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Passivo e com
uma postura que marca os derrotados, o Corinthians perdeu para o
São Paulo no último domingo. Tite ainda recebeu uma última chance
de agarrar-se a uma bóia quando foi marcado um pênalti duvidoso do
zagueiro tricolor Lugano em Bobô, que entrara havia pouco no
Corinthians. Coelho deu parecer que desencadeou o naufrágio total
alvinegro. A bola nas mãos de Rogério Ceni encerrava uma tarde
pouco inspirada do time do Parque São Jorge.
Tite caiu após o
barraco de Kia Joorabchian no vestiário corintiano, deflagrado
pela derrota, a segunda queda seguida em clássicos. Exasperado, o
iraniano irrompeu no vestiário da equipe alvinegra querendo uma
resposta para a não escalação de Carlos Tevez para bater o pênalti
que poderia dar ao Timão um empate, aos 42 minutos do segundo
tempo. Coelho foi encarregado da cobrança e errou.
Tite foi o menos
culpado de todos os corintianos presentes ao Morumbi naquele dia.
Apesar de errar a mão nas alterações e às vezes pecar pela falta
de ousadia, o outrora idolatrado técnico merecia um crédito extra
pelo que havia feito no ano passado com a equipe. Ah!, esqueci-me
que o futebol é o mais importante de todos os assuntos menos
importantes de todos, e que o povo brasileiro é um povo sem
memória.
E todos se
esqueceram da proeza de Tite, que levou um combalido Corinthians
da zona de rebaixamento à quinta posição do Campeonato Brasileiro
de 2004. Com um time bastante limitado, em que Fábio Baiano e
Alessandro Cambalhota foram introduzidos como salvadores-da-pátria,
quase levou o clube de Parque São Jorge à Taça Libertadores da
América, para delírio da Fiel torcida.
A vaga não veio.
Mas veio o MSI. A bem da verdade, os indícios de que o Corinthians
faria uma parceria com o fundo de investimentos surgiram na metade
do ano passado. Tite sabia quem era Joorabchian e conhecia sua
procedência. Em um primeiro momento, o técnico causou frisson ao
afirmar que, caso consolidada a parceria, estaria com os dois pés
fora do parque.
No começo do
ano, Tite recuou e aceitou comandar um novo Corinthians, com novos
jogadores e uma folha de pagamento de fazer frente aos Milans e
Reais Madrid da vida. Vieram Carlos Tevez, Sebá Domingues, Marcelo
Mattos, Marinho, Carlos Alberto. O oba-oba tomou conta da
Fazendinha.
Diz um antigo e
repetidíssimo provérbio que um grande poder acarreta uma grande
responsabilidade. E a de Tite era conquistar resultados bons e
transformar aquele grupo de estrelas em um time. O tempo era
escasso até o início do Paulistão.
Derrotas
consecutivas nas duas primeiras rodadas do Estadual fizeram-no
balançar. Ainda não contava com as estrelas Tevez, Sebá e Carlos
Alberto, que tiveram as estréias retardadas por desejo e cobiça do
chefão Kia, cuja vontade era promover uma inserção hollywoodiana
dos astros no coração da Fiel.
O tapete
vermelho foi estendido na tarde de um sábado 29 do mês de janeiro.
Sem patrocínio, qual um tecido indigno de qualquer rasura, o
Corinthians entrou descaracterizado no gramado do Estádio do
Morumbi para enfrentar o América, pela terceira rodada do
Paulista. Para a torcida e os estreantes, um dia de festa que
principiava o nascimento daquilo que se esperava fosse um time
irresistível. Para Tite e Kia, a medida das coisas: com uma nova
derrota, o técnico praticamente daria adeus ao cargo; para o
iraniano-canadense-inglês, um novo fracasso significaria que as
contratações malograram e que o dinheiro gasto, milhões de reais,
esvaeceu-se. Numa partida insossa, o Timão fez 1 a 0, gol de
pênalti de Coelho (!!), e, digamos, jogou a sujeira para debaixo
do tapete.
Depois disso, o
time conseguiu algumas vitórias no Paulista. No meio do caminho,
porém, um baque. Empate em 1 a 1 com o Sampaio Correa pela Copa do
Brasil e a necessidade do duelo de volta, em São Paulo. Um time do
calibre do MSI/Corinthians precisava de dois jogos para bater um
desafiante do Maranhão? Começaram os questionamentos.
A prova dos nove
seria tirada no clássico contra o Santos, o primeiro adversário
realmente de peso da esquadra de Tite. E que passeio deu o Santos
de Robinho, Léo e Deivid. A chacoalhada de 3 a 0 fez com que a luz
amarela se acendesse no Corinthians. No teste seguinte, contra o
Paulista, de Jundiaí (SP), outro resultado desanimador. 0 a 0.
O problema que
sobrevoava a cabeça de Tite nem eram tanto os resultados. Qualquer
grande time demora um tempo para engrenar. O que o afligia era a
dificuldade de armar um esquema que fizesse o time andar, a sair
da estagnação em que se encontrava em campo. Liberar Carlos
Alberto pelo meio, fazer de Tevez um atacante que joga em ambas as
pontas do campo, ter um centroavante matador na área, tudo isso
respaldado por um eficiente sistema de quatro zagueiros, com
Edson, Sebá, Anderson e um lateral-esquerdo à altura do restante
do elenco. Esse era o time dos sonhos de Tite.
Um triunfo de 3
a 0 sobre a Ponte Preta amainou a celeuma que começava a abater o
Parque São Jorge. Contudo, a vitória tinha sensação semelhante a
oferecer um cigarro ao quase-morto como desencargo de consciência.
O Timão jogou mal e só venceu porque a Ponte é hors-concours
no quesito ruindade.
A tragédia
anunciada cortou na pele nos dois dias que antecederam o clássico
contra o São Paulo. Vendo que a vaca, pouco a pouco, tomava o rumo
do brejo e em que Tite inexistia a mão-de-ferro necessária para
domar os astros reunidos no elenco, Kia Joorabchian resolveu
desembolsar outro montante de dinheiro para trazer Mascherano,
Gustavo Nery e Roger, e ainda sondar Kleberson e Vagner Love. O
recado estava dado: ou começava a vencer, ou Tite seria sacado do
comando técnico do time.
Kia Joorabchian
costuma ficar transtornado quando assiste aos jogos de seu
Corinthians. No domingo não foi diferente. Após a partida, desceu
ao descanso corintiano e bradou, aos quatro ventos, “What the hell?
What the hell?” (Que diabos? Que diabos?). Queira saber por que o
desconhecido e jovem Coelho havia batido o pênalti em vez de
Carlos Tevez, querido dele. Kia assinava ali a carta de demissão
de Tite, sem reconhecimento nenhum ao trabalho feito pelo técnico
em tantos meses de clube. Alguns jogadores o chamaram de louco,
bem baixinho, para não queimar o filme. Outros temeram com a
indiferença do poderoso chefão. Kia passou de admirado a temido.
De bestial a besta. E ele quer Passarela ou Bianchi. |