A trajetória da Azzurra ao vice-campeonato de 70

Após se passarem três décadas, a Itália bicampeã do mundo em 1934 e 1938 tinha perdido o protagonismo no cenário futebolístico. A saber, a tradicional camisa que tempos atrás despertava encantamento, temor, respeito e era sinônimo de conquistas, havia se tornado uma seleção comum, indiferente para os adversários. Entretanto, foi no ano de 1968 que a Azzurra acordou e reascendeu sua gana por vitórias e títulos. Isso porque, faturou o inédito caneco da Eurocopa em casa sobre a Iugoslávia nesse mesmo ano. E mais do que isso, em 1970 o time voltou a jogar bem uma edição de Copa do Mundo, e só não ergueu a taça pois teve o fantástico esquadrão Brasileiro composto por Carlos Alberto Torres, Gérson, Tostão, Jairzinho, Rivellino e Pelé como adversário na finalíssima.

Apesar do vice-campeonato para o Brasil em 70, aquela Itália encantou o mundo do futebol. Jogadores fantásticos e talentosíssimos como Enrico Albertosi, Dino Zoff, Tarcisio Burgnich, Giacinto Facchetti, Sandro Mazzola, Gianni Rivera, entre outros, ficaram marcados na história. Dessa forma, a Calciostoria aborda nesta semana a memorável campanha da Azzurra no fatídico Mundial de 1970.

TRAJETÓRIA ATÉ A FINAL

O pré copa (Eliminatórias)

Posteriormente a conquista da Euro de 1968, a seleção italiana vinha embalada e tinha boas perspectivas para fazer uma boa copa no México em 1970. Nas eliminatórias, a equipe mostrou solidez e triunfou sobre os adversários com certa facilidade. Na estreia, encarou País de Gales fora de casa e venceu por 1 x 0, gol do atacante Luigi Riva. Em seguida, empatou com a Alemanha Oriental fora por 2 x 2, dois tentos de Riva. Nos confrontos em seus domínios, os italianos atropelaram os galeses por 4 x 1 (três gols de Riva e um do versátil Sandro Mazzola) e os alemães por 3 x 0 (um de Mazzola, um de Riva e um de Angelo Domenghini), carimbando a vaga no Mundial.

Com Enrico Albertosi (goleiro), Tarcisio Burgnich (lateral-direito) e Giacinto Facchetti (lateral-esquerdo) como referências no setor defensivo, e Mazzola, Domenghini e Riva como os principais responsáveis pelo jogo ofensivo da Azzurra, o treinador Ferruccio Valcareggi tinha em mãos um excelente plantel e sabia que podia ir longe na Copa, ainda que a maioria da imprensa (sobretudo a italiana) não acreditasse no potencial do time.

A primeira fase e a polêmica envolvendo Mazzola e Rivera

Antes de viajar ao México, a Itália disputou dois amistosos. Empatou em 2 x 2 com a Espanha e venceu Portugal por 2 x 1. Contudo, o que mais chamou atenção nos últimos dias antes de embarcar para o Mundial foi a polêmica criada pelo técnico Ferruccio Valcareggi. De acordo com o comandante, os meio-campistas Mazzola e Rivera não poderiam atuar juntos e, para que os dois tivessem chances no time, cada um atuaria em um tempo. Esse rodízio envolvendo os dois jogadores acabou ficando conhecido como ‘staffetta‘, que significa “revezamento” em italiano.

Nos dois primeiros compromissos da equipe na Copa do Mundo Rivera não jogou, porém a Itália conseguiu bons resultados. O primeiro foi um triunfo sobre a Suécia por 1 x 0, com gol marcado por Domenghini em falha clamorosa do arqueiro Hellström. No confronto seguinte, em um empate sem gols contra o forte time Uruguaio, os italianos praticamente asseguraram vaga para segunda fase da competição. Surpreendentemente, no último jogo da fase inicial, contra Israel, Valcareggi escalou Mazzola e Rivera juntos na segunda etapa. A Nazionale empatou novamente em 0 x 0 e ambos os meias tiveram atuação muito abaixo do que podiam render, não produzindo rigorosamente nada na partida. Dessa maneira, com o pífio desempenho dos dois, o treinador ganhava motivos e a resposta que necessitava caso algum crítico o questionasse sobre sua opção de não colocar a dupla em campo.

Quartas de final, os anfitriões pela frente

Era chegada a hora do mata-mata. Nas quartas de final, a Itália teve pela frente os donos da casa, os anfitriões do torneio. José Luis González abriu o placar para os mexicanos aos 13′. Logo na sequência, o zagueiro Peña, contra, empatou para os azuis aos 26′. Já na etapa complementar, a Nazionale deslanchou e balançou as redes mais três vezes. Mazzola saiu para a entrada de Rivera. O meia deixou o seu aos 24′. Antes disso, o atacante Riva tinha desempatado com 19 minutos no relógio. O mesmo acabou fazendo mais um, aos 31′, fechando a goleada por 4 x 1, resultado que deu moral e confiança a equipe que encararia a Alemanha de Müller e Beckenbauer na semifinal.

A semifinal contra a Alemanha, o jogo do século

Em suma, o embate entre italianos e alemães era bastante comentado pela mídia e pelos torcedores antes da bola rolar. Seria o fortíssimo poderio ofensivo da Alemanha contra a solidez defensiva da Itália. Na etapa inicial, Roberto Boninsegna abriu o placar para a Azzurra. No entanto, nos minutos finais de jogo, Karl-Heinz Schnellinger deixou tudo igual no marcador, levando a peleja para prorrogação.

No tempo extra, as duas seleções fizeram um dos jogos mais incríveis da história do futebol mundial. Com cinco gols marcados, tal partida é chamada de “Jogo do Século” até os dias atuais. Confira aqui mais sobre esta partida. Em resumo, a Itália venceu por 4 x 3, com excepcional atuação de Rivera, autor de dois tentos. Em vista disso, seria natural a presença do meia na final contra o Brasil. Todavia, para Valcareggi, o craque deveria ficar no banco de suplentes. Erro crasso, que interferiria diretamente na decisão contra os brasileiros.

Final Brasil x Itália

Por certo, no dia 21 de junho, Brasil x Itália se enfrentaram na grande decisão da Copa do Mundo de 1970. Bicampeões do mundial, com os dois times recheados de craques, era a finalíssima perfeita. Apesar disso, por mais que muitos acreditassem em um jogo parelho e equilibrado, não foi o que aconteceu. Isso porque, a Azzurra não foi párea para o talento nato do time brasileiro. Com gols do Rei Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres, além de jogadas maravilhosas e um futebol esplendoroso, o Brasil fez 4 x 1 nos azuis.

Era inegável que a seleção brasileira mereceu a vitória e consequentemente o título, mas para a opinião pública da época, especialmente a imprensa italiana, a Itália poderia ter jogado melhor e ter agredido mais a Canarinho. Após o jogo, o técnico italiano recebeu duras críticas devido a ausência de Rivera no confronto decisivo, que jogou apenas os cinco minutos finais. O camisa 14 vivia seu melhor momento no Mundial, e somente Valcareggi não notou isso.

O pós copa e a Azzurra de 70 marcada na história

Depois do mundial, a seleção italiana caiu bastante de produção. Não participou das duas Euros conseguintes e fracassou no Mundial de 1974, disputado na Alemanha Ocidental. Já em 1978, ficou com a 4ª colocação na Copa realizada na Argentina.

Mesmo que não tenha ficado com o título mundial, a seleção italiana campeã da Eurocopa em 1968 e vice-campeã do mundo em 1970 merece muito respeito e lembranças. Até os dias de hoje, é considerada por seu próprio povo como uma das melhores da história do pais, não só pelo fato de ter diversos craques e lendas do futebol em praticamente todas as posições, mas também por ter recuperado o orgulho do italiano em torcer pela Azzurra. Enfim, um time histórico.

Guilherme Calvano
Sou Guilherme Calvano, carioca de 19 anos e jornalista em formação pela Universidade Estácio de Sá (UNESA- RJ). Apaixonado por esportes, sobretudo futebol e basquete, enxerguei no jornalismo a oportunidade perfeita de trabalhar com o que mais gosto! Aqui no Futebol na Veia sou redator líder da editoria de futebol Italiano.

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