Aqsaqtuk e Pasuckuakohowog: os precursores do futebol na América do Norte mostram o quão sagrado é o esporte

A coluna Desbravando o Tio Sam desta semana viaja no tempo até os primórdios do futebol para mostrar dois esportes que contribuíram para o surgir do que hoje conhecemos como futebol: Aqsaqtuk e Pasuckuakohowog. Decerto, ao lado do Tsu-Chu ou Cuju (China), Kemari (Japão), Harpastum (Itália), Epyskiros (Grécia), Jogo de Bola Mesoamericano ou Pok ta Pok, nomeado pelos Maias e rebatizado de Ullamaliztli pelos Astecas, Manga ñembosarái (Paraguai), Marn Grook (Austrália), Soule (França), Schrovetide (Inglaterra), Calcio Fiorentino (Itália) e outros tantos, estes esportes nascidos de tribos esquimós e indígenas americanas são precursores do famoso futebol moderno. Por mais que tenham gritantes diferenças, o objetivo era similar: fazer gol!

A origem do futebol na América do Norte: Aqsaqtuk e Pasuckuakohowog

Antes de mais nada, a origem exata do futebol segue incerta. De fato, o esporte mais popular do mundo, nas regras atuais, nasceu na Inglaterra. Porém, diversos esportes já rodavam o planeta em várias culturas, como Aqsaqtuk e Pasuckuakohowog na América do Norte. Por volta do ano de 1600, no Alasca, Canadá e Groelândia, uma presença de futebol era notada no gelo: o Aqsaqtuk. Vale ressaltar que era tempo das Grandes Navegações, expedições marítimas realizadas por europeus entre os séculos XV e XVI. Assim, é preciso voltar no tempo para entender o período histórico em que tudo ocorreu.

O descobrimento do Aqsaqtuk

Em meados do século XV, os turcos otomanos tomaram o controle do Oriente Médio, com a Queda de Constantinopla. Dessa forma, impediu que potências europeias viajassem à Ásia por por terra. Contudo, isso motivou a procura de caminhos marítimos alternativos. Logo, no final daquele século, em 1497, o rei Henrique VII da Inglaterra ordenou buscas britânicas atrás da Passagem do Noroeste, que seria feita por um lendário Estreito de Anian.

Encontrar Anian foi um dos maiores alvos das jornadas marítimas dos séculos XVII a XIX. Mas este mítico estreito nunca havia sido achado. A passagem seria uma rota possível através das ilhas do Norte do Canadá, quase sempre cobertas e cercadas de gelo. Era comum pensar nesse local por conta do efeito do aquecimento global e, logo, o degelo, que diminuiria consideravelmente o trajeto marítimo entre a Europa e a Ásia. Com isso, facilitando o comércio, dificultado pelos turcos otomanos.

Com a Europa toda atrás do estreito, em 1583, o explorador inglês Jonh Davis, um dos principais navegadores da Rainha Elizabeth I, começou uma viagem em busca da Passagem Noroeste para o secretário da Rainha, Francis Walsingham, sem sucesso. Mas as buscas não terminaram por aí. Três anos mais tarde, novas tentativas surgiram.

A Passagem do Noroeste (1874), pintura de John Everett Millais representando a frustração britânica pelas falhas sucessivas na sua descoberta
A Passagem do Noroeste (1874), pintura de John Everett Millais, representando a frustração britânica pelas falhas sucessivas na sua descoberta

O encontro com o Aqsaqtuk na Groelândia

Em 1586, Davis retornou ao Ártico com quatro navios, dois deles enviados à costa Leste da Groenlândia. Quando chegaram, tiveram uma chegada gentil com os inuítes. Assim, tocaram e dançaram juntos. Isso mudou logo, pois os nativos roubaram uma de suas âncoras, afinal, se enfureceram por terem sido interrompidos durante uma de suas cerimônias religiosas e sagradas, o Aqsaqtuk. Dessa forma, Davis acabou fazendo ali, na Groelândia, o primeiro relato do “futebol no gelo”, na tradução literal. O real estreito buscado pelos europeus foi descoberto em 1728, pelo navegador dinamarquês Vitus Bering, à serviço do Império Russo, e ficou conhecido como Estreito de Bering.

“Usavam bolas recheadas com grama, cabelo de caribu (cervo) e musgo. Mesmo debaixo do frio intenso, lá era jogado essa forma própria de futebol. Traçavam metas que estavam a quilômetros de distância entre si, que iam de uma aldeia a outra. Era um jogo difícil e físico que exigia resistência e força, já que as vastas planícies abertas tornavam o campo de jogo muito maior. Assim, os jogos eram longos, motivo de grande orgulho para as comunidades que participavam”, contou John Davis em suas anotações.

A lenda e a testemunha

Uma lenda conta que duas aldeias se enfrentaram com gols a 16km de distância um do outro. Um relato de testemunha ocular do jogo no século 19, Lucien M. Turner, etnólogo canadense, observou que os nativos gostam muito deste jogo:

“Todas as pessoas, de todas as idades, desde bebês até mulheres idosas com corcunda, adoram jogar o aiuktouk (nome da bola). Eles ainda não chegaram a perfeição de uma forma esférica para a bola, mas geralmente em forma de maçã. Feito com pedaço de pele de gamo (cervo) ou foca, cortam em uma forma circular. Esta leve bola e costuma ser jogada para cima por um golpe com o pé ou então por um chicote de construção peculiar. Um esquimó vigoroso costuma enviar a bola por mais de 100 metros no ar com tal força para derrubar uma pessoa. Jogam durante o final do inverno, em tardes em que a temperatura está de 1 a 15 graus abaixo de zero. É um jogo emocionante e vigoroso onde uma grande multidão se junta”.

(Reprodução / Sutori)
(Reprodução / Sutori)

A primeira manifestação de uniformes

Perto da Groelândia, no Canadá e Alasca, também se jogava o esporte e foi ali que surgiram as primeiras aparições de “uniformes”. Os inuítes davam nomes a suas equipes de acordo com a vida selvagem local. Assim, os animais da região acabavam nomeados, em uma expressão da identidade local. Dessa forma, os “atletas” usavam disfarces de animais, como o Ptarmigan, um pássaro de cauda branca, comum em áreas montanhosas da América do Norte, em especial no Alasca. Logo, se trajavam com as penas ou peles dos animais.

A nomeação dos times também tinha costumes, mas quanto à direção onde os “gols” estavam. Portanto, se uma equipe atacasse a meta cujo habitat natural do animal girava em torno da água, eles teriam o nome desse tipo de animal. Enquanto o rival que atacasse em direção à floresta, levava o nome de uma espécie terreste. Era uma tradição simplista e pitoresca que tinha uma expressão da conexão com seus arredores: a vida selvagem.

A relação do futebol com a religião

O Aqsaqtuk tinha conotações espirituais e religiosas para o povo inuíte. Eles consideravam as luzes vistas do norte como um fenômeno sagrado, já que sentiam que os espíritos dos mortos viviam dentro dos efeitos de luzes que irradiavam pelo céu. Decerto era um ritual para eles, como uma homenagem. Pensavam que os espíritos falecidos jogavam um eterno de Aqsaqtuk com uma bola feita da cabeça de uma morsa.

É difícil entender o vínculo espiritual entre o jogo e os espíritos dos mortos. No entanto, isso só mostra a importância dos esportes e como eles podem manter conexões tão fortes com as pessoas ao ponto de se tornam um vínculo sagrado. Interromper este evento, como fez John Davis e suas tropas, pode ser realmente uma blasfêmia.

(Reprodução / Timetoast)
(Reprodução / Timetoast)

A primeira manifestação de um “futebol” nos Estados Unidos

Primeiramente, Aqsaqtuk e Pasuckuakohowog têm uma relação, sendo o Aqsaqtuk a primeira presença de futebol no continente norte-americano. Vale ressaltar que o Alasca ainda não pertencia aos Estados Unidos e, sim, à Rússia. Bem como a Groelândia até hoje não pertence aos EUA, mas, sim, aos dinamarqueses. Portanto, a primeira aparição de futebol especificamente nos Estados Unidos foi o Pasuckuakohowog.

Acredita-se que os antecedentes dos ameríndios que habitaram a América por milhares de anos antes da chegada dos primeiros europeus foram asiáticos que teriam migrado da Ásia pelo estreito de Bering, que separa a Rússia do atual estado do Alasca. Não se sabe ao certo quando que esta migração ocorreu.

O futebol indígena: Pasuckuakohowog

Por volta de 1620, navios peregrinavam pela primeira vez nos portos de Massachusetts, na região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. William Wood, escritor do livro New England's Prospect, coletou informações confiáveis ​​e em primeira mão sobre a América Britânica para colonos em potencial. Assim, fez descrições do ambiente natural e da vida diária das tribos indígenas.

Logo, os viajantes descobriram os indígenas nativos, os ninnimissinuok, jogando um jogo parecido com o que hoje chamamos de futebol, de nome Pasuckuakohowog. O significado é: “eles se reúnem para jogar bola com o pé”. Praticado em especial pelas tribos Algonkin e Powhatan, os campos de jogo eram praias de 1,6 km de extensão, com gols de 800 metros de largura. Cerca de 500 a 1 mil pessoas jogavam o difícil jogo ao mesmo tempo.

Decerto saber quem estava no seu time não era fácil, pois os “atletas” usavam disfarces, pintura no rosto e no corpo. De fato, tinha sentido religioso similar ao Aqsaqtuk, mas nas culturas indígenas. Há relatos de que o esporte seria um jogo violento e que as pinturas no corpo eram para disfarçar as retaliações. Contudo, em 1634, quando Wood publicou seu livro, ressaltou que estava muito surpreso com a mansidão como tudo ocorria.

“Embora eles nunca joguem de maneira feroz, apesar da aparência, sempre tem o desejo de vencer. Se qualquer homem cair, o outro rirá de seu rival, mas este não buscará vingança. Não há brigas, nem narizes com sangue, rostos arranhados, olhos roxos, canelas feridas, nenhum membro ou costelas machucadas […] Mas o objetivo é ganhar. Eles colocam mercadorias em jogo. Quem vencer fica com tudo”.

A ideia errada de jogo violento e um desconhecido espírito esportivo

O objetivo era avançar a bola sem usar as mãos e chutar a bola através do gol do outro time. Não existiam regras para minimizar o contato físico, daí a ideia de um jogo violento. Assim, acontecia de saírem feridos, com ossos quebrados ou com lesões graves, mas era algo comum e não proposital. O único equipamento real usado era a bola, normalmente feita de couro ou peles de animais bem enroladas. Jogavam com os pés descalços, além de grandes estacas, mas raramente as utilizavam para brigar.

Mas, o espírito esportivo já era notório naquela época, afinal, mesmo que as partidas durassem dias, sempre ao fim tinha uma celebração com um banquete magnífico para ambas as equipes. Assim, após seus jogos, tinha festa, dança e muita comida na praça, onde se divertiam noite afora. Portanto, desmistificando o Pasuckuakohowog, não tinha nenhum intenção violenta, somente era uma Old School do futebol, sem grandes regras.

Aqsaqtuk e Pasuckuakohowog não resistiram ao tempo

Por fim, Aqsaqtuk e Pasuckuakohowog não resistiram a modernização e a disseminação da vida urbana nas áreas da sociedade tradicional. Os inuítes diminuíram nas últimas décadas. Logo, o primeiro parece ter se perdido no tempo, já que outros esportes surgiram e tiveram popularidade. Quanto ao segundo, seguiu o mesmo caminho. No século XIX, a limpeza étnica do Oeste dos EUA tornou-se política oficial do governo, que passou a declarar guerra às tribos indígenas sob qualquer pretexto, no que veio a se chamar Genocídio dos povos indígenas dos Estados Unidos.

No entanto, Aqsaqtuk e Pasuckuakohowog vivem na forma de futebol e no princípio básico de chutar uma bola. A mudança do mundo viu os inuítes e povos indígenas se deteriorarem ao longo do século 20, além do abandono gradual de sua existência e da chegada da tecnologia na vida cotidiana, com ideais mais urbanos e menos ruralistas. Embora possam não ser predominantes agora, seguem sendo um símbolo de como o mundo está em constante processo de transformação. Podem não ter resistido ao teste do tempo, mas um descendente, o futebol moderno, segue cada dia mais vivo.

Foto destaque: Reprodução / Football Origins

Avatar
Eric Filardi
Quando pequeno quis ser jogador. O sonho de criança passou. Uma vida nova se anseia. Bem-vindo ao melhor site de futebol. Bem-vindo ao Futebol na Veia. Sou Eric Filardi, paulistano de 27 anos, criado em Taboão da Serra, jornalista pós-graduado em Jornalismo Esportivo e apaixonado por futebol. Como todo jornalista amo escrever. Como todo brasileiro amo futebol. Tenho meu clube e minhas preferências, mas viso o profissionalismo e a imparcialidade, sem deixar de lado a criatividade. Sou Tricolor, Peixe, Palestra e Timão. Sou da Colina, Glorioso, Flu e Mengão. Sou brasileiro, hermano, francês e italiano. Sou Ghiggia, Paolo Rossi, Caniggia e Zidane. Sou Alemanha dos 7 x 1, mas que o povo não se engane. Também sou Ronaldo, Romário, Zico, Garrincha e Pelé. Sou Bundesliga, MLS, Eredivisie e Premier. Sou das várzeas e dos terrões. Sou Clássico das Multidões. Sou Sul, Nordeste, Amazônia e Pantanal. Sou Galo, Raposa, Bavi e Grenal. Sou Ásia e África. Sou Barça e Real. Sou as Américas, a Europa, sou o mundo em geral. Sou a festa nas arquibancadas que o estádio incendeia: sou Futebol na Veia.
https://bit.ly/EricFilardi

Deixe uma resposta