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A MERCANTILIZAÇÃO DO FUTEBOL E A EXTINÇÃO DE SUAS FRONTEIRAS
07/01/2005

Paulo Roberto Conde
pconde84@uol.com.br

O maior sonho de Aílton Gonçalves da Silva sempre foi defender a seleção de seu país. Pai de Maria Alexandra e Fernanda Roseli, apareceu para o mundo do futebol em 1998, jogando pelo Guarani de Campinas. Meses depois, foi negociado com o Werder, de Bremem, tradicional clube alemão de uma pequena cidade alemã. Desde 15 de outubro de 1998, seus muitos gols o transformaram no 8º maior artilheiro da história do clube, atrás apenas de nomes como os Rudi Völler e Marco Bode.

Em seus 31 anos, a serem completados em julho, já passou por muitas bandas. Jogou no Santa Cruz do Recife, no Mogi Mirim e, é claro, no Guarani. Além-brasilis, defendeu clubes medianos do México. Foi artilheiro em lugares que passou; em outros, destacou-se pelo acerbado tamanho de seus lábios, que lhe renderam diversos apelidos, alguns pejorativos, pela carreira.

Nas estatísticas oficiais encontradas no site do Werder Bremem, porém, o pitaco sobre o desempenho pela seleção de seu país aparece zerado. Explica-se: embora lidere (há laguns anos) a artiharia da Bundesliga e, nesta temporada, seu time já tenha colocado cinco dedos na taça, o atacante continuou esquecido pelos técnicos da seleção brasileira. Seu sonho, como já foi dito, era jogar pela canarinho, se possível uma Copa do Mundo.

Qatar?

Recentemente, o futebol acompanhou o imbróglio criado em torno de Aílton. O jogador está vendido ao Schalke 04, também da Alemanha. É dos maiores artilheiros da Europa. O problema, no entanto, não está relacionado a essa transferência. Em manobra antes considerada lícita, Aílton receberia uma vultosa quantia para tornar-se cidadão do Qatar e defender a seleção de seu novo país.

O plano do país asiático é fortacer-se ao máximo para a disputa das eliminatórias continentais. Como o produto interno é bruto, lhes resta importar, pois lapidar talentos rquer um processo longo e custoso. Além de Aílton, outros jogadores também foram tentados à naturalização, caso do lateral Dedê, do Borussia Dortmund.

A FIFA, exercendo seu poder de entidade máxima no futebol, vetou as negociações, sugerindo ilicitude nos casos de naturalização motivados por dinheiro ou realização pessoal. Se o sonho de Aílton era jogar uma Copa do Mundo, talvez o conseguisse como qatariano.

Dois pesos e duas medidas

É no mínimo questionável a decisão de Blatter e seus sequazes, que, de bola, pouco entendem. A FIFA nunca antes havia barrado tentativas de naturalização. O leitor pode fruir do argumento que, a partir de uma negociação que envolvesse dinheiro, abrir-se-ia margem para uma comercialização de jogadores não mais a nível de clubes, mas de seleções nacionais. Seria o futebol sem fronteiras.

Entretanto, ponderemos o seguinte: o que dizer da França de 1998, que, em seu plantel, tinha um argelino, um guadalupense (será o correto?), um basco e outro africano?— casos de Zidane, Thuram, Vieira, Desaily e Lizarazu. Meu Deus, até a Argentina tinha representante naquela seleção—David Trezeguet.

O que disse a FIFA sobre isso à época? Coisa nenhuma. Como não disse nas naturalizações de brasileiros que passaram a defender o Japão; como não disse para Mazzola, Puskas, Di Stefano, Klose, Oliveirá, Francileudo.

Abre-se aí o fórum de debate: Aílton estaria sendo mercenário, ou apenas correndo atrás do sonho de jogar uma Copa do Mundo, já que tão relegado é em seu país natal? Qual o poder de a FIFA barrar transferências de cidadania? A julgar pelo desmando, crê-se que a entidade se utiliza de diferentes pesos e medidas.

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