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POR UM POUCO MAIS DE ARTE NA SELEÇÃO BRASILEIRA
02/02/2005

Paulo Roberto Conde
pconde84@uol.com.br

Admirador das artes, Carlos Alberto Parreira é um esforçado pintor nas horas em que se vê livre das responsabilidades de comandar a principal seleção de futebol do mundo. Em seu atelier, pode ficar horas a fio rabiscando telas, misturando cores, pintando flores e o que lhe vier em mente. Segundo o próprio, é uma forma de escapar das pressões que recaem sobre qualquer um que se propõe a assumir o cargo de técnico da Seleção Brasileira.

Em sua terceira passagem pelo posto mais alto do comando técnico canarinho, este carioca de quase 62 anos parece ter relegado a um plano inferior a mais essencial das características do futebol brasileiro: sua tão apreciada arte, que é uma junção de fatores tais como a capacidade de improvisar, de criar o impensável em situações nas quais parece não haver margem para qualquer criação. Desde que voltou a ser técnico do Brasil, Parreira transformou-se, sistematicamente, em um coach, um treinador, o que é muito diferente de um técnico. Perceba que seu ar europeizado e seu estilo estrangeiro acentuam-se a cada nova convocação.

Parreira, de 2003 para cá, implantou na Seleção Brasileira a mentalidade de fazer o suficiente, o mínimo indispensável, para vencer. Nada de anormal para alguém que afirmava ser o gol “apenas um detalhe”. Placar de 1 a 0 para o Brasil, ainda que contra a Indochina, é motivo para sacar um atacante e pôr um zagueiro botinudo (os Lúcios da vida) e segurar o macilento resultado. Na última partida disputada pelas Eliminatórias para a Copa de 2006, conseguiu-se a proeza de perder para o Equador, e logo pelo placar admirado por Parreira, 1 a 0. A campanha do Brasil é tão fraca, por se tratar de um pentacampeão mundial, que, em 11 jogos, houve cinco empates (dois 0 a 0). Já fomos ultrapassados pelos argentinos e a classificação já não está tão assegurada como se dizia.

O Brasil joga nesses dias contra Hong Kong, não se sabe bem o porquê. E, a meu ver, estão sendo cometidas algumas injustiças nas convocações. O lateral-direito do São Paulo, Cicinho, joga mais bola que o Cafu e o Belletti juntos, e somadas todas as encarnações deles. Cicinho cruza melhor que Cafu, bate muito menos que Belletti, tem mais recursos que eles. Muitos alegam que ele não tem experiência para atuar com a amarelinha. Mas se ele continuar sem ter uma chance de demonstrar seu valor, não vai acumular experiência jamais, concordam leitores?

Outro caso de injustiça flagrante é o de Léo. Ele vem jogando um futebol melhor que o de Junior e, apesar de estar machucado, merece ser lembrado. Parreira, contudo, dá a entender que não abre mão daquela base do pentacampeonato, talvez por medo, talvez por conservadorismo.

Noutro dia, Parreira convocou o corintiano Ânderson para a vaga de Adriano, lesionado. Para mim, no lugar de atacante entra atacante. Se ele estava com um déficit na defesa, tudo bem, mas o Ânderson? Temos o Rodrigo, do São Paulo; o Neto, agora do São Caetano, revelado pelo Juventude no Brasileirão; ou, até, como bem lembrou Alberto Helena Júnior no Diário de S.Paulo de quarta-feira (02 de fevereiro), o Alex, do PSV, um dos mais escandalosos casos de fritura do futebol, execrado após o vexame do torneio pré-olímpico.

Pense melhor Parreira, analise melhor suas convocações. Não chame este ou aquele por conta do nome consagrado ou por uma seqüência de bons jogos. Acredito que o futebol, ao contrário daqueles que dizem que é momento, é continuidade. De estrelas de 15 minutos o mundo da bola está cheio. Cabe a você, Carlos Alberto, e tão-somente a você, selecionar quem está num processo contínuo de melhora (aí se encaixam Elano, Robinho e os outros de quem falei acima). Volte a ver com bons olhos a possibilidade de a Seleção Brasileira jogar com um mínimo indispensável de arte e deixar de lado o futebol pragmático.

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