Apenas a cultura associativa pode salvar os clubes brasileiros

Antes de mais nada, quero deixar claro que não sou daqueles que condenam veementemente os modelos de clube-empresa. Entretanto, compreendo que mesmo em clubes que possuem donos, a cultura associativa é fundamental para a sobrevivência das instituições esportivas.

Ao mesmo tempo, acredito que o baixo número de sócios com plena participação em clubes brasileiros é um caminho aberto para aproveitadores.

Sendo assim, entendo que os lobos trajados de ovelha vão desde presidentes irresponsáveis até empresários aventureiros que podem enjoar dos brinquedos e largar os clubes à míngua.

Baixa associação como reflexo da sociedade

À primeira vista, o Brasil é um país com pouca cultura associativa. Assim, achamos sempre que nossos problemas podem ser resolvidos por outros e com isso desprezamos a possibilidade de livre associação a qualquer entidade, seja ela uma associação de moradores, um partido político, um sindicato ou um clube de futebol.

Sob o mesmo ponto de vista, é verdade também que os que estão no poder trabalham desde sempre para enfraquecer tais associações, visto que as mesmas representam perigo ao status quo social e, no futebol, isso é ainda mais alarmante.

Planos de sócios mal elaborados

Outrossim, é fato que os planos de sócios torcedores no Brasil são, em sua maioria, mal elaborados, mal divulgados e nem sempre contemplam a participação plena de torcedores nas decisões dos clubes.

Para temos uma base de comparação o clube brasileiro com mais sócios, segundo o site Goal.com em outubro de 2020, é o Internacional, com 75 mil sócios-torcedores.

A última eleição para presidente do próprio colorado, registrou menos de 30 mil votantes, o suficiente para ser a maior já registrada no Brasil, porém o montante de votos representa menos de 45% dos sócios aptos ao pleito.

Estes números podem ser explicados pelo motivo listado no começo do texto e também porque os planos de sócios vendem para os torcedores que a grande vantagem é desconto nos ingressos, desvirtuando o propósito real da associação.

Como a cultura associativa pode ajudar os clubes?

Para responder a essa pergunta podemos apresentar duas hipóteses. A primeira e mais óbvia é de que com mais sócios, entra mais dinheiro no caixa do clube. Isso por si só já muda a realidade de boa parte dos clubes brasileiros. Finalmente a segunda e mais importante hipótese é a maior participação política da torcida. É inconcebível que menos que o futuro de clubes de massa seja decidido por dezenas de milhares de privilegiados.

Com mais eleitores, chapas de oposição ganham força e modelos alternativos de gestão começam a ganhar força. Também há mais fiscalização tanto sobre o presidente, quanto sobre os donos. Mais sócios também possuem mais força para reivindicar mudanças estatutárias, até mesmo em clubes com eleições indiretas, como o Palmeiras.

Com clubes enfraquecidos, os caminhos para oportunistas estão abertos. Concluo que apenas o fomento de uma cultura associativa pode salvar os clubes, por consequência, o futebol brasileiro.

Foto Destaque: Vítor Silva/Botafogo

Paulo Henrique Araújo
Apaixonado por futebol desde antes do que possa lembrar. Comentarista esportivo por amor e constante aprendiz do maior esporte do mundo.