Atlético-PR e Mourinho ajudaram na formação da sensação Ferroviária

Como uma final de Champions League pode influenciar no Campeonato Paulista? Como o Atlético-PR pode ter ligação direta com a sensação do Paulistão? Bem louco, né? Pois bem, desde 2004 o Furacão tem uma parceria com a Ferroviária, onde os jogadores não utilizados no seu plantel são emprestados para o clube de Araraquara. Ai você se pergunta: Será que isso é rentável para o Atlético? Olha, talvez seja, mas de fato a Ferroviária se beneficia mais com esse acordo.

O acordo vai além do empréstimo dos jogadores, o Furacão tem mais influência ainda nesse sucesso, que auxilia na comunicação, no marketing e na busca por patrocínio. Mesmo se o clube não se classificar para a Série D, o clube paranaense também irá ceder jogadores para a fraca Copa Paulista. São 11 jogadores do clube paranaense integrados na ferrinha, mais o treinador português Sérgio Vieira.

A odisseia portuguesa

Depois de assistir a façanha de Mourinho ao conquistar a Europa pelo Porto em 2004, Sérgio Vieira, com seus 20 anos de idade e jogador da terceira divisão portuguesa, abandonou os gramados e passou a se dedicar as táticas. Segundo o treinador, aos 20 anos ele percebeu que não chegaria na primeira divisão, mas tinha um forte poder de liderança para ser um grande treinador. O gajo foi estudar, se matriculou na universidade e passou a estudar futebol. No seu segundo ano de universidade, ele já estava trabalhando nas categorias de base e como auxiliar no Coimbra, mas depois passou por Primeiro de Maio, Braga, Porto e o Sporting Lisboa. No período que passou estudando, Vieira fez os cursos da Uefa, para se regularizar como treinador.

Nem tudo foi flores na caminhada do português, após a saída do Porto em 2010 (onde trabalhou com o treinador Jesualdo Ferreira, considerando-o seu “guru” do futebol), ele chegou a ficar 3 anos sem trabalhar, mas não desistiu, em 2014 foi para o Braga. Após o Braga, decidiu fazer uma viajem pela Europa e depois para o Brasil, onde desejava conhecer o “país do futebol”. Por aqui Vieira conheceu o Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis e Curitiba visitando CTs e vendo jogos de todas as divisões. Um mês após a visita ao CT do Atlético-PR, foi contratado para os profissionais com o papel de observar os treinos táticos das categorias de base, afim de implementar o que aprendeu nos cursos da Uefa. Após o período de observação, a diretoria do Furacão o nomeou como treinador da equipe sub-23.

A ideia inicial era comandar a equipe de até 23 anos na Copa do Paraná, mas o treinador se destacou tanto que foi emprestado para o Guaratinguetá (clube no qual o Atlético também tem parceria), com o objetivo de salvar a equipe do rebaixamento para a 4ª divisão do Campeonato Brasileiro. Vieira cumpriu o objetivo e retornou para o rubro-negro para prosseguir o trabalho no sub-23, porém mais uma vez teve que interromper o trabalho, dessa vez assumindo interinamente o time profissional, que teve o treinador Milton Mendes demitido. Foi apenas um jogo, a despedida de Osório no São Paulo, o jogo terminou com vitória do tricolor paulista por 1 a 0 e na semana seguinte Cristóvão Borges chegou para ser o novo treinador.

Foi ai que começou a jornada do português no time de Araraquara, com o objetivo de fazer um papel digno no Paulistão após 19 anos sem joga a 1ª divisão. Chegando lá ele teve que lidar com o bicho papão de todos os treinadores do Brasil: O calendário. Foram apenas 4 semanas para preparar o time (ao contrário do que todos pensam, já que o senso comum é que os clubes pequenos se preparem antes), mas Sérgio Vieira já havia se preparado pra isso.

O conceito e a prática de Sérgio Vieira

O português gosta de nos treinamentos trabalhar com grama curta e molhada, para segundo ele, exigir cada vez mais os jogadores a pensarem rápido nas jogadas, já que as condições impostas fazem a bola correr mais. Percebemos nos jogos da Ferroviária, que ao perder a posse de bola a equipe “asfixia” o adversário no campo de defesa dele, isso não é por acaso, já que segundo Vieira, o centroavante e o 10, por exemplo, possuem a mesma função do volante ou do zagueiro, marcar. Uma coisa que parece simples, algo de pelada talvez, aquele famoso grito – Todo mundo marcando! Cada um com um! – Algo tão simples, mas pouco visto no futebol brasileiro. O time do gajo poucas vezes fica com a zaga exposta.

Sérgio Vieira acredita no futebol coletivo e relata em algumas entrevistas que já teve jogador revelando pra ele fundamentos básicos não aprendidos, fundamentos que talvez possa poupá-los de um desgaste físico desnecessário ou até mesmo conhecer o famoso “atalho do campo” mais cedo. Talvez essa seja a principal crítica do português ao futebol tupiniquim, a individualidade dos jogadores daqui, de acordo com o técnico os jogadores brasileiros aprendem desde cedo que a habilidade supera tudo, seu poder de improviso, a sua superioridade, quando a parte mais importante é um conceito simples, a coletividade – Ora! Afinal estamos falando de um esporte coletivo!. Há mudanças acontecendo e Vieira também percebe isso, segundo ele muitos treinadores da base estão engajados em mudar esse pensamento, que soa individualista e egoísta.

Veja abaixo alguns exemplos do estilo de jogo da Ferroviária:

Repare na quantidade de passes e os passes certos da ferrinha (91%), a posse de bola maior como visitante, apenas 7 cruzamentos feitos – Reparem que o clube erra a maioria, pois a equipe está acostumada a rodar a bola -, o mesmo acontece com o número de lançamentos com bastantes erros, mas poucos feitos.

Para ilustrar mais ainda, vamos ao HeatMap do jogo:

Percebam a centralização e a compactação da equipe de Araraquara, a ocupação da organizada equipe no campo de ataque, enquanto o Palmeiras não consegue ocupar os espaços do campo.

Vejam essa última ilustração:

A Ferroviária lidera em Finalizações Certas, Gols Pró e Viradas de jogo certo. Além de trocar bem os passes e ocupar os espaços do campo, o time de Araraquara trabalha bem nos treinamentos a finalização, são incríveis 51% de aproveitamento.

A chave do sucesso até agora é um padrão de jogo de um dos caras mais dedicados do Brasil, não é apenas um estilo Europeu, é um jeito inteligente de se jogar futebol, que perdemos com o passar dos anos. Se vai dar certo, se vai ser campeão ou vai longe na competição, isso não dá pra saber, o que sabemos é que Sérgio Vieira está em um clube que lhe dá carta branca para ousar e trabalhar. Boa sorte!

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Sobre Paulo Henrique Pimentel

Paulo Henrique Pimentel já escreveu 4 posts nesse site..

Sou amante do futebol europeu e defendo que um brasileiro pode sim chamar um clube de fora de "meu". Sou estudante de Administração, mas já fui estudante de Jornalismo. O fim de semana perfeito pra mim se resume em, TV, cerveja e um bom futebol. É, esse sou eu, não leiam muito sobre mim, sou chato, leiam o que eu vejo apenas, pois isso sim é incrível.

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Paulo Henrique Pimentel
Sou amante do futebol europeu e defendo que um brasileiro pode sim chamar um clube de fora de "meu". Sou estudante de Administração, mas já fui estudante de Jornalismo. O fim de semana perfeito pra mim se resume em, TV, cerveja e um bom futebol. É, esse sou eu, não leiam muito sobre mim, sou chato, leiam o que eu vejo apenas, pois isso sim é incrível.

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