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Comecei a
prestar mais atenção no futebol europeu depois que assisti à final
da Liga dos Campeões de 1997, que reunia Juventus e Borussia
Dortmund. A Velha Senhora era fortíssima, tinha Zidane e Del Piero
no auge de suas formas e levava no currículo o título europeu do
ano anterior. O combativo time alemão não possuía nenhuma grande
estrela do esporte, talvez Mathias Sammer, mas não chegava a
incomodar o favoritismo da equipe de Turim. Para o Borussia, o que
viesse já era lucro. Nas semifinais, havia batido o poderoso
Manchester United com uma vitória em pleno Old Trafford. Porém
nada levava a crer que a zebra apareceria duas vezes na mesma
edição do principal torneio interclubes do Velho Continente.
Eis que, à base
de muita organização tática e um sentido de eficiência infalível,
o Borussia Dortmund, à época comandado pelo técnico Ottmar
Hitzfeld - que levaria o Bayern de Munique a duas finais de Liga,
conquistando uma delas – abriu 2 a 0 no primeiro tempo, dois gols
de Riedle, um veterano da Copa de 1994. A Juve chegou a diminuir,
mas sucumbiu após Ricken marcar um lindo gol por cobertura no
goleiro Ângelo Peruzzi.
Fiquei
impressionado com a beleza do gramado, com a disciplina da
torcida, com a iluminação do estádio e com aquele clima de final
de Copa do Mundo. Entretanto, surpreendeu-me constatar que, por
meio de um sistema de jogo definido e da conscientização tática
dos atletas, o Davi podia vencer Golias.
Embora acredite
que a qualidade tem decaído ano após ano nos gramados europeus, em
virtude do evolutivo aumento de equipes participantes, tornei-me
fã daquele torneio. Confesso que tinha admiração pelo Barcelona,
repleto de brasileiros talentosos durante todos esses anos.
Ronaldo, Giovanni, Rivaldo, Ronaldinho. O clube catalão chegou bem
perto de fazer uma final mágica contra o arquiinimigo Real Madrid
em 2000, mas caiu na etapa anterior ante um inspirado Valencia,
que perdeu naquele ano e no seguinte.
Time que me
causa um misto de mistério e reverência, o Manchester United desde
o início foi, a meu ver, um caso a ser estudado. Se você tiver a
pachorra de analisar friamente o elenco desse time ao longo dos
últimos anos, verá que poucas alterações foram feitas em sua
formação e a maioria de seus jogadores é limitada tecnicamente.
Porém, crescem quando põem a camisa dos diabos vermelhos. Ou você
replicará dizendo que Roy Keane, Dennis Irwin, Dwight Yorke e
Michael Silvestre são ou eram grandes jogadores? Não, não eram.
Mas quando entravam em campo com a vermelhinha, os caras pareciam
ter recebido, releve o trocadilho, o diabo no corpo.
Dizem que a
história é contada pelos vencedores. A final de Liga dos Campeões
mais legal teve o Manchester United como sobrevivente da batalha
contra o Bayern de Munique, cujo palco foi o gigantesco Camp Nou.
Os ingleses perdiam a taça por 1 a 0 quando o técnico Alex
Ferguson resolveu lançar os atacantes Teddy Sheringham e Ole
Gunnar Solskajer. A dupla, antes eternamente relegada a um plano
secundário no plantel de Old Trafford, virou a partida de forma
heróica em três minutos que tiraram o fôlego de qualquer um.
Para citar uma
atuação marcante, das mais fantásticas que já vi, recordo-me da do
argentino Fernando Redondo, pelo Real Madrid, contra o supracitado
Manchester, em 2000. O time merengue vinha em crise. Não ia bem no
Espanhol e estava na iminência de ser eliminado da Liga dos
Campeões pelos ingleses, então detentores da taça. Após um
primeiro tempo movimentado e sem gols, Redondo fez miséria na
etapa complementar. Com passes precisos, marcação irrepreensível e
um senso de liderança inerente aos que nascem para ser grandes
guerreiros, Fernando levou o Real Madrid a um escandalizante
resultado de 3 a 2 sobre o Manchester em pleno Old Trafford, onde
os Diabos Vermelhos não conheciam uma derrota havia mais de ano.
Mais tarde, o Real conquistaria o título.
O último grande
jogo a que assisti se deu na temporada 2003. Três anos depois,
Real Madrid e Manchester United reprisavam o duelo entre gigantes.
Numa noite de gala, Ronaldo voltou a ser fenomenal. Fez três
naquele Barthez, dos quais dois golaços, e provou a todos que não
havia, e talvez não haja até hoje, atacante no mundo como ele. Por
incrível que pareça, o Manchester ainda venceu aquele prélio, mas
quem avançou foram os madrilenhos.
A última
edição da Liga foi, a meu ver, a mais fraca de todas as mais
recentes. Respaldo minha opinião na mediocridade dos
semifinalistas: Porto, La Coruña, Mônaco e Chelsea. Credo. Cada
jogo de doer. Dentre todos, a lógica apontaria o Chelsea como o
virtual campeão, mas os filhinhos do magnata Roman Abramovich
foram suplantados pelo insosso Mônaco. No fim, o Porto do
competente José Mourinho arrebatou o troféu.
Em 2005,
temos já nas oitavas-de-final cruzamentos fantásticos, que põem
frente a frente grandes forças do continente, grandes campeões
como Real Madrid e Juventus, Bayern de Munique e Arsenal,
Barcelona e Chelsea, Manchester United e Milan. É um banho de
futebol e de estrelas milionárias. Enfim, uma ótima prévia para a
Copa de 2006. Todos os futuros astros do mundial estarão em campo,
exceção feita a Robinho. Não sei se o agora recordista Vandelei
Luxemburgo terá essa tarimba toda para insuflar de orgulho um Real
Madrid combalido, que vem sofrendo de crise de identidade e não
vence nada há quase dois anos. Também é impossível prever se
Ronaldinho Gaúcho conseguirá derrubar a muralha pragmática que é o
Chelsea. Ou mesmo se a invicta Internazionale aproveitará a
escalada no Italiano para destronar o Porto. Mas, que importam os
prognósticos? O bacana do futebol está em saber que ele é, de
fato, uma surpresa. Esbaldemo-nos! |