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SEM DONO, CORINTHIANS/MSI VAI DE MAL A PIOR
03/03/2005

Paulo Roberto Conde
pconde84@uol.com.br

Passivo e com uma postura que marca os derrotados, o Corinthians perdeu para o São Paulo no último domingo. Tite ainda recebeu uma última chance de agarrar-se a uma bóia quando foi marcado um pênalti duvidoso do zagueiro tricolor Lugano em Bobô, que entrara havia pouco no Corinthians. Coelho deu parecer que desencadeou o naufrágio total alvinegro. A bola nas mãos de Rogério Ceni encerrava uma tarde pouco inspirada do time do Parque São Jorge. 

Tite caiu após o barraco de Kia Joorabchian no vestiário corintiano, deflagrado pela derrota, a segunda queda seguida em clássicos. Exasperado, o iraniano irrompeu no vestiário da equipe alvinegra querendo uma resposta para a não escalação de Carlos Tevez para bater o pênalti que poderia dar ao Timão um empate, aos 42 minutos do segundo tempo. Coelho foi encarregado da cobrança e errou.  

Tite foi o menos culpado de todos os corintianos presentes ao Morumbi naquele dia. Apesar de errar a mão nas alterações e às vezes pecar pela falta de ousadia, o outrora idolatrado técnico merecia um crédito extra pelo que havia feito no ano passado com a equipe. Ah!, esqueci-me que o futebol é o mais importante de todos os assuntos menos importantes de todos, e que o povo brasileiro é um povo sem memória. 

E todos se esqueceram da proeza de Tite, que levou um combalido Corinthians da zona de rebaixamento à quinta posição do Campeonato Brasileiro de 2004. Com um time bastante limitado, em que Fábio Baiano e Alessandro Cambalhota foram introduzidos como salvadores-da-pátria, quase levou o clube de Parque São Jorge à Taça Libertadores da América, para delírio da Fiel torcida. 

A vaga não veio. Mas veio o MSI. A bem da verdade, os indícios de que o Corinthians faria uma parceria com o fundo de investimentos surgiram na metade do ano passado. Tite sabia quem era Joorabchian e conhecia sua procedência. Em um primeiro momento, o técnico causou frisson ao afirmar que, caso consolidada a parceria, estaria com os dois pés fora do parque. 

No começo do ano, Tite recuou e aceitou comandar um novo Corinthians, com novos jogadores e uma folha de pagamento de fazer frente aos Milans e Reais Madrid da vida. Vieram Carlos Tevez, Sebá Domingues, Marcelo Mattos, Marinho, Carlos Alberto. O oba-oba tomou conta da Fazendinha. 

Diz um antigo e repetidíssimo provérbio que um grande poder acarreta uma grande responsabilidade. E a de Tite era conquistar resultados bons e transformar aquele grupo de estrelas em um time. O tempo era escasso até o início do Paulistão. 

Derrotas consecutivas nas duas primeiras rodadas do Estadual fizeram-no balançar. Ainda não contava com as estrelas Tevez, Sebá e Carlos Alberto, que tiveram as estréias retardadas por desejo e cobiça do chefão Kia, cuja vontade era promover uma inserção hollywoodiana dos astros no coração da Fiel.  

O tapete vermelho foi estendido na tarde de um sábado 29 do mês de janeiro. Sem patrocínio, qual um tecido indigno de qualquer rasura, o Corinthians entrou descaracterizado no gramado do Estádio do Morumbi para enfrentar o América, pela terceira rodada do Paulista. Para a torcida e os estreantes, um dia de festa que principiava o nascimento daquilo que se esperava fosse um time irresistível. Para Tite e Kia, a medida das coisas: com uma nova derrota, o técnico praticamente daria adeus ao cargo; para o iraniano-canadense-inglês, um novo fracasso significaria que as contratações malograram e que o dinheiro gasto, milhões de reais, esvaeceu-se. Numa partida insossa, o Timão fez 1 a 0, gol de pênalti de Coelho (!!), e, digamos, jogou a sujeira para debaixo do tapete. 

Depois disso, o time conseguiu algumas vitórias no Paulista. No meio do caminho, porém, um baque. Empate em 1 a 1 com o Sampaio Correa pela Copa do Brasil e a necessidade do duelo de volta, em São Paulo. Um time do calibre do MSI/Corinthians precisava de dois jogos para bater um desafiante do Maranhão? Começaram os questionamentos. 

A prova dos nove seria tirada no clássico contra o Santos, o primeiro adversário realmente de peso da esquadra de Tite. E que passeio deu o Santos de Robinho, Léo e Deivid. A chacoalhada de 3 a 0 fez com que a luz amarela se acendesse no Corinthians. No teste seguinte, contra o Paulista, de Jundiaí (SP), outro resultado desanimador. 0 a 0. 

O problema que sobrevoava a cabeça de Tite nem eram tanto os resultados. Qualquer grande time demora um tempo para engrenar. O que o afligia era a dificuldade de armar um esquema que fizesse o time andar, a sair da estagnação em que se encontrava em campo. Liberar Carlos Alberto pelo meio, fazer de Tevez um atacante que joga em ambas as pontas do campo, ter um centroavante matador na área, tudo isso respaldado por um eficiente sistema de quatro zagueiros, com Edson, Sebá, Anderson e um lateral-esquerdo à altura do restante do elenco. Esse era o time dos sonhos de Tite. 

Um triunfo de 3 a 0 sobre a Ponte Preta amainou a celeuma que começava a abater o Parque São Jorge. Contudo, a vitória tinha sensação semelhante a oferecer um cigarro ao quase-morto como desencargo de consciência. O Timão jogou mal e só venceu porque a Ponte é hors-concours no quesito ruindade.  

A tragédia anunciada cortou na pele nos dois dias que antecederam o clássico contra o São Paulo. Vendo que a vaca, pouco a pouco, tomava o rumo do brejo e em que Tite inexistia a mão-de-ferro necessária para domar os astros reunidos no elenco, Kia Joorabchian resolveu desembolsar outro montante de dinheiro para trazer Mascherano, Gustavo Nery e Roger, e ainda sondar Kleberson e Vagner Love. O recado estava dado: ou começava a vencer, ou Tite seria sacado do comando técnico do time. 

Kia Joorabchian costuma ficar transtornado quando assiste aos jogos de seu Corinthians. No domingo não foi diferente. Após a partida, desceu ao descanso corintiano e bradou, aos quatro ventos, “What the hell? What the hell?” (Que diabos? Que diabos?). Queira saber por que o desconhecido e jovem Coelho havia batido o pênalti em vez de Carlos Tevez, querido dele. Kia assinava ali a carta de demissão de Tite, sem reconhecimento nenhum ao trabalho feito pelo técnico em tantos meses de clube. Alguns jogadores o chamaram de louco, bem baixinho, para não queimar o filme. Outros temeram com a indiferença do poderoso chefão. Kia passou de admirado a temido. De bestial a besta. E ele quer Passarela ou Bianchi.

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