Quando o árbitro Malang Diedhiou, de Senegal, apitou o início da partida entre Costa Rica e Sérvia, começou o quarto dia da Copa do Mundo da Rússia. Embora seja muito cedo para fazer qualquer prognóstico, uma vez que nem todas as seleções estrearam e, sobretudo, porque os primeiros jogos carregam aquela típica tensão de jogar um mundial. Porém, salta aos olhos a organização tática de alguns times, que, organizados, foram capazes de neutralizar esquadrões favoritos ao título.

A começar pelo jogo de abertura entre Rússia e Arábia Saudita, deixando de lado a debilidade das duas seleções, foi possível ver os donos da casa adotando o pressing, isto é, a pressão alta, que encurrala o adversário em seu campo de defesa. A ideia, basicamente, é recuperar a posse de bola o mais próximo do gol, para que as chances sejam amplificadas. Para isso, sem a bola, a equipe deve pressionar em bloco. É provável que os russos não adotem essa postura contra o Uruguai, uma equipe mais qualificada, capaz de quebrar as linhas com mais facilidade, mas, contra os frágeis sauditas deu muito certo. O resultado elástico, aliás, pode fazer a diferença na briga com o Egito pela classificação no Grupo A.

Pressing russo na Arábia (Foto: Leonardo Miranda)
Contra a Arábia, a Rússia adotou o pressing para recuperar a bola (Reprodução/Leonardo Miranda/Globo Esporte)

Falando no Uruguai, o desempenho abaixo da média da Celeste muito se deve ao padrão tático adotado pelos egípcios. Sem Salah, o expoente técnico da equipe, a ideia era fechar-se na defesa, a fim de separar o meio-campo uruguaio, rejuvenescido e com potencial para próximas competições, de uma letal dupla de ataque formada por Cavani e Suárez.

Os comandados de Óscar Tabárez bem que tentaram furar a muralha vermelha, mas sucumbiram à organização. Bem postados em campo, nada penetrava as duas linhas de quatro do Egito. Deu certo até os 44 minutos, quando a bola parada resolveu o jogo. Fica, então, um alerta para a sequência do Uruguai na Copa. Mesmo que não seja favorita ao título, a seleção sul-americana tem camisa e, por isso, enfrenta e enfrentará equipes que montarão um ferrolho em busca de um zero a zero salvador.

Defesa do Egito contra o Uruguai (Foto: Leonardo Miranda)
Bem armada, a seleção egípcia impediu a infiltração entrelinhas (Reprodução/Leonardo Miranda/Globo Esporte)

O mesmo aconteceu no jogo entre França e Austrália. Os representantes da Oceania se fecharam no campo de defesa. Convidaram os franceses para seu campo de defesa. Com três volantes em campo, Kanté, Tolisso e Pogba, faltou criatividade ao time de Deschamps. Não por acaso, o trio de ataque não foi tão municiado. Faltou ao time europeu explorar a velocidade de Griezmann, Dembelé e Mbappé. Pelo menos, a França venceu.

Vitória esta que faltou à Argentina. Apática para criar, o selecionado argentino sofreu para vencer o ferrolho islandês, carimbando o primeiro capítulo da romaria de Messi em busca do título que lhe falta. Com a bola rolando, todas as jogadas do time de Sampaoli passavam pelo pé do canhoto camisa 10. Em certos momentos, seus companheiros pareciam um tanto quanto omissos. Não havia aproximação, criatividade.

Messi, então, tornou-se presa fácil às compactas linhas dos vikings. Com muita inteligência, os islandeses deixaram o gênio do Barcelona longe da intermediária, onde cria jogadas letais. Por isso, o desempenho foi aquém das expectativas. Espera-se que a Nigéria atue de forma semelhante contra os sul-americanos. Assim, a Argentina deve jogar como um time, afinal, nem sempre Messi conseguirá tirar um coelho da cartola.

A marcação da Islândia contra a Argentina (Foto: Leonardo Miranda)
O 4-5-1 da Islândia sufocou Messi no empate decepcionante para os argentinos (Reprodução/Leonardo Miranda/Globo Esporte)

Das favoritas ao título, apenas a Espanha atuou como gente grande. A presença de Diego Costa como centroavante é uma metamorfose do consagrado esquema que elevou La Roja ao primeiro escalão do futebol mundial, o tiki-taka. Mudanças a parte, os espanhóis seguem fiéis à troca incessante de passes com linhas próximas. O time europeu mantém viva a tradição de ter um maestro, o regista, no meio-campo. É por essas e outras que ver o gênio Iniesta desfilar em campo é extremamente prazeroso.

Neste domingo, Brasil e Alemanha farão suas estreias. Os brasileiros devem enfrentar a Costa Rica e sua linha de cinco defensores. Sem muitas dificuldades, os sérvios conseguiram levar perigo ao gol de Keylor Navas diversas vezes. Não fosse o goleiro do Real Madrid, o placar de 1 a 0 teria sido mais elástico. Espera-se, então, que o novo quadrado mágico de Tite dê conta do recado. Por outro lado, os germânicos, sob a batuta de Joachim Low, devem ter a Suécia como adversário mais complicado.

A chave para transpor as barreiras táticas é o repertório das seleções. A Argentina, por exemplo, tem um gênio, mas carece de alternativas. Como conjunto, a França decepcionou. O Brasil é apontado como favorito, justamente por ter um craque, Neymar, e um esquema em sintonia. E, nesse contexto, falar da eficácia do coletivo alemão é mero pleonasmo.

A Copa está apenas começando, mas os idealizadores da cartilha do futebol moderno certamente estão felizes com a cada vez maior importância dos esquemas táticos dentro das quatro linhas.

André Siqueira Cardoso
André Siqueira Cardoso
Sou André Siqueira Cardoso, tenho 21 anos. Aluno de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), atualmente trabalho em VEJA, com a cobertura do noticiário político. Apaixonado por esportes, jogador de futebol até hoje, tenho o sonho de cobrir uma Copa do Mundo.

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