Anelka – O Incompreendido: uma voz aos silenciados

- Jogador foi um dos maiores astros do futebol francês, mas igualmente refém das polêmicas
A coluna Futflix recomenda o documentário Anelka - O Incompreendido (Foto: Divulgação / Netflix)

Em 2014, com um tweet, o então presidente do Atlético-MG e atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, anunciou “Anelka é do Galo!“. No entanto, essa foi uma entre tantas polêmicas em que um dos maiores astros do futebol francês se envolveu. Assim, buscando investigar as controvérsias da carreira do ex-atacante e hoje técnico de futebol, o documentário Anelka – O incompreendido traça um panorama sobre sua carreira. Dessa forma, é a pedida da coluna Futflix dessa semana.

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Lançado em 2020, o filme é uma realização da Netflix e tem a direção de Éric Hannezo. Assim, Anelka – O incompreendido apresenta uma outra perspectiva da carreira de Nicolas Anelka. Para além dos gols e da fama que o consagraram no Arsenal e Chelsea, sua trajetória dentro de campo possui a marca das polêmicas desde transferências milionárias à discussões a porta dos vestiários. Descortinando a lenda, a obra serve como um dos poucos canais a dar voz a quem foi por muito tempo silenciado: o próprio Anelka.

Como quase todo documentário, o filme toma partido e é bastante favorável ao jogador. Nele, Anelka narra sua carreira entre os anos de 1996 e 2012 e traz a sua versão de alguns fatos marcantes, como a maior polêmica da Seleção Francesa em Copas do Mundo. Apesar de priorizar o relato em primeira pessoa do jogador, a obra carrega consigo depoimentos de personalidades da bola que conviveram com o ex-atacante e de seus familiares.

Assim, com um talento invejável, mas com o mesmo potencial para os holofotes não-esportivos, Anelka é quase sempre mais lembrado pelo que fez fora dos campos. E isso fica evidente em Anelka – O incompreendido, dedicado a desmistificar as controvérsias que permearam sua carreira. Muito por isso, apesar de grande jogador, não é tão idolatrado pelos clubes que passou, nem tampouco por sua seleção, embora tenha deixado marcas, e marcas que até hoje ecoam no futebol.

PSG… ARSENAL… REAL MADRID… ENFIM, CHELSEA

Como bom nacional, Nicolas Anelka começa contando seu inicio de carreira no Paris Saint-Germain. No entanto, sem enxergar oportunidades no clube francês e sabedor de seu potencial, ele narra sua transferência para o Arsenal, de Arséne Wenger. Logo, o filme faz uso do então treinador dos Gunners para defender o caráter de Anelka em várias passagens. Além disso, através das palavras do técnico, conhecemos um pouco mais da personalidade impaciente de um jovem que não estava ainda pronto para ser reserva.

Em seguida, o ex-atacante narra sua badalada transferência para o Real Madrid, à época a maior negociação envolvendo um jogador francês. No entanto, na Espanha, a pressão por atuar no maior clube do mundo e a cobrança da imprensa fez com que isso mexessem com a cabeça de Anelka. Ele conta um tanto como foi a vida em Madrid e os motivos que lhe levou a deixar os Merengues.

Após, Anelka teve passagens por Liverpool e Manchester City, ambos da Inglaterra, e Fenerbahce, da Turquia, antes de reencontrar o bom futebol no Chelsea. Assim, com o protagonismo definitivo em Stamfor Bridge, ao lado de Drogba, o ex-atacante volta a ganhar os cartazes pelo que fez em campo. Algo que o levou de volta à Seleção Francesa, após ficar de fora da Copa do Mundo de 2002 e 2006.

A MAIOR POLÊMICA FRANCESA EM COPAS

No entanto, todo o caminhar de Anelka – O Incompreendido é permeado para se chegar ao ponto alto da narrativa: a Copa do Mundo da África do Sul, em 2010. Isso porque, a péssima participação francesa na competição já começaria com um gol de mão de Henry nas eliminatórias, mas culminaria com Anelka como protagonista da maior crise dos Bléus em Mundiais.

Logo, com problemas e derrotas dentro e fora dos campos, a polêmica evoluiu para questionamentos entre os jogadores e o técnico Raymond Domenech. Após a derrota para o México no segundo jogo da fase de grupos, Anelka ganhou a manchete do jornal francês L'Équipe por ofensas ao treinador. Dessa forma, algo que gerou retaliações da federação francesa ao atleta, pressão da mídia e uma revolta sem precedentes dos companheiros em apoio a Nico. Diante de um vestiário em erupção, a África do Sul eliminou a França ao vencê-la na última partida da fase.

Dessa forma, ao dar voz à Anelka, o ex-jogador desmente os fatos ocorridos e se coloca como vítima do sensacionalismo da mídia. Assim, ao trazer depoimentos de amigos e de personalidades do futebol que estiveram presentes na concentração francesa, o filme reafirma o caráter do ex-atacante e o ajuda na missão de reescrever a história.

O MÉRITO DE ANELKA – O INCOMPREENDIDO

Apesar de apresentar uma abordagem parcial dos fatos ao trazer uma única visão, estar nessa abordagem também o grande trunfo e mérito do documentário. Pois, ao permitir explicações do Anelka, a obra escancara a influência da mídia esportiva em produzir pautas inverídicas e construir um ambiente de crise e de polêmicas. Logo, ao menos por dois momentos, isso é explicitado no filme ao tratar da experiência na Espanha e ao narrar a celeuma na África do Sul.

Dessa forma, algo que não está longe de nós, brasileiros, não é um causo apenas europeu. Como jornalistas e formadores de opinião, é dever de quem escreve ou opera um microfone ter o cuidado com o relato real dos fatos. No caso Anelka, até mesmo a influência política nas palavras do então presidente Sarkozy é ponto de destaque na abordagem do documentário.

Posto isso, por mais que o jogador seja uma figura controversa e nem sempre tenha feito escolhas corretas, ainda assim, teve uma carreira vitoriosa. Muito por isso, Anelka – 0 Incompreendido é um documentário competente naquilo que se cumpre a fazer e uma grande recomendação para os amantes do futebol.

Foto Destaque: Divulgação / Netflix

Ricardo do Amaral
Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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