO?

O episódio do último domingo (20), toda a sua repercussão e simbologia nos revela que o combate ao racismo deve ser ainda mais aprofundado no nosso clube e no Brasil. Dessa maneira, o Bahia é um reflexo de uma sociedade que carrega o racismo em suas estruturas. Por outro lado, a questão racial não pode servir de pano de fundo para uma disputa entre clubes e torcidas rivais. O racismo não veste uma só camisa. A postura antirracista deve ser constante e não apenas quando convém ao time que torcemos. No caso do Bahia, embora já venha perseguindo a luta antirracista, seria ingênuo acreditar que estaríamos imunizados a um fenômeno tão complexo e particularmente enraizado na sociedade brasileira. Ninguém está! Ser antiracista no Bahia não é apenas uma opção da presente gestão, mas uma obrigação institucional”.

PARTE 4 – O QUE FAZER?

“Os laudos das perícias em língua estrangeira contratadas pelo Bahia não comprovam a injúria racial e o clube entende que, mesmo dando relevância à narrativa da vítima, não deve manter o afastamento do atleta Índio Ramírez ante a inexistência de provas e possíveis diferenças de comunicação entre interlocutores de idiomas diferentes. Em princípio, o papel do Bahia é de formação e transformação, sempre preservando os direitos fundamentais e a ampla defesa.

“O atleta deverá ser reincorporado ao elenco tão logo os profissionais da comissão técnica e psicólogos entendam adequado. É menos sobre um suposto ato entre dois jogadores, e mais por uma comprovada estrutura racista que negligencia direitos fundamentais e nega a existência das pessoas negras. O Futebol é reflexo de uma sociedade que, quando não nega o racismo, adere a um populismo punitivista que finge resolver o problema apenas punindo o agressor. Atos de discriminação racial não são “casos isolados”.

MEDIDAS PARA EVITAR INCIDENTES

Portanto, por entender seu papel de entidade de interesse público, o Bahia se compromete publicamente a adotar um conjunto imediato de medidas estruturais:

1. Inclusão de cláusula anti-racista, xenofóbica e homofóbica no contrato dos atletas.

2. Proposta de criação de protocolo antidiscriminatório para jogos de futebol no Brasil.

3. Implantação do projeto “Dedo na Ferida” para o elenco na pré-temporada. Não haverá jogador ou jogadora que vista a camisa do Bahia sem que tenha antes a oportunidade de obter acesso a uma imersão sobre racismo estrutural. Encaminhamento junto à mesa do Conselho Deliberativo do clube para incorporação de cotas raciais nas próximas eleições.

5. Inclusão de espaço no Museu do Bahia dedicado ao combate e debate do racismo, xenofobia, sexismo e LGBTfobia e demais formas de intolerância.

6. Apoio ao projeto de lei que Cria o Dia Nacional Da Luta Contra o Racismo no Futebol.

OS DESDOBRAMENTOS

Dessa forma, o Bahia seguirá acompanhando os desdobramentos que ocorrerem fora das instâncias do clube, seja na Polícia Civil ou no Superior Tribunal de Justiça Desportiva.

Além de negros, somos nordestinos e conhecemos bem o poder do preconceito e da exclusão pela xenofobia. Por fim, diante disso e das provas constituídas, caberá ao atleta Ramírez decidir pela denúncia ou não quanto ao tema – e ao Bahia apoiar a decisão.

Foto destaque: Divulgação/Jorge Rodrigues/Agência Estado

Gilvan Rodrigues
Gilvan Rodrigues
Gilvan Junior, 20 anos, natural de Feira de Santana, estudante de jornalismo pela FAT. Desde pequeno, meu principal assunto era o esporte. Sempre acompanhado programas, sites, etc. Decidir, partir pra área que me dará a oportunidade de viver daquilo que mais amo. O futebol.

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