Opinião: a bola parada como artimanha

Copa do Mundo evidencia como uma jogada treinada pode definir uma partida

O gol de Umtiti que carimbou o passaporte francês para a final da Copa do Mundo foi o 158º gol da competição. Destes, 72 saíram de jogadas de bola parada, o que representa pouco menos de 46% do total. O valor, que chama a atenção, relaciona-se com a supervalorização de esquemas táticos, cada vez mais importantes no dito futebol moderno. A bola parada é, antes de qualquer coisa, uma artimanha. Nas cobranças de falta, sobretudo as frontais, esse aspecto é ainda mais clarividente. Traz à tona o caráter lúdico inerente ao futebol e, acima de tudo, reforça o saudosismo que afaga a memória dos mais apaixonados e vividos. Falar de cobrança de falta é exaltar Zico, Marcelinho Carioca e tantos outros deuses que habitam no Olimpo do futebol.

Algo semelhante se aplica às demais jogadas. Com a bola na marca da cal, vencer os goleiros e todo um staff – cada vez mais munido de informações sobre a forma como cada batedor se porta – não é das tarefas mais fáceis. Nos escanteios e nas faltas laterais, não se trata apenas de levantar a bola na área, lotada de zagueiros e volantes. Não por acaso, há uma preocupação cada vez maior com a criação de jogadas ensaiadas e com o posicionamento das equipes dentro da área.

Este tipo de jogada ganha ainda mais destaque em um contexto no qual os esquemas táticos têm dificultado que times mais talentosos vençam equipes mais limitadas. Na Rússia, as linhas compactas, forma pomposa de se referir às retrancas, e o preparo físico de algumas seleções foram obstáculos quase intransponíveis durante alguns jogos. Foi desta forma que Irã, Marrocos, Egito e Costa Rica complicaram as vidas de Espanha, Portugal, Uruguai e Brasil, respectivamente.

Decorre exatamente deste cenário a importância da bola parada. Especializar-se nestas jogadas, portanto, pode ser um diferencial. E fatal. O Uruguai, eliminado pela França nas quartas de final, marcou 4 de seus 7 gols assim. A Inglaterra, que pode chegar à final, foi às redes 11 vezes, sendo 8 delas saindo de cobranças de falta ou pênalti.

Quando o assunto é gol, é compreensível que as as jogadas construídas, como o golaço de Falcão em cima do Atlético-MG, em 1976, ou as impressionantes arrancadas de um fenômeno como Dener, sejam as preferidas dos torcedores. Mas, em um cenário de deterioração da qualidade técnica das partidas, relativizar a importância dos tentos anotados a partir de jogadas com a bola parada é um erro.

André Siqueira Cardoso

Sobre André Siqueira Cardoso

André Siqueira Cardoso já escreveu 288 posts nesse site..

Sou André Siqueira Cardoso, tenho 20 anos, e curso Jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, USP. Sempre fui apaixonado por esportes e tenho o sonho de ser um jornalista que trabalhe na área esportiva, seja como comentarista, repórter ou apresentador. Aprecio uma boa partida de futebol, independentemente das equipes que estejam se enfrentando. Possuo um blog, no qual escrevo textos para expor minhas opiniões acerca de tudo o que acontece no futebol. Dentro do jornalismo, admiro e me espelho em nomes como Paulo Vinícius Coelho, Juca Kfouri, Thiago Leifert, Alexandre Praetzel e André Rizek.

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