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O SHOW ESTÁ COMEÇANDO NA EUROPA
17/02/2005

Paulo Roberto Conde
pconde84@uol.com.br

Comecei a prestar mais atenção no futebol europeu depois que assisti à final da Liga dos Campeões de 1997, que reunia Juventus e Borussia Dortmund. A Velha Senhora era fortíssima, tinha Zidane e Del Piero no auge de suas formas e levava no currículo o título europeu do ano anterior. O combativo time alemão não possuía nenhuma grande estrela do esporte, talvez Mathias Sammer, mas não chegava a incomodar o favoritismo da equipe de Turim. Para o Borussia, o que viesse já era lucro. Nas semifinais, havia batido o poderoso Manchester United com uma vitória em pleno Old Trafford. Porém nada levava a crer que a zebra apareceria duas vezes na mesma edição do principal torneio interclubes do Velho Continente. 

Eis que, à base de muita organização tática e um sentido de eficiência infalível, o Borussia Dortmund, à época comandado pelo técnico Ottmar Hitzfeld - que levaria o Bayern de Munique a duas finais de Liga, conquistando uma delas – abriu 2 a 0 no primeiro tempo, dois gols de Riedle, um veterano da Copa de 1994. A Juve chegou a diminuir, mas sucumbiu após Ricken marcar um lindo gol por cobertura no goleiro Ângelo Peruzzi. 

Fiquei impressionado com a beleza do gramado, com a disciplina da torcida, com a iluminação do estádio e com aquele clima de final de Copa do Mundo. Entretanto, surpreendeu-me constatar que, por meio de um sistema de jogo definido e da conscientização tática dos atletas, o Davi podia vencer Golias. 

Embora acredite que a qualidade tem decaído ano após ano nos gramados europeus, em virtude do evolutivo aumento de equipes participantes, tornei-me fã daquele torneio. Confesso que tinha admiração pelo Barcelona, repleto de brasileiros talentosos durante todos esses anos. Ronaldo, Giovanni, Rivaldo, Ronaldinho. O clube catalão chegou bem perto de fazer uma final mágica contra o arquiinimigo Real Madrid em 2000, mas caiu na etapa anterior ante um inspirado Valencia, que perdeu naquele ano e no seguinte.

Time que me causa um misto de mistério e reverência, o Manchester United desde o início foi, a meu ver, um caso a ser estudado. Se você tiver a pachorra de analisar friamente o elenco desse time ao longo dos últimos anos, verá que poucas alterações foram feitas em sua formação e a maioria de seus jogadores é limitada tecnicamente. Porém, crescem quando põem a camisa dos diabos vermelhos. Ou você replicará dizendo que Roy Keane, Dennis Irwin, Dwight Yorke e Michael Silvestre são ou eram grandes jogadores? Não, não eram. Mas quando entravam em campo com a vermelhinha, os caras pareciam ter recebido, releve o trocadilho, o diabo no corpo.

Dizem que a história é contada pelos vencedores. A final de Liga dos Campeões mais legal teve o Manchester United como sobrevivente da batalha contra o Bayern de Munique, cujo palco foi o gigantesco Camp Nou. Os ingleses perdiam a taça por 1 a 0 quando o técnico Alex Ferguson resolveu lançar os atacantes Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskajer. A dupla, antes eternamente relegada a um plano secundário no plantel de Old Trafford, virou a partida de forma heróica em três minutos que tiraram o fôlego de qualquer um.

Para citar uma atuação marcante, das mais fantásticas que já vi, recordo-me da do argentino Fernando Redondo, pelo Real Madrid, contra o supracitado Manchester, em 2000. O time merengue vinha em crise. Não ia bem no Espanhol e estava na iminência de ser eliminado da Liga dos Campeões pelos ingleses, então detentores da taça. Após um primeiro tempo movimentado e sem gols, Redondo fez miséria na etapa complementar. Com passes precisos, marcação irrepreensível e um senso de liderança inerente aos que nascem para ser grandes guerreiros, Fernando levou o Real Madrid a um escandalizante resultado de 3 a 2 sobre o Manchester em pleno Old Trafford, onde os Diabos Vermelhos não conheciam uma derrota havia mais de ano. Mais tarde, o Real conquistaria o título.

O último grande jogo a que assisti se deu na temporada 2003. Três anos depois, Real Madrid e Manchester United reprisavam o duelo entre gigantes. Numa noite de gala, Ronaldo voltou a ser fenomenal. Fez três naquele Barthez, dos quais dois golaços, e provou a todos que não havia, e talvez não haja até hoje, atacante no mundo como ele. Por incrível que pareça, o Manchester ainda venceu aquele prélio, mas quem avançou foram os madrilenhos.

A última edição da Liga foi, a meu ver, a mais fraca de todas as mais recentes. Respaldo minha opinião na mediocridade dos semifinalistas: Porto, La Coruña, Mônaco e Chelsea. Credo. Cada jogo de doer. Dentre todos, a lógica apontaria o Chelsea como o virtual campeão, mas os filhinhos do magnata Roman Abramovich foram suplantados pelo insosso Mônaco. No fim, o Porto do competente José Mourinho arrebatou o troféu.

Em 2005, temos já nas oitavas-de-final cruzamentos fantásticos, que põem frente a frente grandes forças do continente, grandes campeões como Real Madrid e Juventus, Bayern de Munique e Arsenal, Barcelona e Chelsea, Manchester United e Milan. É um banho de futebol e de estrelas milionárias. Enfim, uma ótima prévia para a Copa de 2006. Todos os futuros astros do mundial estarão em campo, exceção feita a Robinho. Não sei se o agora recordista Vandelei Luxemburgo terá essa tarimba toda para insuflar de orgulho um Real Madrid combalido, que vem sofrendo de crise de identidade e não vence nada há quase dois anos. Também é impossível prever se Ronaldinho Gaúcho conseguirá derrubar a muralha pragmática que é o Chelsea. Ou mesmo se a invicta Internazionale aproveitará a escalada no Italiano para destronar o Porto. Mas, que importam os prognósticos? O bacana do futebol está em saber que ele é, de fato, uma surpresa. Esbaldemo-nos!

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