|
Admirador das
artes, Carlos Alberto Parreira é um esforçado pintor nas horas em
que se vê livre das responsabilidades de comandar a principal
seleção de futebol do mundo. Em seu atelier, pode ficar horas a
fio rabiscando telas, misturando cores, pintando flores e o que
lhe vier em mente. Segundo o próprio, é uma forma de escapar das
pressões que recaem sobre qualquer um que se propõe a assumir o
cargo de técnico da Seleção Brasileira.
Em sua terceira
passagem pelo posto mais alto do comando técnico canarinho, este
carioca de quase 62 anos parece ter relegado a um plano inferior a
mais essencial das características do futebol brasileiro: sua tão
apreciada arte, que é uma junção de fatores tais como a capacidade
de improvisar, de criar o impensável em situações nas quais parece
não haver margem para qualquer criação. Desde que voltou a ser
técnico do Brasil, Parreira transformou-se, sistematicamente, em
um coach, um treinador, o que é muito diferente de um
técnico. Perceba que seu ar europeizado e seu estilo estrangeiro
acentuam-se a cada nova convocação.
Parreira, de
2003 para cá, implantou na Seleção Brasileira a mentalidade de
fazer o suficiente, o mínimo indispensável, para vencer. Nada de
anormal para alguém que afirmava ser o gol “apenas um detalhe”.
Placar de 1 a 0 para o Brasil, ainda que contra a Indochina, é
motivo para sacar um atacante e pôr um zagueiro botinudo (os
Lúcios da vida) e segurar o macilento resultado. Na última partida
disputada pelas Eliminatórias para a Copa de 2006, conseguiu-se a
proeza de perder para o Equador, e logo pelo placar admirado por
Parreira, 1 a 0. A campanha do Brasil é tão fraca, por se tratar
de um pentacampeão mundial, que, em 11 jogos, houve cinco empates
(dois 0 a 0). Já fomos ultrapassados pelos argentinos e a
classificação já não está tão assegurada como se dizia.
O Brasil joga
nesses dias contra Hong Kong, não se sabe bem o porquê. E, a meu
ver, estão sendo cometidas algumas injustiças nas convocações. O
lateral-direito do São Paulo, Cicinho, joga mais bola que o Cafu e
o Belletti juntos, e somadas todas as encarnações deles. Cicinho
cruza melhor que Cafu, bate muito menos que Belletti, tem mais
recursos que eles. Muitos alegam que ele não tem experiência para
atuar com a amarelinha. Mas se ele continuar sem ter uma chance de
demonstrar seu valor, não vai acumular experiência jamais,
concordam leitores?
Outro caso de
injustiça flagrante é o de Léo. Ele vem jogando um futebol melhor
que o de Junior e, apesar de estar machucado, merece ser lembrado.
Parreira, contudo, dá a entender que não abre mão daquela base do
pentacampeonato, talvez por medo, talvez por conservadorismo.
Noutro dia,
Parreira convocou o corintiano Ânderson para a vaga de Adriano,
lesionado. Para mim, no lugar de atacante entra atacante. Se ele
estava com um déficit na defesa, tudo bem, mas o Ânderson? Temos o
Rodrigo, do São Paulo; o Neto, agora do São Caetano, revelado pelo
Juventude no Brasileirão; ou, até, como bem lembrou Alberto Helena
Júnior no Diário de S.Paulo de quarta-feira (02 de fevereiro), o
Alex, do PSV, um dos mais escandalosos casos de fritura do
futebol, execrado após o vexame do torneio pré-olímpico.
Pense melhor
Parreira, analise melhor suas convocações. Não chame este ou
aquele por conta do nome consagrado ou por uma seqüência de bons
jogos. Acredito que o futebol, ao contrário daqueles que dizem que
é momento, é continuidade. De estrelas de 15 minutos o mundo da
bola está cheio. Cabe a você, Carlos Alberto, e tão-somente a
você, selecionar quem está num processo contínuo de melhora (aí se
encaixam Elano, Robinho e os outros de quem falei acima). Volte a
ver com bons olhos a possibilidade de a Seleção Brasileira jogar
com um mínimo indispensável de arte e deixar de lado o futebol
pragmático. |