Desclausurando o Uruguaio é uma coluna semanal com o intuito de explorar histórias, curiosidades e tudo o que envolve o futebol bicampeão mundial. Por certo, o tema dessa semana será sobre a viagem do Club Atlético Cerro para Nova Iorque em 1967. Nesse período os cerrenses representaram a extinta equipe do New York Skyliners, em uma das primeiras edições do campeonato estadunidense. A competição era inteiramente formada por clubes estrangeiros, que foram literalmente alugados para representarem cidades dos EUA.

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A saber, o ano de 1967 foi importantíssimo para  futebol na terra do Tio Sam, afinal nessa época surgiram a North American Soccer League (NASL) e a National Professional Soccer League (NPSL). Ambas as ligas nasceram com o intuito de concretizar esse esporte nos EUA. A NASL nasceu primeiro e com o apoio da FIFA e da United States Soccer Football Association (USSFA), entidade máxima no futebol estadunidense. A ideia era inaugurar a liga somente em 1968. Entretanto, a rival, que nasceu depois, já possuía acordo televisivo com a emissora CBS. Além de ter 10 times formados e prontos para a ação ainda em 1967. Dentre eles estavam: Chicago Spurs, Oakland Clippers e Baltimore Bays, todos eles compostos somente com atletas dos Estados Unidos.

Em virtude disso, a NASL resolveu acelerar o processo e estreiar em 1967. Diferentemente de sua rival, a North American Soccer League não tinha times. Desse modo, Jack Kent Cook, Lamar Hunt e Steve Stavro, idealizadores da liga, resolveram literalmente alugar equipes da Europa e da América do Sul. O método, nenhum pouco convencional, consistia em trazer os elencos para representarem cidades dos Estados Unidos. Ou seja, o Wolverhampton-ING tornou-se o Los Angeles Wolves. Já os cariocas do Bangu eram o Houston Stars, assim como o Cerro do Uruguai, que representou a cidade de Nova Iorque via New York Skyliners. Além disso, a NASL mudou seu nome para United Soccer Association (USA).

cerro

Tabela com as equipes estadunidenses e seus respectivos elencos importados (Reprodução/Wikipedia)

 

 POR QUE O CERRO?

Por certo, a imagem acima mostra que a Europa foi a principal exportadora dos clubes para os Estados Unidos. Contudo, por que o Cerro e a saudosa equipe do Bangu também foram selecionados? Sem dúvida, a escolha desses dois times sul-americanos se deve ao apelo latino que os cartolas da USA tanto buscavam. Não atoa, pois o futebol sul-americano já era referência. Dessa maneira, ficou decidido em fechar com Cerro e Bangu. O time de Moça Bonita foi escolhida pelo fato de ser o atual campeão do Campeonato Carioca, certemente o estadual de maior prestígio naquela época.

Necessitando  de mais um time para a disputa da liga, os diretores da USA continuaram na América do Sul. O alvo era o Uruguai, que até 1967 já havia conquistado duas Copas do Mundo e duas Olímpiadas no futebol. Outro fator crucial para a escolha do paisito, foi tricampeonato do Peñarol na recém-criada Copa Libertadores, e a conquista do Mundial encima do Real Madrid em 1966. Assim, os representantes da liga bateram nas portas do campeoníssimo Peñarol e de seu arquirrival Nacional.

Em meio a toda essa rivalidade havia apenas uma coisa em comum: a recusa para disputar a United Soccer Association. A decisão de los dos más grandes, forçou os cartolas buscarem a terceira maior equipe do Uruguai, que nesse período era o Club Atlético Cerro. Os cerrenses aceitaram a proposta de US$ 250 mil, atualmente o valor gira em torno de R$ 1 milhão, arrumaram as malas e partiram rumo a Nova Iorque.

ELENCO

Curiosamente dentre os 17 jogadores comandados pelo treinador Ondino Viera para representar a equipe do New York Skyliners, havia um atleta de origem brasileira: Benedicto Ribeiro, que terminou como o artilheiro e melhor futebolista do Skyliners na competição. Além dos uruguaios Francisco Camera, Rúben Bareño, Hugo Cabral e Sergio Silva, dois argentinos também estavam no plantel: o goleiro Osmar Miguelucci e Luis Suárez.

A JORNADA NOS EUA

Conforme o regulamento instaurado pela USA, as 12 equipes participantes foram divididas em duas conferências contendo seis clubes cada. O New York Skyliners, trajado com o tradicional azul e branco do Cerro, ficou na leste, junto a Cleveland Stokers, Toronto City, Washington Whips, Detroit Cougars e Boston Rovers. Ainda segundo a regra, os primeiros colocado de cada grupo avançaria para a final. Outro critério utilizado pelos estadunidenses, esse bem pitoresco, era o de artilharia, que contabilizava o gol como dois pontos e a assistência valia um ponto.

O pontapé inicial da United Soccer Association se deu no dia 28 de maio de 1967, o duelo inaugural foi entre Houston Stars (Bangu) e Los Angeles Wolves (Wolverhampton). Naquele dia o estádio Astrodome recebeu 34,965 torcedores, que testemunharam o empate de 1 x 1. Assim como todas as outras equipes, o Bangu utilizou um estádio de beisebol, no caso o reduto do Houston Astros. Os uruguaios do Cerro utilizaram o mítico estádio Yankee, localizado no bairro do Bronx, Nova Iorque.

Skyliners 67 - Aguenten Che

 

 

Elenco do New York Skyliners. Benedicto Ribeiro está com a camisa 8. (Reprodução/NASL Jerseys)

A estreia do cerrenses, ou melhor, do NY Skyliners na liga aconteceu no mesmo dia do triunfo carioca, e o placar foi igual, 1 x 1, diante do Toronto City (Hibernians). Os 21,781 tocedores presentes no reduto Yankee se decepcionaram com a falta de gols, mas seguiram acompanhando a mais nova equipe da Big Apple. Os adeptos nova-iorquinos esperaram sete jogos para finalmente sentirem o gosto de uma vitória.

Nesse interím, aconteceu um episódio no mínimo curioso. Exatamente 20 dias depois de seu debut, o NY Skyliners tinha um duelo marcado diante do Chicago Mustangs, representado pelos italianos do Cagliari. A saber, o jogo seguiu sem nenhum tipo de problema, mas nos minutos finais alguns torcedores do Chicago invadiram o gramado e foram em direção do juiz. O árbitro Leo Goldstein foi agredido pelos adeptos e decidiu terminar a partida antes do apito final, sacramentando o empate sem gols.

O GOL EM GORDON BANKS

No dia 25 de junho, em uma das últimos jogos do calendário, o New York Skyliners duelou ante ao Cleveland Stokers (Stoke City), do lendário goleiro Gordon Banks. Os Stokers estavam há oito jogos sem perder. Por outro lado os uruguaios não venciam desde o início do torneio. Todavia, o plantel inglês sucumbiu ao futebol sul-americano pelo placar de 2 x 1. O destaque ficou para o brazuca Benedicto Ribeiro, que marcou um golaço com direito a drible no arquero Banks.

Conforme o regulamento instaurado pela United Soccer Association, o 1º colocado de cada conferência avançaria para final. Contudo, o New York Skyliners terminou na 5ª e penúltima posição com seis derrotas, quatro empates e apenas duas vitórias. A liderança ficou com o Washington Whips, que enfrentou o Los Angeles Wolves na decisão. Os Wolves levaram a melhor pelo placar de 6 x 4.

Com o fim do pitoresco torneio, a United Soccer Association (USA)  fundiu-se com sua rival, a National Professional Soccer League (NPSL). A fusão teve como resultado a criação da North American Soccer League (NASL). Além disso, a Madison Square Garden Corporation, empresa que detinha os direitos do Skyliners, resolveu descontinuar a franquia. O Cerro retornou para o Uruguai e terminou na 3ª colocação do Campeonato Uruguaio de 1967, atrás apenas de Peñarol e Nacional respectivamente.

O RETORNO

Em meados de 2014, o New York Skyliners volta à vida. Só que dessa vez a equipe renasceu com o intuito de formar jovens atletas. Nesse retorno, o Cerro do Uruguai fez uma parceria onde garotos estadunidenses, principalmente os residentes de Nova Iorque, foram selecionados para fazer o intercâmbio no paisito.

Foto destaque: Reprodução/NASL Jerseys

Luciano Massi
Luciano Massi
Me chamo Luciano Massi, tenho 20 anos, sou paulistano. Estou no 6º semestre do curso de Jornalismo na Universidade Anhembi Morumbi. Desde criança fanático pelo futebol dentro e fora das quatro linhas, histórias que vão além do esporte. Produzo o Derbicast, podcast voltado ao futebol alternativo, dando enfâse aos esquecidos. Entretanto, nunca me dei bem com a bola...

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