Regiani Ritter: dos palcos aos gramados

A voz feminina nos gramados, Regiani Ritter, conta como foi sua carreira nos jogos de futebol

Regiani Ritter foi uma das primeiras mulheres a cobrir futebol em campo. Trata-se de uma referência no jornalismo esportivo brasileiro, pois conseguiu manter-se na profissão apesar do machismo, conquistando seu espaço em uma área completamente dominada pelo sexo oposto.

Nascida em Ibitinga, interior de São Paulo, a radialista e jornalista saiu de sua cidade natal aos 11 anos, com o intuito de trabalhar como atriz na capital paulista.

Hoje, aos 71 anos, continua trabalhando na Rádio Gazeta como apresentadora dos programas Disparada no Esporte e Revista Geral, além de continuar atuando como cronista. É reconhecida pela Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo, que criou em 2010 um troféu com seu nome para premiar as mulheres que mais se destacam na área de editoria esportiva.

 Futebol Na Veia -Antes de se tornar jornalista, você era atriz. Qual o motivo de ter abandonado a carreira de atriz e como você chegou ao esporte?

Regiani Ritter -Fui atriz durante muito tempo. Comecei na TV Tupi, tinha 16 anos no meu primeiro personagem. Quando mais jovem, eu queria ser advogada, me via nos tribunais. Mas, não consegui fazer direito, então, falei: vou ser atriz. Bati na porta das emissoras, fui aceita na Tupi, onde trabalhei por quatro anos como atriz. Depois eu sai, e fui garota propaganda na TV Cultura. Eu sou aquariana e a rotina me cansa muito, tanto que me casei 3 vezes. Depois entrei na TV Excelsior, para trabalhar nos programas de humor, porém, meu marido, na época, era totalmente avesso a minha profissão, então, dei um tempo na carreira. Após uma fatalidade, eu resolvi voltar, meio “zureta”, sem saber onde estava. Um casal de amigos me sugeriu trabalhar em rádio. “Legal, uma experiência nova”, eu adorava novidades e desafios. Então, entrei na gazeta, para fazer um programa musical com variedades, e tinha sempre um quadrinho falando de esporte. Depois eu fui convidada para cobrir a ausência de um repórter que ficaria dois meses com a seleção brasileira. Topei no ato. Era outro desafio, e agora eu vou para valer, né? Vou ser repórter esportiva, me aguardem.

 FNV – Na época em que você iniciou sua carreira jornalística se inspirava em alguém?

RR – Olha, tinha alguns repórteres que eu gostava. O Wanderley Nogueira, Luis Carlos Quartorollo, Roberto Carmona e Osvaldo Pascoal. Mas assim, nem dava muito para eu me inspirar, pois havia diferenças. Por conta do fato de eu ser mulher, ter a voz diferente, tudo diferente.

FNV -Você alega que não é a pioneira no jornalismo esportivo, mas que foi a primeira a se manter nele. Qual o motivo das mulheres não se manterem na área na época em que você iniciou?

RR -Muitas pessoas confundem que sou a pioneira, e eu não sou. A diferença é que fiquei. Quando cheguei, algumas estavam cobrindo esporte, elas iam pautadas para os treinos. Dificilmente iam para jogo e saiam, iam para outras editorias. Eu descobri porque, anos depois: fiquei 84 dias, em 1993, com a seleção brasileira. Desde a granja Comary, em Teresópolis fazendo os jogos fora de eliminatórias. Voltamos para o Brasil para fazer os jogos de dentro. Eu fiquei 84 dias sem voltar para casa, que marido aguentaria isso? Que namorado ou filho aguentaria isso? Você trabalhando com 40 homens, às vezes, mais que isso. Dois ou três meses fora de casa. Elas tinham interesse maior em formar família, namorado, namorada, sei lá. Mas ninguém aceitaria. Eu já tinha superado essa fase afetiva, sentimental, quase que sexual, porque eu não comecei novinha no jornalismo esportivo. Eu estava com 34/35 anos, já tinha mesmo superado. Aquela fatalidade antes de vir para a Gazeta, era exatamente a perda da minha cara metade.

Então me dediquei ao trabalho, sem tristeza, sem apelo, sem desespero, mas eu trabalhava uma hora a mais. Ficava para o compensar o fato de ser mulher. Eu tinha sempre uma notícia a mais.

Reprodução / Torcedores.com

FNV -Você ficava uma hora a mais todos os dias, e acabou encontrando com o Zagalo, em uma  cobertura esportiva na Granja Comary, como foi esse encontro?

RR -Estávamos juntos fazia um mês, e eu ficava uma hora a mais todos os dias. Quando se encerrava o dia de trabalho, os jogadores e a comissão técnica subiam para os alojamentos. Não tínhamos acesso, mas a sala de imprensa ficava aberta até o último repórter ir embora. E eu com meu operador e o motorista da rádio, ficávamos lá. De vez em quando descia um roupeiro, auxiliar do roupeiro, mordomo, o cara que carrega as malas. Invariavelmente eles contavam as coisas para a gente, eles eram fontes inesgotáveis de informações lá de cima. Conviviam com os jogadores, com a comissão técnica, com os dirigentes. Contavam as brigas e eu não tinha intenção nenhuma de levar para o jornalismo sensacionalista, só levava as coisas que eram notícias sem sensacionalismo. Um dia eu tô lá, desanimada, já fazia 40 minutos que todo mundo tinha ido e não descia ninguém. Desceu o Zagalo, que era auxiliar técnico do Carlos Alberto Parreira, técnico do tetra de 94. Ele olhou para mim e perguntou o que eu estava fazendo ali. Perguntei o que ele fazia aqui. Ele disse que estava sediado ali. Eu disse que também, estava trabalhando. Ele disse que também estava trabalhando. Ok, empatamos, vamos conversar? E ele disse que sem microfone. Era esse o objetivo, ai nos sentamos e conversamos por uns 25/30 minutos e me contou coisas de arrepiar a sola do pé. Coisas que eu podia contar e coisas que eu não deveria divulgar. E no fim,concordou em gravar. Fez um belíssimo depoimento e aquela era uma matéria que ninguém tinha.

FNV – Como era a sua relação com as torcidas? No início eles estranharam a presença de uma mulher em campo?

RR -No início foi fantástico, foi muito bom. As minhas matérias, na rádio Gazeta, tinham uma penetração muito grande. Eu trabalhei sempre com muita seriedade, evitava fazer brincadeiras que outros repórteres faziam. Quando o homem brinca, ele pode. Se a mulher brinca, ela é burra, tá falando o que não sabe, o que não precisa, o que não deve. O homem erra, passa batido. A mulher erra, não devia estar lá. Devia estar no tanque, no quarto, no fogão. Aquelas coisas horrorosas que a vida inteira a gente ouviu. A torcida e os jogadores me receberam muito bem. O meu problema, no começo, foram os meus colegas. O meio se rejeita, todo mundo sabe que a competição é muito covarde, muito cruel. Defini com o tempo 3 classes de companheiros de trabalho. A primeira categoria me recebeu muito bem e com muita naturalidade. Eram os bons, aqueles que não temiam nada e ninguém. A segunda era a que me recebeu meio estranho, com o pezinho atrás. Eram os médios porte. E aqueles que me receberam com vontade que eu morresse. Eram os fracos, os maus, e tinha, não era pouco não. Tem até hoje. Eu fui administrando isso.

FNV – Tem algum acontecimento especial na sua carreira que tenha te marcado mais?

RR -Olha, o dia em que eu pisei pela primeira vez no estádio do Boca Juniors, La Bombonera, eu senti um impacto muito grande. Quando eu vi aquela história, aquele Boca Juniors, aquele modo Maradona. Ali era o estádio, o clube de coração dele, onde ele jogou. Aquela torcida enlouquecida, fantástica. Pensei “cheguei aqui, eu cheguei no La Bombonera”. Talvez tenha tido um impacto maior do que chegar no Estádio Rose Bowl, na Copa do Mundo.

Outro jogo que me impactou muito, foi um jogo que fiz no Pacaembu, não me pergunte quando. Foi um Palmeiras x São Paulo.

FNV – Você tem algum time do coração?

RR -Tenho. No passado, eu não falava. Tem o fato de eu ser mulher, falar pro time que torce, perde metade da credibilidade para os outros.

Eu sou palmeirense. Nasci numa família extremamente corinthiana e me tornei palmeirense no dia em que fui ver um jogo com o meu pai no Pacaembu. Ele me levou na marra, eu obriguei. A gente morava no interior, e veio para São Paulo, ele teve de me levar.

Era um Corinthians x Palmeiras. O dia em que ele me levou, claro que sentou na torcida do Corinthians e nem me explicou o que era aquilo, e do outro lado estava a torcida do Palmeiras. De repente uma gritaria no estádio e do lado de lá abriram bandeiras, sacudiam, gritavam. Eu fiquei vidrada, hipnotizadA por aquilo. Do meu lado, todo mundo gritando e xingando. “Pai, o que aconteceu?” Ele fez um troço na minha cabeça. “Pé frio, gol daquela droga, daquela porcaria de Palmeiras”. Naquele dia eu senti paixão pelo Palmeiras. Do outro lado, só alegria. Do lado de cá, só palavrão, xingamento, gente com lágrimas nos olhos. E meu pai dando um treco na minha cabeça.

FNV – Durante um tempo, você foi setorista do São Paulo. Tem alguma história para contar sobre o clube?

RR -Tem uma história de um conselheiro que pediu para eu deixar o vestiário, pois lá não era permitido mulher. Fazia um ano que eu entrava no vestiário. Olhei para a cara dele e perguntei quem ele era. “Eu sou conselheiro, estou pedindo, por gentileza, que você se retire”. Eu disse que não sabia e agradeci, sai, fui para o saguão e deixei meu câmera lá dentro. Aí passou o diretor de marketing e disse para eu ir trabalhar. Eu falei que não podia, pois fui expulsa, enxotada no vestiário. Ele disse que eu deveria voltar. Não ia ficar para lá e para cá. Um fala para entrar, outro para sair. Disse que não voltaria. Ele voltou com o presidente do clube, que me pediu para ir até o vestiário, ao menos mostrar quem foi o indivíduo. “Ah, com prazer”. Eu sou aquilo que contraria todos os ensinamentos de Deus, vingativa. Ele questionou se eu gostaria de ir com ele, “de jeito nenhum”. Ele foi. Ele gesticulava muito, xingava muito. O indivíduo ficou pequeno. Depois o conselheiro falou que gostaria que eu o perdoasse, que desculpasse, pois ele não sabia que eu era uma profissional da imprensa. E questionou se eu perdoaria. Eu disse não, que jamais o perdoaria.

Reprodução / Mulheres Transformadas

FNV – Recentemente, tivemos casos de assédio e desrespeito contra duas repórteres.  Você acha que ao invés de evoluir, estaríamos retrocedendo nesse aspecto e que existe algo que possa ser feito para acabar com esse tipo de atitude?

RR -Não tem como acabar. No meu tempo isso não acontecia porque o mundo não era tão violento, o mundo não era tão mau. Você vê pela violência, em 2016, tivemos 70.200 homicídios no Brasil. A grande maioria jovens, negros e uma grande porção de mulheres. Numa pesquisa que eu fiz há alguns meses já, 10 mulheres morriam assassinadas por dia, vitmas de ex-companheiro, por parceiro ou então por estupradores, estranhos, desconhecidos. A violência degenerou. O Rio de Janeiro foi tomado de assalto, pelo crime organizado, tudo que a nossa polícia não é organizada. Hoje nós temos violência máxima e segurança zero. É natural que no futebol isso se reflita.

FNV – Quais são os planos para sua carreira no ano de 2018?

RR -Eu estou pensando em parar, em dar um tempo e parar definitivamente. Eu não parei ainda porque há um projeto na Rádio Gazeta. Esse projeto com os alunos me prendeu muito. Possivelmente, até o final do ano. É um desafio, os alunos chegam aqui tímidos, cheios de sonhos, de fantasia. Vem direto da sala de aula para aprender na prática. Graças a isso, eu devo ficar até o fim do ano. Depois disso, eu vou plantar alface, criar galinha e por umas tralhas no carro. Viajar o Brasil o inteiro.

Veja a entrevista na íntegra

Repórteres:

Bianca Gabriela

Bianca Marques

Daniela Damasceno

Mirelly Gusmão

Tiago Souza

Valeria Contado

*Entrevista realizada sob a orientação da professora Susan Liesenberg.

Valéria Contado

Sobre Valéria Contado

Valéria Contado já escreveu 64 posts nesse site..

Eu sou a Val Contado, quase jornalista há 3 anos, apaixonada por futebol há 22, desde quando meu pai colocou em mim o uniforme do nosso time do coração. Adepta da arte da resenha, falar e respirar futebol é o que eu mais gosto de fazer.

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