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O maior sonho de
Aílton Gonçalves da Silva sempre foi defender a seleção de seu
país. Pai de Maria Alexandra e Fernanda Roseli, apareceu para o
mundo do futebol em 1998, jogando pelo Guarani de Campinas. Meses
depois, foi negociado com o Werder, de Bremem, tradicional clube
alemão de uma pequena cidade alemã. Desde 15 de outubro de 1998,
seus muitos gols o transformaram no 8º maior artilheiro da
história do clube, atrás apenas de nomes como os Rudi Völler e
Marco Bode.
Em seus 31 anos, a serem completados em julho, já passou por
muitas bandas. Jogou no Santa Cruz do Recife, no Mogi Mirim e, é
claro, no Guarani. Além-brasilis, defendeu clubes medianos do
México. Foi artilheiro em lugares que passou; em outros,
destacou-se pelo acerbado tamanho de seus lábios, que lhe renderam
diversos apelidos, alguns pejorativos, pela carreira.
Nas estatísticas oficiais encontradas no site do Werder Bremem,
porém, o pitaco sobre o desempenho pela seleção de seu país
aparece zerado. Explica-se: embora lidere (há laguns anos) a
artiharia da Bundesliga e, nesta temporada, seu time já tenha
colocado cinco dedos na taça, o atacante continuou esquecido pelos
técnicos da seleção brasileira. Seu sonho, como já foi dito, era
jogar pela canarinho, se possível uma Copa do Mundo.
Qatar?
Recentemente, o futebol acompanhou o imbróglio criado em torno de
Aílton. O jogador está vendido ao Schalke 04, também da Alemanha.
É dos maiores artilheiros da Europa. O problema, no entanto, não
está relacionado a essa transferência. Em manobra antes
considerada lícita, Aílton receberia uma vultosa quantia para
tornar-se cidadão do Qatar e defender a seleção de seu novo país.
O plano do país asiático é fortacer-se ao máximo para a disputa
das eliminatórias continentais. Como o produto interno é bruto,
lhes resta importar, pois lapidar talentos rquer um processo longo
e custoso. Além de Aílton, outros jogadores também foram tentados
à naturalização, caso do lateral Dedê, do Borussia Dortmund.
A FIFA, exercendo seu poder de entidade máxima no futebol, vetou
as negociações, sugerindo ilicitude nos casos de naturalização
motivados por dinheiro ou realização pessoal. Se o sonho de Aílton
era jogar uma Copa do Mundo, talvez o conseguisse como qatariano.
Dois pesos e duas medidas
É no mínimo questionável a decisão de Blatter e seus sequazes,
que, de bola, pouco entendem. A FIFA nunca antes havia barrado
tentativas de naturalização. O leitor pode fruir do argumento que,
a partir de uma negociação que envolvesse dinheiro, abrir-se-ia
margem para uma comercialização de jogadores não mais a nível de
clubes, mas de seleções nacionais. Seria o futebol sem fronteiras.
Entretanto, ponderemos o seguinte: o que dizer da França de 1998,
que, em seu plantel, tinha um argelino, um guadalupense (será o
correto?), um basco e outro africano?— casos de Zidane, Thuram,
Vieira, Desaily e Lizarazu. Meu Deus, até a Argentina tinha
representante naquela seleção—David Trezeguet.
O que disse a FIFA sobre isso à época? Coisa nenhuma. Como não
disse nas naturalizações de brasileiros que passaram a defender o
Japão; como não disse para Mazzola, Puskas, Di Stefano, Klose,
Oliveirá, Francileudo.
Abre-se aí o fórum de debate: Aílton estaria sendo mercenário, ou
apenas correndo atrás do sonho de jogar uma Copa do Mundo, já que
tão relegado é em seu país natal? Qual o poder de a FIFA barrar
transferências de cidadania? A julgar pelo desmando, crê-se que a
entidade se utiliza de diferentes pesos e medidas. |