Opinião: Tite vive em uma realidade que não faz bem à seleção

Após amistoso inútil contra El Salvador, treinador voltou a falar com elegância, para esconder um discurso vazio e dispensável

Tite não tem culpa da CBF ser corrupta. Também não deve ser apedrejado pelo fato da Confederação que comanda nosso futebol ter vendido os direitos dos amistosos da seleção brasileira para uma empresa que pensará única e exclusivamente em seus interesses, em detrimento da qualidade do futebol apresentado pelo eventual adversário. Contudo, ele é extremamente nocivo quando é prolixo em suas coletivas de imprensa, a fim de mascarar e enfeitar algo que não existe ou que é desnecessário.

Jogar contra El Salvador não deveria sequer ser cogitado pelos cartolas brasileiros. A não ser, é claro, que haja um inusitado cruzamento em Copas do Mundo, por exemplo. Mas, quando da realização do jogo, procurar pelo em ovo, como diz o ditado popular, é extremamente dispensável, dada a disparidade técnica gritante entre os adversários. Ao término do jogo, Tite, o encantador de serpentes, procurou exaltar, em sua coletiva de imprensa, a ”retomada de uma equipe que é alegre e agressiva para jogar”. Disse, ainda, que sua equipe ”tem o DNA do gol, de vertical, de agredir e pressionar” e, por fim, exaltou que jogaram ”constantemente com a pressão alta e conseguimos trabalhar o tempo todo com essa rotação”.

Pura balela!

Tite insiste em manter um discurso requintado, cheio de conceitos. Desde o fracasso na Copa, não fez um mea culpa em relação ao nó tático que levou de Roberto Martínez, treinador da Bélgica. Não teve, logo ele, a humildade de reconhecer o abismo técnico e tático existente entre sul-americanos e europeus. Nos bastidores, blindou Neymar, que virou chacota pelas quedas no Mundial, e agora lhe entregou de forma definitivamente a braçadeira que já foi de Carlos Alberto Torres, Dunga e Cafu. O mais recente equívoco se deu com a convocação de jogadores como Dedé e Lucas Paquetá, mesmo sabendo da importância de uma semifinal de Copa do Brasil.

Apoiando-se nos conceitos do próprio Tite, ser vertical, agredir, rotacionar e pressionar são obrigações quando se joga contra os pobres salvadorenhos, que tinham tremenda dificuldade para trocar mais do que dois passes. Neste sentido, pensando no futuro próximo, não é de se esperar uma atuação diferente do selecionado da Arábia Saudita, próxima seleção que jogará contra a verde e amarela pentacampeã.

Deste inútil amistoso contra El Salvador, 72ª seleção do ranking da FIFA, é positiva apenas a atuação de Arthur, um monstro, um completo meio-campista, na mais pura acepção da palavra. Neste momento, você pode retrucar este argumento dizendo que a fragilidade dos adversários favorece o jogo do ex-gremista, o que de fato é verdade. Mas o jogador do Barcelona, por mais jovem que seja, não precisa provar nada a ninguém. Com a bola, não erra passes – o que é obrigação, mas que acabou tornando-se virtude, em razão dos altos índices de erro da maioria dos chutadores de bola. Arthur dita o ritmo de jogo, sabe cadenciar e acelerar. Sem a bola, abre espaços para os companheiros, ocupa as entrelinhas e cria, recorrendo ao ”tatiquês” que Tite tanto ama, superioridade numérica. Usando outro termo do filósofo Adenor, é a personificação do ritmista que o técnico tanto quis ter levado para a Copa – e que fez muita falta, como esperava-se.

Arthur não é volante ou meia. O rótulo de brucutu não lhe cabe. Tampouco o de pifador, o de articulador. Trata-se de um meio-campista completo, daqueles que, segundo o ”profê” Osorio, executa, com primazia, o área a área, ou melhor, o box to box, para citar outra expressão do tatiquês.

Digressões a parte, é importante ressaltar que Tite não é mais uma unanimidade. Seja pelo fracasso na Copa, seja pelas monótonas entrevistas conceituais. É extremamente positivo para o futebol brasileiro que a imprensa, do blogueiro independente ao redator-chefe do mais prestigiado veículo esportivo, se posicione contra essa realidade paralela que o técnico da seleção tenta insistentemente criar e transmitir.

A Copa do Mundo nos mostrou que há, sim, uma significativa diferença entre o futebol apresentado aqui e no Velho Continente. Seleções mais limitadas aprenderam a ocupar espaços, impor barreiras intransponíveis e propor um jogo físico, que dificulta a vida de qualquer genial camisa 10. Deste lado do mar, penamos para inovar ou para encontrar uma metodologia de jogo que possa nos conduzir a um título mundial, cobiçado desde 2002.

O falar elegante pode ser anestésico e simpático, mas não transformará o Brasil em campeão.

Tite acerta e erra, tem méritos e demérito. Como outro qualquer.

Ultimamente, porém, tem conseguido despertar a pulga que reside atrás de nossas orelhas nos momentos mais serenos, como um amistoso contra El Salvador.

André Siqueira Cardoso

Sobre André Siqueira Cardoso

André Siqueira Cardoso já escreveu 283 posts nesse site..

Sou André Siqueira Cardoso, tenho 20 anos, e curso Jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, USP. Sempre fui apaixonado por esportes e tenho o sonho de ser um jornalista que trabalhe na área esportiva, seja como comentarista, repórter ou apresentador. Aprecio uma boa partida de futebol, independentemente das equipes que estejam se enfrentando. Possuo um blog, no qual escrevo textos para expor minhas opiniões acerca de tudo o que acontece no futebol. Dentro do jornalismo, admiro e me espelho em nomes como Paulo Vinícius Coelho, Juca Kfouri, Thiago Leifert, Alexandre Praetzel e André Rizek.

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