A coluna O Gajo Conta narra a epopeia do Carcavelinhos, campeão do Campeonato de Portugal, em 1927/28 (Foto: Reprodução / Diário de Notícias)

Olá, amigos e amigas de Brasil! A história que estarei prestes a contar é daqueles causos que apenas quem vivenciou pode ratificar sua existência, caso contrário, poucos acreditariam. Não é fábula, é o relato verdadeiro de um grupo de operários do bairro de Alcântara que, contra todas as limitações, venceu os grandes. Assim, 1928 foi um ano que ficou marcado por uma das vitórias mais sensacionais e inesperadas do nosso centenário futebol. Dessa forma, O Gajo Conta a epopeia do Carcavelinhos, modesto emblema que triunfou na primeira grande competição portuguesa: o Campeonato de Portugal.

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SEU NOME: CARCAVELINHOS FUTEBOL CLUBE

Dessa forma, fundado em 1912, por um pequeno grupo de operários do bairro de Alcântara, o Carcavelinhos vivia às margens dos grandes, especialmente de Lisboa. Naquela época, quem dominava a cena esportiva portuguesa era o trio lisboeta Sporting, Benfica e Belenenses. No entanto, alguém ousou quebrar essa hegemonia. Apesar de sua popularidade local, o clube ainda era pequeno e poucos acreditavam em algum mínimo sucesso na principal competição portuguesa.

Logo, a edição do Campeonato de Portugal de 1927/28 ficou marcado pela grande quantidade de equipas participantes, ao todo, 25 emblemas. Assim, além de seus campeões regionais, algumas associações, como Lisboa e Porto, inscreveram seus segundos, terceiros e quartos colocados. Além disso, o alto número de golos foi destaque, com 147 marcados em 25 partidas, imagina se eu estivesse a calçar as botas? No entanto, nada foi maior ao que se testemunhou a partir dos oitavos de final.

GOLOS EM LISBOA E PORTO

Todavia, antes da façanha, houve um período de fatos comuns… pois, a primeira ronda eliminatória aconteceu sem muitas surpresas, mas com várias goleadas. Assim, os maiores gritos de golos foram testemunhados em Lisboa, no mítico Campo Grande. Já em seu primeiro confronto, Sporting aplicou um pesado 18 x 0 no desnivelado Torres Novas, naquela que seria a maior goleada de sempre do Campeonato de Portugal.

Enquanto que na cidade de Porto, sua equipa mais representativa, o Futebol Clube do Porto, bateu o Villa Real, por 13 x 1, com três hat-tricks. Entre os goleadores, destaque para Acácio Mesquita, que se tornaria o melhor marcador dos Dragões daquele torneio, com quatro tentos. Logo, ainda no Campo do Bessa, o Boavista venceria o Lusitano, por 8 x 0. Por fim, para fechar a rodada tripla na cidade, o Leça superou o experiente Braga, por 2 x 1.

A ENTRADA DO CARCAVELINHOS… E DO BENFICA

Sentiu falta do Benfica? É que naquela época, algumas equipas acabavam por entrar apenas em fases mais graúdas das competições, foram os casos dos Encarnados, do Império… e do Carcavelinhos. Em seu primeiro compromisso, as Águias, lideradas pelo lendário Ribeiro dos Reis, passaram fácil pelo Sporting Fafe, que de Sporting só tinha o nome. Em seguida, os Leões também se qualificaram ao vencer o estreante Império, por 4 x 1. No entanto, o mesmo não se podia dizer do Porto, que enfrentava um ano difícil, especialmente em confrontos contra o Salgueiros.

Isso porque, o Gigante da Invicta não conseguiu passar pelo adversário e foi eliminado, por 2 x 1. Envergonhados, os Portistas desafiaram o Salgueiros para um novo embate e, novamente, não conseguiram vencer, dessa vez empataram em 2 x 2. Apesar disso, a história já começava a ser feita com o triunfo do Carcavelinhos diante do Beira-Mar, por 3 x 0. Muito embora, poucos soubessem que ali estava escrito o primeiro capítulo da mítica trajetória dos operários.

Equipa do Carcavelinhos em foto antes da partida pelas quartos de final (Foto: Reprodução / Museu Virtual do Futebol)
Equipa do Carcavelinhos em foto antes da partida pelas quartos de final (Foto: Reprodução / Museu Virtual do Futebol)

O CAMINHO ABERTO PARA O SONHO

Era chegada a fase de quartos de final e o sorteio definiu o defronte dos finalistas da edição anterior: Belenenses e Vitória de Setúbal. No entanto, com requintes de uma batalha campal, a partida ficou marcada por insultos, agressões e expulsões. Em campo, os Setubalenses venceram por 4 x 1, naquela considerada a final antecipada da competição. Enquanto que nas Amoreiras, o Sporting seguiu desfilando seu bom futebol e passou, sem problemas, pelo Barreirense com um petardo de 5 x 0.

Já os Benfiquistas tiveram trabalho para superar o União da Madeira, em sua única aparição na competição. Com ordens de Ribeiro dos Reis para atacar de todos os meios, o Benfica alcançou uma virada histórica, por 4 x 3, nos minutos finais. No entanto, se as Águias estiveram com a água no pescoço, o mesmo não se podia dizer do Carcavelinhos. Isso porque, os modestos operários tornavam o sonho algo factual ao golearem o Salgueiros, algozes do Porto, por 8 x 1!!

QUANDO O SONHO VIRA REALIDADE…

Hegemônicos na época, quase todos em Portugal davam como certo uma final entre Sporting e Benfica, as duas maiores equipas lisboetas. A bem da verdade, defrontariam adversários humildes nas meias-finais. E se a teoria se provou infalível para os Leões ao vencerem os Setubalenses por 3 x 1, a prática destruiu a festa benfiquista. Pois, nas Amoreiras, o Carcavelinhos escreveu seu primeiro grande triunfo nessa epopeia.

Logo, com um futebol dinâmico e artístico, o emblema de Alcântara não deu margem para contestações e venceu o Benfica por 3 x 0. Assim, todos os golos saíram na etapa complementar dos pés de José Domingos, duas vezes, e Carlos Canuto. Dessa forma, acontecesse o que fosse acontecer na final, este jogo já entraria para a história como mais um caso David contra Golias no futebol português. Os operários já tinham seu feito, mas não parariam por ai.

Lendários operários de Alcântara em 1927/28 (Foto: Reprodução / Museu Virtual do Futebol)
Lendários operários de Alcântara em 1927/28 (Foto: Reprodução / Museu Virtual do Futebol)

CARCAVELINHOS CAMPEÃO PORTUGUÊS

Com as malas prontas para o Brasil, em uma digressão à convite do Fluminense, o Sporting entrou naquela final com a festa preparada. No entanto, o Carcavelinhos iria tingir de cinza a alegria verde e branca. Logo, com um futebol de altíssima qualidade técnica, os Leões até iniciaram melhor. No entanto, aos poucos, a classe elegante dos Sportinguistas deu lugar a magia dos operários de Alcântara com José Domingos inaugurando o marcador.

Na etapa final, o Sporting correu atrás do prejuízo e Abrantes Mendes devolveu a igualdade. Após, o jogo bem jogado deu campo para agressões e cenas tristes de selvageria de ambas as equipas. Com a situação contornada, a magia retornou aos campos com mais um golo de José Domingos. Com a desvantagem, os leoninos desarmaram seu estilo de jogo e, mesmo assim, assistiram ao decreto final de Manuel Rodrigues, 3 x 1.

Final do Campeonato de Portugal entre Carcavelinhos e Sporting (Foto: Reprodução / Museu Virtual do Futebo)
Final do Campeonato de Portugal entre Carcavelinhos e Sporting (Foto: Reprodução / Museu Virtual do Futebo)

No fim, a festa antecipada em Lisboa mudou de bairro e estalou em Alcântara, o Carcavelinhos era campeão português. Um bairro popular que viveu seu dia de glória diante da jornada memorável de um grupo de artistas operários que com a bola nos pés fizeram mais do que vencer, foram campeões. Atualmente, a equipa se chama Atlético Clube de Portugal e revindica o título como de elite no processo de unificação das conquistas nacionais liderado pelo Sporting, rival da final histórica.

Foto Destaque: Reprodução / Diário de Notícias

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Ricardo do Amaral
"Alvíssaras! Sou Ricardo Accioly Filho, pernambucano de 27 anos, advogado e estudante de jornalismo pela Uninassau. Tenho como mote que “no futebol, nunca serão apenas 11 contra 11”; é arte, é espetáculo, humanismo, tem poder de mover multidões e permitir ascensões sociais. Como paixão nacional do brasileiro, o futebol me acompanha desde cedo, entretanto como nunca tive habilidade para praticá-lo, busquei associar duas vertentes de minha vida: o prazer pela leitura e o esporte bretão. Foi nesse diapasão que encontrei no jornalismo esportivo o elo de ligação que me leva a difundir e informar o que, nas palavras de Steven Spielberg, é o “mais belo espetáculo de imagens que já vi”."

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